O Governo do Distrito Federal, após a reivindicação de professores, alunos e da classe artística decidiu, numa iniciativa pioneira, tornar pública a Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, a mais tradicional do DF. Com a medida, fica garantida a formatura dos atuais alunos e o ingresso de novos já a partir do próximo semestre.
Situada no Setor de Diversões Sul, no Conic, a instituição, que tem como mantenedora a Fundação Brasileira de Teatro (FTB), passa há anos por diversos problemas financeiros e administrativos: falta de remuneração dos professores, escassez de investimentos em infraestruturas, conservação inadequada do acervo artístico, dentre outros.
Tais entraves influenciaram diretamente no desempenho da faculdade que já chegou a contar com dois mil estudantes. Hoje, somente 200 frequentam as salas de artes do local.
Um desses alunos foi o diretor de teatro de Brasília, Túlio Guimarães, que, ao lado do irmão, Fernando Guimarães, forma uma das mais conceituadas duplas de diretores do país.
Professor da Faculdade desde 94, Túlio recebe com bastante entusiasmo a decisão do GDF de transformar a Dulcina de Moraes em faculdade distrital.
Segundo ele, a Faculdade Dulcina de Moraes vivia em crises sucessivas desde 1989 e foi se tornando inviável mantê-la.
“A Dulcina de Moraes é um patrimônio da cidade e estatizá-la é algo extremamente positivo porque, se não houvesse a intervenção, a faculdade ia fechar.”
Túlio Guimarães disse que a situação ficou tão grave que chegou a ficar meses sem receber salário. “Muitos professores não suportaram e saíram”, disse.
Comemorando 30 anos de carreira em 2013, Túlio desenvolve um projeto com o Grupo Viva a Vida, da terceira idade, com quem trabalha há treze anos.
“O espetáculo se chama Evoé, uma homenagem ao teatro, e a estreia será em maio no Teatro Dulcina de Moraes.”
Quem também festeja a decisão do GDF é Luzia Costa. Professora da disciplina Metodologia da Pesquisa , ela diz que o DF não pode perder uma instituição que tem tanta projeção em Brasília e uma tradição de 40 anos. Por isso, considera que o GDF tomou a decisão correta.
“Muitos professores que hoje trabalham na rede pública e privada de ensino se formaram na Faculdade Dulcina de Moraes. Garantir a continuidade dessa formação é imprescindível porque o governo precisa desses profissionais.”
É justamente para garantir essa continuidade que Governo do Distrito Federal (GDF) assumirá o projeto pedagógico da faculdade, tornando-a a primeira instituição pública distrital voltada exclusivamente para o ensino de artes.
De acordo com o secretário de Governo do DF, Gustavo Ponce de Leon, o GDF já estudava uma forma de criar uma faculdade de artes para suprir a carência das escolas da rede pública e do próprio mercado regional. “A Dulcina de Moraes também é um patrimônio artístico e cultural do DF”, acrescentou.
Articulação
A articulação que culminou nesta decisão inédita teve início ano passado. Conforme os rumores de fechamento da instituição ganhavam força e percebendo o caos que a cada dia se tornava mais real, o estudante do 7º semestre de Artes Visuais e artista plástico, Adeilton Oliveira, 39 anos, iniciou uma mobilização com universitários para reivindicar uma posição do GDF a fim de encontrar uma solução para a faculdade.
Após negociações e articulações iniciadas em novembro de 2012 e a criação de uma frente parlamentar em defesa da faculdade, o movimento foi ganhando aderência e reconhecimento. No dia 8 de março, foi realizado um ato simbólico no prédio da faculdade. O “Abraço Salve Dulcina” reuniu cerca de 150 professores, alunos e funcionários da faculdade e autoridades na praça Zumbi dos Palmares, no Conic. Além disso, os universitários lançaram um abaixo-assinado virtual chamada o S.O.S Faculdade de Artes Dulcina de Moraes, que recolheu cerca de 683 assinaturas cobrando uma medida do GDF e da Câmara Legislativa.
De acordo com a chefe de gabinete da Secretaria de Educação, Natália Duarte, a previsão, é que o GDF assuma a manutenção da faculdade no segundo semestre de 2013. “O governo tem o compromisso de assegurar o funcionamento do Dulcina para que os estudantes possam concluir seus cursos, o que é um direito básico”, afirma. Ponce de Leon ressalta que o GDF não se responsabilizará pelas dívidas da mantenedora, mas apenas pelo projeto pedagógico da instituição.
Adeilton afirma que a iniciativa do GDF foi extremamente bem recebida pela comunidade. “A Dulcina foi a primeira faculdade de artes do Brasil. E o fato de termos a oportunidade de estudar em uma instituição pública dá um grande prestígio no currículo”. E complementa: “Ninguém quer um diploma de uma faculdade falida”.
O estudante afirma que tal ação terá impacto direto no mercado de professores de artes do DF: “o Dulcina forma, por semestre, cerca de 60 professores enquanto que na UnB são apenas cinco ou seis. Asseguro que 80% dos professores de artes do DF foram formados no Dulcina”.
Para o estudante do 5ª semestre de bacharelado em Interpretação Teatral e um dos idealizadores das mobilizações, Júnior Ribeiro, 19 anos, “ter a certeza de que o patrimônio cultural e artístico de Dulcina de Moraes será preservado é motivo de muita alegria para nós, estudantes e admiradores dela”. Para ele, o maior mérito da decisão do GDF será para os jovens que querem estudar e viver de arte: “Não é fácil trabalhar com arte no Brasil. E com essa transformação do Dulcina em uma faculdade pública, mais jovens carentes terão oportunidades de concorrer a uma vaga”, assegura.
Histórico
A Faculdade de Artes Dulcina de Moraes foi inaugurada em 1970 pela atriz, diretora, produtora de espetáculos e professora de artes cênicas Dulcina de Moraes. À época, influenciada pelo presidente Juscelino Kubitscheck, Dulcina mudou-se para Brasília, transferindo a sede da Fundação Brasileira de Teatro para a cidade. Construiu, com projeto de Oscar Niemeyer, o novo Teatro Dulcina e uma das primeiras faculdades de artes efetivamente autorizadas e reconhecidas no país. Resultado desse empenho, a Faculdade Dulcina tornou-se responsável pela formação de milhares de artistas e arte-educadores na região Centro-Oeste e em todo o Brasil. Para ela, a vocação de Brasília era de ser o grande pólo de cultura do país.
A Faculdade oferece cursos de graduação em licenciatura e bacharelado em Artes Cênicas, licenciatura em Artes Visuais e Pós-Graduação nos cursos de Direção Teatral, História das Artes Visuais e Gestão de Espaços e Projetos Culturais.
Dulcina de Moraes nasceu em 1908, na cidade de Valença, no Rio de Janeiro. Foi atriz, diretora, produtora de espetáculos e professora de artes cênicas, e é considerada pela crítica como a mais importante intérprete teatral brasileira no Século XX. Fernanda Montenegro, uma das mais importantes atrizes do Brasil, afirma que Dulcina foi uma de suas referências no teatro.
Em reconhecimento à importância de sua obra, o governo do Distrito Federal assinou, em 2008, o tombamento do Teatro Dulcina e dos acervos fotográficos, cênico e de textos da atriz como Patrimônio Cultural do DF. Além disso, por meio de decreto, dedicou o ano à grande dama do teatro brasileiro.