O cinema de gênero tomou conta na noite desta quinta-feira (14), no sexto dia da 56ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A produção escolhida para o penúltimo dia da Mostra Competitiva Nacional foi o longa “Cartório das almas”, do diretor Leo Bello.
Único representante da Capital entre os longas-metragens, conta a história de Laura, uma jovem de 126 anos, que começa a trabalhar no Cartório das Almas, um ambiente estranho onde as pessoas que escolhem abandonar a vida são conduzidas à “transmutação”. Em um local onde as memórias são trocadas pela juventude, Laura, sob os efeitos colaterais da decisão de não envelhecer, apenas protocola as motivações daqueles que desistem da longevidade.
A protagonista, vivida por Gabriela Correa, aos poucos começa a desenvolver vínculos com as pessoas que buscam descanso, revelando a solidão de uma vida presa ao trabalho e questionando o verdadeiro sentido da existência.
Ao Jornal de Brasília, o cineasta Leo Bello conta que a ideia do longa surgiu a partir de um momento de luto. “Eu tive uma experiência com o meu avô, que estava com câncer terminal e aí ele teve um mal súbito e uma parente pediu para reviver ele, sendo que ele já estava em um momento de despedida, sofrendo muito. Foi nesse momento que eu questionei a morte e a dignidade da morte, o sentido e se realmente vale viver a qualquer custo”.

Cineasta Leo Bello. — Foto: Divulgação/Bené França
Diferente aos outros longas presentes na mostra competitiva, “Cartório das almas” é uma ficção científica, um dos gêneros mais amados da sétima arte, isso explica o sexto dia do festival estar lotado e muitos espectadores, não conseguirem seus ingressos, e nem o atraso de mais de 40 minutos para iniciar, fez o público desanimar.
“O filme é ficção científica, Brasília já tem essa arquitetura modernista que já tem uma cara de ficção científica, em um futuro que ficou parado no tempo e a questão era falar desse tema existencial sem ser da morte um coisa fúnebre e muitas vezes o tema é retratado com muito pesar. Então dali eu quis retratar um universo mais lúdico, no qual você tratasse esse tema com leveza”, observa o cineasta.
Leo ainda declarou ao JBr estar muito feliz em participar do festival mais antigo do país. “É muito legal fazer, por que você fazer um filme na cidade, com uma produção da cidade, elenco da cidade e poder mostrar ele na cidade é uma realização única, além do Cine Brasília ser um templo do cinema brasileiro e estou muito feliz”.
Curtas da noite
Antes da exibição do longa-metragem, como nas noites anteriores, dois curtas participaram da Mostra Competitiva Nacional, “Cáustico”, outra produção candanga do diretor Wesley Gondim. Que aborda a linha entre realidade e fantasia. À medida em que Dalva e Cris, mãe e filha, buscam desesperadamente uma cura para a doença misteriosa da primeira, elas são confrontadas com escolhas morais complexas. A história explora como as fronteiras entre o que é verdadeiro e o que é imaginário tornam-se turvas.

Wesley Gondim e equipe. — Foto: Divulgação/Bené França
“A produção teve um grande desafio, visto que as pessoas já estavam acostumadas a ver no cinema, no caso do gênero do horror, então o maior desafio é você pegar um tema que já é complexo e utilizar dentro do horror. Mas eu acho que o resultado ficou muito bom”, comenta Gondim.
O segundo curta da noite foi “O Nada”, dirigido pelo carioca André Ladeia que é uma adaptação do conto de Leonid Andreiev, que retrata a história de um senhor moribundo que recebe uma visita inesperada de um diabo e precisa tomar uma decisão.

O diretor André Ladeia. — Foto: Divulgação/Bené França
“A ideia para fazer a adaptação surgiu em 2020, eu sempre tive admiração pela obra do Andreiev, e a obra dele não é muito difundida aqui, ela é muito existencialista e eu imaginei que poderia adaptar para o audiovisual em forma de roteiro. E mesmo sendo totalmente independente, sem patrocínio nem verba do governo, conseguimos estar aqui”, declara Ladeia.
O festival de Brasília continua!
A 56ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro vai até o próximo dia 16/12, com mostras competitivas de longas e curtas nacionais e de Brasília, Festivalzinho e da Mostra Paralela — Outros Olhares.