
Naquela manhã, milhares de homens que haviam passado os últimos anos dedicados à construção de um sonho se ergueram junto aos monumentos e prédios em meio ao Planalto Central. Era um dia 21 de abril, data em que se comemora o herói Tiradentes, líder da Inconfidência Mineira, movimento que pedia pela independência do Brasil. A partir daquele dia, o suor de tantos deles passaria a ter um sentido maior, Brasília era oficialmente a capital federal. A capital de todos os brasileiros.
Em meio a tantos sorrisos e lágrimas, de candangos que sacrificaram suas vidas por aquela terra, um jovem rapaz se espremia entre tantos outros, que junto ao presidente Juscelino Kubitschek comemoravam a inauguração da nova capital. “Eu estava ali, a dez ou 15 metros dos presidentes JK e João Goulart. Havia vindo para cá em 1959, porque chamavam esse lugar de Eldorado, pois todos tinham aqui a oportunidade de melhorar de vida e ainda têm”, conta Geraldo Vital, 77 anos, que deixara a pequena Juazeirinho, na Paraíba, em busca de vida melhor.
Pau de arara
Diferentemente de tantos dos seus conterrâneos, que vieram para Brasília em caminhões apinhados de gente, Geraldo chegou de avião, com uma passagem que havia ganhado: “Comecei como auxiliar de escritório da Novacap (Companhia Urbanizadora da Nova Capital). Ainda havia a incerteza se a capital ficaria aqui ou voltaria para o Rio de Janeiro. Passada a inauguração, resolvi que devia voltar para o Nordeste”.
Naqueles dias, Geraldo acabara de perder o pai e resolveu vender um lote que havia comprado no Lago Norte, para se estabelecer financeiramente na Paraíba. “Voltando para lá, gastei o que tinha. Casei-me e fui morar no Rio Grande do Norte”, lembra. Em seu novo lar, o auxiliar administrativo teve seus dois primeiros filhos e, ao se mudar para Campina Grande, o terceiro.
Em 1968, Geraldo resolveu voltar para a “Capital da Esperança”, em busca de nova chance, com a família. E trabalhou no setor de construção. Como em sua primeira passagem, morou no Núcleo Bandeirante, cidade mais desenvolvida no início de Brasília. Geraldo, um candango, assim como seus conterrâneos, resolveu que era hora, enfim, de fincar, aqui, suas raízes.
Revistas cheias de história
Para documentar seus anos de relação e amor com a cidade, Geraldo coleciona há mais de 50 anos revistas e reportagens que contam como tudo começou aqui na capital. “Ninguém em Brasília tem esse material”, orgulha-se, expondo as publicações da época, que contam um pouco da história de Brasília e suas grandes personalidades.
O paraibano de Juazeirinho ainda cultiva por esta terra o amor de quando viu as cidades e prédios serem erguidos. “Ainda me apaixono pela modernidade de Brasília, pelos prédios daqui. Muitos funcionários públicos e aposentados querem morar em outros lugares, depois que encerram a carreira, porque o salário daqui é digno de uma vida de rei em outros lugares, mas eu prefiro ficar aqui”, declara-se Vital.
Ele reclama que o crescimento desordenado é prejudicial. “A cidade está nas mãos de empresários, que só querem erguer prédios. É só olhar para Águas Claras, que constrói edifício sobre o outro. Se continuarmos assim, daqui a alguns anos não haverá condições nem dos carros transitarem”, diz. “Brasília virou terra para gente rica. Veja o Setor Noroeste. Uma quitinete lá vale mais do que minha casa que é muito maior. A cidade foi criada para comportar 500 mil pessoas. Hoje somos mais de 2,5 milhões”, completa.