A Lei de Lavoisier – segundo a qual nada se cria, tudo se tranforma – parece ter encontrado uma forma interessante de se manifestar não só na natureza, mas também nas cidades, por meio das idéias do grupo Basurama, de arquitetos e designers espanhóis.
Com o trabalho de reciclagem de lixo aplicado na construção de novos objetos, os integrantes do grupo ensinam comunidades a construírem sofás, poltronas, quadros e até construções arquitetônicas a partir de resíduos e dejetos. Eles estiveram em Brasília, onde visitaram lixões e produziram peças que serão expostas nas comemorações dos 50 anos de Brasília.
“Nós trabalhamos com todos os processos de produção na sociedade capitalista. O nosso objetivo não é fazer arte, é fornecer ferramentas para que a sociedade possa compreender o funcionamento das coisas”, afirma o arquiteto Pablo Rey, um dos integrantes do grupo.
Em Brasília, o trabalho foi de iniciação. Os integrantes do grupo trabalharam a percepção de jovens das comunidades de Arapuangas, Itapuã e Estrutural. “Foram oficinas muito rápidas, tentamos captar a identidade de cada cidade. Com esse intuito, os alunos pintaram em cartazes imagens da cidade a partir de um olhar próprio”, comenta Pablo.
Antropologia do Lixo
Na opinião da professora Vera Catalão, da Faculdade de Educação (FE), o trabalho do Basurama chamou a atenção dos alunos do Instituto de Artes. “Eu acho que o grupo faz uma antropologia do lixo. Através dele, eles reconhecem a cultura de um lugar”, comenta.
A presença do Basurama em Brasília faz parte das comemorações pelos 50 anos da cidade, que será celebrado em 21 de abril de 2010. Os projetos realizados em Brasília foram patrocinados pelo Instituto Cervantes, com a colaboração da Casa da Cultura da América Latina (CAL), ligada ao Decanato de Extensão (DEX) e a Central Única de Favelas (Cufa-DF).
Na opinião de Miguel Mister, setores de recepção de lixo têm importância fundamental na organização setorial das cidades. “A Estrutural é tão importante quanto o Setor Bancário”, comenta o arquiteto. Sobre Brasília, ele ainda aponta para peculiaridades que dificultam trabalhadores do setor e possíveis intervenções de reciclagem como as do grupo espanhol. Segundo ele, “O problema em Brasília é que não se vê o lixo, ele fica escondido. E para os que trabalham com isso, as distâncias são enormes”.