Jéssica Antunes
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Terceirizados da limpeza e merenda das escolas públicas do Distrito Federal completam hoje três dias de braços cruzados. Alegando atraso no pagamento que deveria ter sido efetuado no quinto dia útil do mês, os cerca de 4 mil trabalhadores estão no meio de uma queda de braço entre empresas e o governo. Enquanto isso, estudantes sofrem. Especialmente aqueles que têm a alimentação escolar como principal fonte de nutrição.
No Centro Educacional Stella Dos Cherubins Guimarães Trois de Planaltina, as oito merendeiras não aparecem desde segunda-feira. Ali, são 1.470 alunos do ensino regular integral, além de outros 70 que fazem ensino médio tecnológico. Normalmente, são servidos café da manhã, lanche, almoço e lanche da tarde. Agora, a cozinha está vazia e as chamas do fogão, apagadas.
“Não há condições de ofertar alimentos aos estudantes. Temos um cardápio a seguir e até dá para distribuir quando é fruta. No caso de comidas quentes, não tem solução”, diz o vice-diretor, Gilberto Martins. Para piorar, parte dos estudantes espera conseguir, na escola, o alimento que não têm em casa.
Sem quem prepare os materiais expostos nas prateleiras, o ciclo de fome é estendido. “Já temos o costume de separar alguns biscoitos e sucos porque sabemos que vão passar mal e usamos de modo emergencial”, revela. Gilberto relata que, em dois anos de gestão, essa é pelo menos a quinta vez que encara uma greve dos terceirizados por atrasos de salários.
A limpeza é garantida, ao menos em parte, por funcionários que não têm coragem de aderir ao movimento. São pessoas com deficiência que precisam acumular a serviço e dar conta de toda a escola. Um homem que não quis se identificar informou que está endividado por conta dos constantes atrasos. Em casa, as compras no mercado já precisam ser feitas fiado. “A escola fica suja e a gente não dá conta. Os alunos da manhã vão receber o lugar sujo”, diz.
Sem ter de onde tirar
Segundo o sindicato que representa a categoria, o retorno aos serviços está condicionado à regularização do pagamento. As merendeiras recebem R$ 1.934 de salário e R$ 630 de vale-alimentação. Já aos funcionários da limpeza, os valores são de R$ 1.156 e R$ 630, respectivamente. A jornada é de 44 horas semanais.
A G&E Serviços, responsável por 1,5 mil cozinheiras, informa aguardar o repasse. “Os atrasos do GDF são recorrentes. A gente sempre tenta honrar com tudo, mas chega um momento em que não dá mais. Pagamos os benefícios de vale-transporte e vale-alimentação nesta semana, mas precisamos desse dinheiro para completar os pagamentos. Manter contrato sem receber contrapartida é complicado”, diz a gerente financeira Janete Saboia.

Foto: Raianne Cordeiro/ Jornal de Brasilia
O jogo de empurra
A Servegel, que presta serviço de limpeza com 300 funcionários, garante que a última vez que recebeu foi em maio. Os atrasos chegariam à cifra de R$ 18 milhões. “Essa administração pública tem atrasado, de forma contumaz, os pagamentos mensais contratados e ainda não concedeu o repasse da repactuação de 2017 e 2018”, diz ofício enviado à secretaria em 14 de novembro.
O JBr. procurou a Juiz de Fora de Serviços Gerais, que mantém 2,3 funcionários da limpeza. No entanto, a única pessoa que poderia falar sobre o tema está viajando, informou um atendente.
Secretária-geral do Sindicato dos Empregados em Empresas de Asseio, Conservação, Trabalho Temporário, Prestação e Serviços Terceirizáveis no DF (Sindiserviços), Andréa Cristina da Silva reclama que o trabalhador fica prejudicado com o jogo de empurra.
“A categoria recebe menos de dois salários mínimos e tem gente que corre risco de ser despejada de casa. Há dois anos os pagamentos são feitos depois do dia 20”, revela. Para ela, a culpa é das empresas. “Elas têm o contrato com o GDF, que pode atrasar até 90 dias a fatura do mês anterior, segundo o acordo. O problema é que os empresários não querem tirar do lucro para pagar”, diz.
Segundo a Secretaria de Educação, só está pendente o valor referente a outubro. Conforme a pasta, o repasse será feito nos próximos dias, dentro do prazo legal.
“O pagamento dos funcionários é de responsabilidade das empresas. Em caso de dias paralisados, estes são passíveis de glosas (cobrança que não coincide com o contrato) e as empresas poderão ser notificadas. As escolas que reduzirem o horário de aula deverão fazer a reposição das horas”, diz, em nota.
Saiba Mais
Não bastasse a falta de merenda e de limpeza, alunos da área rural de Planaltina estão sem transporte escolar desde o mês passado. Em 9 de novembro, o Jornal de Brasília apontou o problema.
A cooperativa Coopercam, responsável pelo serviço na área rural, está de greve, deixando 3,5 mil sem possibilidade de chegar às escolas. A dívida de repasse do GDF seria de R$ 2,5 milhões.
Na época, a SEEDF respondeu, em nota, que “tem se reunido com representantes da empresa”. O serviço ainda não foi normalizado.