Raquel Martins Ribeiro
Especial para o Jornal de Brasília
Com quase 40 anos de história, o Pacotão é um dos blocos mais antigos da capital federal. Ontem, o cortejo cumpriu a tradição, e reuniu um público diversificado disposto, não só a se divertir, mas, também, a manifestar opiniões sobre os rumos políticos do País. “O Pacotão é democrático. É um lugar onde podemos nos manifestar com bom humor, irreverência e alegria”, afirma Verônica Pedra, servidora pública.
Há três anos, o casal Maria Brasil e Hipólito Silva frequenta a festa popular. Em 2014, a fantasia escolhida foi a de presidiário, em referência aos políticos condenados no Mensalão. Neste ano, as denúncias de corrupção na Petrobras inspiraram o casal na hora de escolher o traje. “Todo ano escolhemos o que vamos vestir, a partir de questões atuais. No Pacotão nos sentimos seguros, as pessoas vêm para brincar e protestar sorrindo”, acredita o administrador, Hipólito Silva.
“Estou surpresa com o que vejo. Achei fantástica a ideia de brincar e protestar ao mesmo tempo. Quero vir sempre, e pretendo trazer meus filhos na próxima”, considera a bancária Roberta Ignácia, de 25 anos, que festejou no Pacotão pela primeira vez.
Sem idade
Vestido à la Indiana Jones – personagem hollywoodiano especializado em caçar tesouros –, o aposentado Paulo Trindade Roberto, de 73 anos, se montou de caçador de políticos corruptos e foi para a rua pular Carnaval. Com disposição de dar inveja a muitos jovens, Paulo conta que é mais animado que os filhos e netos.
“Eu sempre incentivei eles a parti cipar, mas essa animação de vestir fantasia, e passar o dia aproveitando é mais minha. Eles são muito devagar”, reclama em tom bem-humorado.
Não é raro encontrar foliões que acompanham o bloco desde sua primeira trajetória carnavalesca. É o caso do trio de amigos Ademar Brandini, de 75 anos; Marília Prado, de 65, e Cristina Timponi, de 62, que, juntos, não abrem mão de participar da festa popular. “Carnaval é feito comunhão, só que regada a cerveja, samba e alegria”, comemora Marília.
Para Antônia Camargo, de 76 anos, e sua amiga Marisete Neiva, de 61, esta época do ano foi feita para que todos pudessem extravasar. “Na nossa idade, não precisamos de muito para nos divertir. Este é o grande ganho que a experiência nos dá”, conclui Antônia.
Saiba mais
Criado em 1978, o Pacotão satiriza a política nacional com suas marchinhas, faixas, cartazes e fantasias. Sempre em tom de ironia e deboche, e sem perder a marca do humor.
O bloco sai da quadra 302 Norte, em direção a destino incerto na Asa Sul, atravessando a W3 pela contramão. O que começou como um bloco tímido, com pouco mais de 100 pessoas, hoje reúne entre cinco e 10 mil.
Entusiamo foi grande para os pequenos
Mesmo com cerca de 5 mil foliões, o bloco seguiu sem registros de ocorrências policiais, durante todo o percurso. O clima amistoso garantiu o ambiente perfeito para que os pais se sentissem seguros para colocar a criançada na folia. Para Luara Fonseca, arquiteta, ver os olhares curiosos dos filhos Cauã, de três anos e Caique, de cinco, vale todo o trabalho. “É uma canseira que vale a pena. Escolher fantasia, sair de casa nesse calor carregando água, fralda e lanchinhos é complicado. Mas a carinha de felicidade deles é o melhor”, explica Luara.
Já Léa Carvalho, de 56 anos, ressalta a importância de ensinar os pequenos a entenderem desde cedo o “exercício da cidadania”. A servidora, que trouxe os netos Isadora, Yan Henrique e Isabela com, respectivamente, cinco, nove e 12 anos, afirma ser grande entusiasta das festividades do Momo entre os familiares, que acabaram herdando o seu gene de foliã. “Cada dia eles virão com uma fantasia nova. Assim como eu, eles adoram estar no meio do povo, ver pessoas diferentes e brincar o Carnaval”, conclui Léa.
Para os amigos João Borges, de 12 anos, e Bruno Nemoto, de 13, só importam as guerrinhas de espuma. “A gente já jogou em um monte de gente e ninguém reclamou. Por isso, é legal. No carnaval, os adultos relaxam”, disse Bruno.
Maria e Hipólito se inspiraram em escândalo político

Paulo se montou de caçador de políticos corruptos

Ademar, Marília e Cristina (da direita para a esquerda)
