
“Quem não gosta de samba, bom sujeito não é. É ruim da cabeça ou doente do pé”, diria Dorival Caymmi. Eles não querem saber de muvuca, som alto e folia, mas, mesmo assim, não dispensam o feriado prolongado proporcionado pelo Carnaval. Até já pularam e curtiam a festa em outras ocasiões, mas, hoje, querem sossego. Ou, em alguns casos, viajar pelo País para aproveitar o tempo livre. Afinal, mesmo com estilos musicais para todos os gostos, nem todos se sentem bem como foliões.
Com nome de uma das capitais mais carnavalescas do País, o funcionário público Salvador Valera, 56, aproveitou os dias de folga que antecedem suas férias para começar a atravessar o Brasil de motocicleta. Junto com a dona de casa Vera Lúcia, 50, ele saiu do Paraná.
Encontraram o comerciante Américo Silva, 62, em São Paulo e todos estacionaram na capital federal. Serão 3,2 mil quilômetros de distância até o destino final, no Maranhão. “A gente gosta do feriado, não da festa”, afirma Salvador.
“Para que pular Carnaval?”, questionou Vera Lúcia. Enquanto os blocos de rua começavam a se concentrar pela cidade, eles aproveitavam para conhecer alguns pontos turísticos. “O Carnaval na nossa época era mais tranquilo. Hoje vira bagunça”, comparou Américo.
Mudança de vida
Aos 60 anos, Espedita Carmélia destaca que a folia, por muitos anos, fez parte da sua rotina. “Mas mudei de vida”, disse. Viúva há 18 anos, ela conta que não se sente mais confortável nos bloquinhos de rua. “Agora, sigo o caminho da igreja. Até vejo, sinto saudade, mas com o passar do tempo, vamos envelhecendo, tem que tomar remédio e a vida muda”, conta a pensionista. Nos blocos tradicionais da capital, ela nunca esteve. “Fui muito a clubes, que ficaram na memória”, lembra.
“Meu bloco é em casa”
“Com essas crianças, meu bloco é em casa”, revelou Raquel Caetano, 39 anos. A esteticista usa os dias livres durante a folia para aproveitar a família e curtir a natureza. “O Carnaval de hoje perdeu os valores. Já gostei bastante, mas daquele de antigamente. Eu ia para bloquinhos, pulava e brincava com toda a família”, diz.
Hoje, com a própria família formada, afirma não ter coragem de levar os filhos para as ruas. “Não é mais uma festa familiar, virou uma coisa muito vulgar”, acredita. Por isso, nesta época do ano, ela costuma viajar “para o interior, bem longe do Carnaval e da bagunça”. E se engana quem pensa que os filhos sentem falta. Rômulo, o mais velho, de oito anos, diz que prefere aproveitar a folga da escola para brincar com os primos e ir à roça.
Bagunça
O esposo Rômulo Gomes, 46, tem a mesma opinião. Funcionário público, ele entende que as pessoas confundem festa com badernagem. “Antes, quando íamos ao Carnaval, nos divertíamos muito. Agora, tem de estar atento para uma briga o tempo todo”, afirma.
Ele garante que “a única coisa boa do Carnaval é o feriado, porque dá para descansar e aproveitar a família”. E, no primeiro ano de festa do caçula Rafael, foi exatamente o que a família fez.
Saiba mais
Se a intenção é fugir do último dia de folia, hoje é possível aproveitar alguns pontos da cidade.
O Zoológico só fechará amanhã. Hoje, das 9h às 17h, estará com os portões abertos. O ingresso custa R$ 2, mas quem tem até cinco anos ou mais de 60 não paga.
A Feira da Torre funciona das 9h às 20h com as bancas e praça de alimentação.
Até as 18h, o Centro Cultural Três Poderes, que engloba o Panteão da Pátria, o Espaço Lucio Costa e o Museu da Cidade, receberá visitantes.
Para aproveitar o calor, a Água Mineral também estará de portões abertos durante a manhã de hoje. O funcionamento é das 8h às 13h.