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Brasília

Golpe de venda de títulos de turismo soma R$ 800 mil em prejuízo a idosos

Arquivo Geral

13/02/2019 14h45

Foto: Raianne Cordeiro/Jornal de Brasília

Raphaella Sconetto
raphaella.sconetto@grupojbr.com

Sob a promessa de vendas de títulos de turismo, como cotas e diárias, um grupo de sete pessoas fez pelo menos 14 vítimas no Distrito Federal. Quase todas são pessoas idosas. Os golpes ocorriam desde 2001. Nesta quarta-feira (13), a associação criminosa foi desarticulada e presa pela Polícia Civil. O prejuízo é estimado em R$ 800 mil, mas pode ser maior com a aparição de novas vítimas.

Segundo Ângela Maria dos Santos, delegada da Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou por Orientação Sexual ou Contra a Pessoa Idosa (Decrin), o grupo tinha uma pasta com cerca de 40 clientes. “Eles abordavam pessoas idosas, principalmente, que já tinham adquirido títulos de clubes de turismo. Muitos não usavam os títulos. Então, alegavam que nesse tempo as diárias estavam acumuladas e que poderiam ser vendidas para o mercado por até R$ 2 milhões”, explica.

Seduzidos pela possibilidade de lucrar com o título que não estava mais em uso, os idosos acreditavam na história. “Eles (os criminosos) exigiam o pagamento de taxas de regularização, anuidade, taxa de despachante, de correspondente bancário. Tudo isso para dizer que o processo de venda seria mais rápido”, comenta a delegada. Algumas vítimas chegaram a pagar R$ 200 mil ao longo dos anos. As taxas tinham valores distintos: variavam de R$ 700 a R$ 45 mil.

Delegada Ângela Maria dos Santos. Foto: Raianne Cordeiro/Jornal de Brasília

No entanto, com a demora em ter diárias ou cotas revendidas, as vítimas começavam a questionar. “Quando não suportavam mais o pagamento de tanta taxa, eles inventavam que a empresa havia falido. Outra pessoa entrava em contato, dizia que era de uma nova empresa e que iria assumir a intermediação na revenda”, detalha Ângela Maria sobre o modus operandi dos estelionatários.

Para dar a sensação de legitimidade, o grupo apresentava falsos contratos e até selos falsos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Havia também um homem, estudante de Direito, que se passava por advogado da empresa. Alguns idosos chegaram a pesquisar o CNPJ das empresas, mas constatavam que todas estavam regularizadas e legalizadas na Receita Federal.

“As empresas estão ativas e pertencem aos indiciados. Ao longo dos anos criaram diversas empresas, mas a mais utilizadas nos últimos tempos eram a Mediterrané e Master Turismo”, afirma a delegada da Decrin. Por conta do alto nível de enganação, muitos idosos sequer sabiam que haviam caído em um golpe.

Vergonha da família

A primeira denúncia chegou à delegacia especializada somente em maio de 2018. Desde então, a Decrin investiga o grupo. A delegada Ângela Maria acredita que o medo impediu que os idosos – que chegam a ter 85 anos – denunciassem a situação que acontece há 18 anos. “Muitas famílias não sabiam que o idoso pagava tantas taxas para o grupo. O medo e a vergonha dos familiares podem ter feito que eles não viessem fazer a denúncia”.

Esse é o caso de uma aposentada de 75 anos que prefere não se identificar. Sua família ainda não sabe que ela é uma das vítimas do golpe. Ela conta que faz depósitos, quase que mensais, ao grupo desde 2010. No início, os valores cobrados eram de aproximadamente R$ 200, mas depois chegaram a R$ 5 mil. “Eu conheci a empresa em um clube de Caldas Novas. Tinha muitos títulos de diárias, então estava sempre lá. Depois de um tempo, deixei de frequentar. Eles conseguiram saber que eu não estava indo e começaram a me ligar para vender os meus títulos”, relata a aposentada.

 

Foto: Raianne Cordeiro/Jornal de Brasília

 

Segundo a aposentada, ela esperava obter R$ 900 mil com a venda. “Como deixei de frequentar por muito tempo, eles diziam que minhas diárias dariam um bom valor. E eu sempre acreditando, sempre depositando as taxas”, detalha. “No fim, eu dizia que não tinha mais dinheiro. Mas a Vanda falava ‘vai dar certo, não deixa de pagar, eu considero a senhora como minha mãe, a senhora contribuiu por tanto tempo, não vai ficar sem esse dinheiro’. Eles me diziam que pelo tempo que eu contribuía eu poderia conseguir até duas cotas de R$ 900 mil”, completa.

Depois de saber que caiu em um golpe, a senhora de 75 anos diz se sentir arrependida. “A lábia era muito boa. Fico me perguntando como acreditei, acho até que enlouqueci. Me sinto lesada”, lamenta.

Crimes 

Nesta quarta-feira (13), os estelionatários foram presos na operação da Polícia Civil. O grupo, em sua maioria, era composto por familiares. Adriano Domingues Simões é considerado o líder da quadrilha. Também foram presas suas irmãs, Vanda Alves da Silva e Valdete Alves Moreira. Além deles, o filho de Valdete foi preso preventivamente – Rodrigo Alves Pereira.

Outras três pessoas, amigos dessa família, foram detidas. São elas: Maurício de Almeida, que se passava por advogado, Arlene Rosa dos Reis da Silva e outra pessoa identificada apenas como M.A.S., de 43 anos.

Um homem está foragido. Trata-se do motoboy que era responsável por pegar o dinheiro e levar documentos, além de confirmar a versão dos estelionatários. O nome do criminoso procurado é José Alberto Mourão Oliveira, 41 anos.

Além dos mandados de prisão, a PCDF ainda cumpriu buscas e apreensões em Taguatinga, Águas Claras, Vicente Pires e Valparaíso (GO). Carros e uma moto aquática foram apreendidos. Os criminosos gastavam compulsivamente os valores arrecadados com o golpe.

O grupo vai responder pelos crimes de estelionato, associação criminosa e falsidade de selo público. Com o crime de estelionato, as penas podem ser de, no mínimo, 33 anos e, no máximo, 144 anos, em caso de condenação.

 

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