Fábio Magalhães
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Presente na maioria das grandes cidades brasileiras, a crise da mobilidade urbana está se agravando a cada dia. No Distrito Federal, assim como em outras regiões, a utilização de transporte individual, por falta da eficiente cobertura do transporte coletivo, gera um cenário de constantes engarrafamentos, falta de estacionamentos e trânsito caótico. Aqui, o crescimento da frota foi o terceiro maior do País e chegou a 103% entre os anos de 2001 e 2011.
Apontado como um dos fatores que proporcionam essa realidade difícil na mobilidade do DF, a falta de planejamento que acompanha as novas configurações da população ao longo dos anos está em primeiro lugar. Conforme estudo do Observatório das Metrópoles, que avalia o crescimento das frotas das grandes cidades, o Distrito Federal tinha 626.064 veículos, em 2001. Dez anos depois a quantidade de automóveis circulando nesta área saltou para 1.274.792.
Publicitário, Dyego França, 24 anos, é um dos brasilienses que enfrentam o trânsito pesado da capital como condutor. Por dia, ele percorre uma média de 60 quilômetros no caminho de ida e volta de casa, em Vicente Pires, para o trabalho, no Setor de Autarquias Sul. O motivo de não utilizar o transporte coletivo é a precariedade do serviço. “Para ir de ônibus eu teria que andar por 15 minutos, até a parada, às margens da Estrutural. Isso é desgastante e já cheguei a esperar uma hora para entrar no ônibus. Se tivéssemos melhores condições, eu andaria de ônibus”, garante.
Desproporcional
Ao mesmo tempo em que o número de veículos aumenta, impulsionado principalmente pelas políticas que não incentivam o transporte de pessoas em grande volume, a quantidade de ônibus é desproporcional em relação aos habitantes. Nesta mesma década analisada, o aumento da frota de coletivos no DF foi de 88,8%, que representam 3.953 carros. Porém, a quantidade de moradores, no final da série captada, era de 2.609.998, o que corresponde a aproximadamente 660 pessoas por ônibus. Estudos apontam que, a continuar neste ritmo e se nada for feito para conter este crescimento, em 2020 o trânsito na capital dará um nó difícil de desatar.
Uma dessas usuárias dos coletivos é Carmelinda de Miranda, 40 anos. Moradora do Riacho Fundo I, ela reclama que em sua cidade os ônibus não passam com frequência e, por isso, os pontos ficam lotados. Na volta para casa, segundo ela, é outro dilema. A dona de casa precisou esperar exatos 50 minutos para poder tomar um ônibus que passasse perto de sua residência. “Fui para o Recanto das Emas e desci na BR, próximo ao Riacho Fundo. Do contrário, teria que esperar mais. Fica difícil e cansativo demais” desabafa a dona de casa.
Mais fácil sobre duas rodas
Para fugir dos engarrafamentos, economizar e ao mesmo tempo não depender do transporte público, muitos optam por se locomover em motocicletas. Pela praticidade deste veículo e pelas fáceis condições para adquiri-lo, o número de motocicletas no DF cresceu 373% em uma década, passando de 44.958 mil em 2001, para 212.807 em 2011.
Com gastos de R$ 70 por semana, Fábio Lisboa, 25 anos, garante que este veículo é o que mais se adapta à sua rotina. Com um emprego no Jardim Botânico e outro na Asa Norte, o jovem, morador do Paranoá, diz que percorre em média cem quilômetros por dia, mas que trocaria a motocicleta pelo transporte coletivo, caso houvesse mais qualidade. “O trânsito de Brasília está cada vez mais complicado e nós não temos muitas opções”, afirma.
De acordo com o urbanista e pesquisador do Observatório das Metrópoles, Juciano Martins Rodrigues, o aumento do número de automóveis em circulação e as más condições de operação das linhas de transporte urbano são problemas que se apresentam na maioria das metrópoles brasileiras. “Nas metrópoles, o impacto é mais aparente com os congestionamentos, acidentes e insegurança. Tudo resultado direto do abandono nos investimentos do transporte público de massa”, indica o especialista.
Para o especialista em trânsito Artur Morais, Brasília está seguindo uma tendência nacional no que diz respeito à precariedade do transporte de passageiros. De acordo com ele, é preciso fazer restrições ao uso de automóveis para melhorar significativamente a mobilidade urbana local. “Esse atual modelo de uso indiscriminado do automóvel não deu certo em lugar nenhum do mundo porque requer mais espaço urbano para a mesma quantidade de pessoas se locomoverem. Temos de 30 a 40 anos de atraso em relação a outras grandes capitais do mundo”, compara.
Meta é plano operacional
Diretor do Transporte Urbano do Distrito Federal (DFTrans), Marco Antônio Campanella afirma que estão sendo desenvolvidas políticas públicas para o melhor o sistema de transporte coletivo, principalmente no que diz respeito ao incentivo ao uso dos ônibus. Conforme afirma, a frota atual de coletivos é suficiente para suprir a demanda de passageiros. “Quantitativo de frota não é sinônimo de qualidade. Tem que ter um plano operacional eficiente que atenda a população com conforto, de forma rápida e é para isso que estamos trabalhando, mas o número de ônibus não vai aumentar. Um mesmo veículo passará a fazer mais viagens do que faz hoje”, planeja.
Para o subsecretário de Políticas Públicas de Transporte, Luiz Fernando Messina, os investimentos em transporte de massa estão sendo feitos desde o primeiro dia de governo. Porém, as medidas são a médio e longo prazos e, por isso, demoram a ser percebidas. “O sistema de transporte não comporta remendos, mas a reformulação. Muito mais que um projeto de governo, entendemos que é preciso a expansão e modernização do sistema. Esperamos que ele tenha comodidade, qualidade e que cumpra os horários”, finaliza.