Por Fernanda Ghazali
Agência de Notícias CEUB
O antropólogo forense Alexandre Castro, do Instituto de Medicina Legal (IML) do Distrito Federal, afirma que a maioria dos corpos não-identificados no Distrito Federal são homens adultos jovens, pretos ou pardos.
Ele, que atua há mais de oito anos no trabalho de identificação humana, afirma que recebe entre 20 e 40 casos por ano para investigação.
O processo envolve diferentes técnicas, como a papiloscopia, que analisa impressões digitais, a odontologia legal, os exames de DNA e a antropologia forense, que examina ossos e outras características físicas para estimar o perfil biológico da pessoa, como idade, sexo e estatura.
Segundo Castro, o Brasil registra mais de 750 mil óbitos classificados como desconhecidos no Portal da Transparência do Registro Civil. Os dados da Central Nacional de Óbitos de Pessoas Não Identificadas reúnem registros de pessoas que morreram sem ter a identidade reconhecida.
Por trás de cada número, estão pessoas que podem ter sido sepultadas sem que familiares saibam o que aconteceu ou onde estão seus restos mortais.
Esse trabalho é especialmente importante quando o corpo está em avançado estado de decomposição ou esqueletizado, dificultando o uso de outros métodos de identificação. Mas, para que a identificação seja possível, é preciso algo fundamental: que alguém esteja procurando.
“O problema maior é se ninguém está procurando por essas pessoas. A grande maioria dos casos que passaram por aqui e foram enterrados como não identificados foi porque não havia ninguém procurando”, afirma Castro.
Mesmo quando o IML possui recursos técnicos para realizar os exames, a ausência de familiares ou de informações que sirvam de referência pode impedir que a identificação avance.
Alexandre Castro, antropólogo forense do Instituto de Medicina Legal (IML) do Distrito Federal. Foto: Fernanda Ghazali.
Enquanto novas técnicas ampliam as possibilidades de reconhecimento, a identificação ainda depende de uma rede de informações, instituições e pessoas que mantenham viva a procura. Para quem é enterrado sem que ninguém saiba seu nome, preservar esses registros significa manter aberta a possibilidade de recuperar a própria identidade, mesmo depois da morte.
Falta de informações
A identificação humana depende de duas condições fundamentais: que o corpo seja encontrado e que existam informações que permitam estabelecer quem era aquela pessoa.
Quando uma ossada é localizada, por exemplo, o material genético pode ser coletado e inserido nos bancos de perfis genéticos. Porém, sem uma amostra de referência compatível, como a de um familiar, o cruzamento pode não produzir resultados.
Entre as situações que chegam ao instituto, o antropólogo também cita pessoas em situação de rua e indivíduos envolvidos em contextos de criminalidade. Em alguns casos, familiares deixam de procurar ou reclamar os corpos por rompimento de vínculos ou medo de ameaças. Castro ressalta, ainda, que nem sempre as famílias sabem que devem procurar a polícia e o IML ou que informações sobre características físicas, histórico odontológico e outros registros podem ajudar no reconhecimento.

O direito de saber
Castro descreve como um “luto duplo” a experiência de familiares que perdem alguém e continuam sem saber o que aconteceu com essa pessoa: “você primeiro perde a pessoa, e depois não sabe se ela faleceu ou se está viva.”
Para o médico legista e sua equipe, identificar uma pessoa significa mais do que concluir um procedimento pericial. “Quando devolvemos o ente querido para a família, é uma alegria pra gente. É uma satisfação de que o nosso trabalho foi bem feito”, afirma.
Busca
A comunicação entre instituições de diferentes estados é outro desafio. Uma pessoa pode desaparecer em uma unidade da Federação e morrer em outra.
Se a família registra o desaparecimento em seu estado de origem, mas as informações sobre o corpo encontrado não chegam aos órgãos responsáveis pela investigação, as possibilidades de cruzamento de dados ficam reduzidas.
Troca de informações
A troca de informações entre os IMLs é necessária justamente para aproximar esses dois lados: os registros de pessoas desaparecidas e os dados das pessoas falecidas ainda sem identificação.
“Se eu tenho apenas uma ossada, podemos retirar uma amostra do DNA, jogar no banco de dados e, se o instituto de outro estado estiver procurando, pode dar a confirmação. Essa conversa evoluiu bastante, mas ainda é feita de forma arcaica”, explica Castro.
Desafios
A falta de uniformidade nos métodos de coleta e registro de dados adotados pelos institutos também representa um obstáculo. Essa falta de padronização dificulta a comparação entre os dados e pode fazer com que informações importantes não sejam aproveitadas em uma investigação.
Para tentar enfrentar esse problema, em junho de 2026 o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aprovou a Resolução nº 684, que estabelece diretrizes nacionais para os procedimentos de registro de óbito, autorização de sepultamento e intercâmbio de dados relacionados a corpos não identificados ou identificados, mas não reclamados.
A norma busca padronizar os registros e facilitar o cruzamento de informações com cadastros de pessoas desaparecidas, ampliando as possibilidades de reconhecimento.
A resposta pode estar mais perto
Apesar da importância de integrar os bancos de dados, Castro acredita que parte das respostas pode estar mais próxima do que se imagina. Para ele, uma investigação bem conduzida começa com a coleta detalhada de informações junto aos familiares que procuram uma pessoa desaparecida.
Características físicas como idade, estatura, gênero e o local onde a pessoa foi vista pela última vez podem ajudar a direcionar as buscas e permitir o cruzamento com dados de corpos encontrados.
O local onde uma pessoa desaparece também pode oferecer pistas importantes. Castro desenvolveu, em sua pesquisa de doutorado, uma metodologia baseada no georreferenciamento para aproximar registros de desaparecimento dos locais em que corpos foram encontrados.
Em estudo com 120 casos solucionados entre 2018 e 2024 no Distrito Federal, o pesquisador cruzou os locais dos desaparecimentos com os pontos em que os corpos foram localizados. “A grande maioria das pessoas estão perto de onde desapareceram. Os resultados indicam que a maioria foi encontrada a uma distância de dois a três quilômetros do local do desaparecimento”, explica.
A partir das características das vítimas e da localização dos corpos, a metodologia pode auxiliar o trabalho dos investigadores e contribuir para o desenvolvimento de sistemas automatizados e mapas inteligentes, aumentando as chances de identificar pessoas que permanecem sem nome.
O destino de quem não é identificado
Mesmo quando a identidade não é reconhecida, o corpo precisa ser sepultado. No Distrito Federal, esse processo envolve a atuação do Instituto de Medicina Legal e da Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes-DF), responsável pela oferta do sepultamento social por meio do Benefício Eventual – Auxílio por Morte, na modalidade de bens e serviços.
O benefício pode incluir os serviços necessários ao enterro, como urna funerária e sepultamento. As famílias podem solicitá-lo em unidades socioassistenciais, como os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS), os Centros de Referência Especializados de Assistência Social (CREAS), os Centros Pop e as unidades de acolhimento. Na ausência de familiares no Distrito Federal, a solicitação também pode ser feita por uma pessoa da comunidade.
Nos casos de pessoas falecidas não identificadas que estão sob responsabilidade do IML, o órgão entra em contato com o CRAS de referência para solicitar o benefício. O mesmo procedimento ocorre quando a morte acontece em uma unidade hospitalar, por meio da articulação entre o hospital e o CRAS responsável pela região.
Depois do sepultamento
Após o sepultamento, o registro do local onde o corpo foi enterrado permite que os restos mortais sejam localizados caso a identidade seja descoberta posteriormente. Segundo Castro, há casos de pessoas identificadas somente anos depois de terem sido enterradas.
Além dos procedimentos realizados pelos IMLs, iniciativas nacionais buscam ampliar as possibilidades de reconhecimento. Uma delas é a Mobilização Nacional de Coleta de DNA de Familiares de Pessoas Desaparecidas, coordenada pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Em sua quarta edição, realizada entre 24 e 28 de agosto de 2026, a campanha disponibilizou 342 postos de coleta em todas as unidades da Federação.
O material genético fornecido por familiares é comparado com perfis de pessoas encontradas, vivas ou falecidas, cuja identidade é desconhecida.
Desde 2021, o número de perfis genéticos de pessoas desaparecidas disponíveis na Rede Integrada de Bancos de Perfis Genéticos passou de aproximadamente 3 mil para mais de 14 mil. Até julho de 2026, também haviam sido cadastrados mais de 10 mil perfis de familiares. A coleta pode ser realizada durante todo o ano, desde que exista um boletim de ocorrência do desaparecimento.