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Brasília

Gincana escolar arrecada doações para ONG que ajuda dependentes químicos

Arquivo Geral

03/07/2016 21h21

Mateus Alencar

Jéssica Antunes
De um lado, cem homens que decidiram mudar de vida. Do outro, 40 estudantes de uma escola particular da Região Metropolitana do Distrito Federal. Em uma tarde de muita emoção, lágrimas e sorrisos, os dois lados saíram com algum tipo de aprendizado após troca de experiências e de palavras de conforto em uma instituição de recuperação de dependentes químicos. Justamente por  causa das drogas, um dos adolescentes viu duas pessoas da sua família serem assassinadas. Hoje, pede em forma de carta pelo fim do vício de todos aqueles que enfrentam a dependência.
Os alunos dos ensinos fundamental e médio foram divididos em dois grupos com a meta de arrecadar alimentos que seriam entregues à Salve a Si, comunidade terapêutica que acolhe dependentes químicos. Segundo os professores organizadores, foi uma forma de conscientização e prevenção ao uso e abuso de drogas. Ali, o grupo de jovens representaram toda a escola e foram desafiados a escrever uma carta de incentivo e conforto àqueles que tentam abandonar o vício. Doaram palavras de fé, força e meia tonelada de alimentos aos recuperandos.
Internos não conseguiram segurar o choro. Alunos também não. Com os escritos em mãos, foram os recuperandos quem os leram em voz alta. Carlos Eduardo, 38 anos, deu um abraço no autor do texto que o emocionou. “Ele tem a idade do meu filho e mexeu demais com meu coração. É ótimo ter jovens lutando por nós”, explicou. Músico, ele conheceu o mundo das drogas aos 12 anos, quando uma prima o ofereceu.
Dependente, perdeu oportunidades, a profissão, a casa e a dignidade. “Fiquei dois anos na rua, comendo lixo, usando todo tipo de drogas. Entrei em coma, perdi um pulmão e hoje estou na lista de transplantes. Decidi que não queria mais sofrer”, contou o homem, que diz ter terminado o ensino médio “aos trancos e barrancos”. Entre os consumos, álcool, maconha, cochina, antidepressivos com álcool e até chá de cogumelo. Foram as palavras de amor escritas por um adolescente que o fizeram chorar.
O mesmo aconteceu com um interno de 49 anos. Dois meses limpo após 25 anos de vício, o homem, que preferiu não se identificar, não teve estrutura para ler. As palavras ditas por um colega fizeram as lágrimas transbordarem dos olhos. “Eu não conheço quem escreveu, mas parece que a carta foi feita especialmente para mim. Parece que Deus usa as pessoas mesmo”, emocionou-se. Ele se orgulha por ter procurado ajuda com as próprias pernas. “Comecei no álcool, terminei no crack, que é devastador”, revelou.
Mais que doar
“Tudo o que fazemos é para eles. Agora, estamos fazendo mais porque temos a ajuda de vocês”, disse Henrique França, presidente da entidade, à turma de alunos. “A nossa razão é prevenir vocês do que aconteceu com a gente. O ser humano tem a triste mania de achar que as coisas nunca acontecem com ele. Eu, aos 11, fumava maconha sem nem saber o que era”, emendou.
“Para mim, o que vale mais não é vencer a gincana, é poder ajudar a quem precisa”, disse Laura Carvalho, 16 anos, uma das que mais arrecadou alimentos nas ruas. “Ouvi muitos nãos e percebi que as pessoas que menos têm são as que mais ajudam. Foi um desafio, mas não desistimos”, garantiu a jovem.
Entre os estudantes, havia gente que nunca teve contato com drogas, quem conhece envolvidos com o vício e quem tem exemplos dentro da própria família, como Matheus Viana, 17 anos, que viu o primo se envolver com maconha e cocaína há dois anos.  Em 2015, foi preso por porte e tráfico de drogas e passou seis meses detido.
“Me sensibilizo. Sempre que posso dou um jeito de ajudar. Eu mesmo já usei maconha. Vi que era errado e ajudo quem acha que não tem salvação, inclusive meu primo. Acho que a união é necessária e ações como a da nossa escola mais ainda. A droga não escolhe um caminho, está disponível em todos os lugares. Acontece até dentro da escola”, revelou.
Saiba mais
Hoje, 21 entidades do DF têm registro válido no Conselho de Políticas Sobre Drogas. Cinco delas, inclusive a Salve a Si, possuem contratos mantidos com recursos do Fundo Antidrogas do Distrito Federal.
São disponibilizados 152 leitos para acolhimento voluntário de pessoas adultas com transtornos decorrentes do uso, abuso ou dependência de substâncias psicoativas, em regime de residência. Cada comunidade recebe até R$ 1 mil por leito ocupado por mês, sendo o valor da diária de R$ 33,33.

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