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Brasília

Familiares e amigos se despedem de Cláudia

Com a morte de Cláudia, o DF chega a 7 vítimas de feminicídio em 2026, segundo os registros do painel interativo da Secretaria de Segurança Pública.

Amanda Karolyne

18/05/2026 16h05

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Com muita comoção e dor, familiares e amigos de Cláudia da Silva Nascimento, de 50 anos, prestaram as últimas homenagens em seu sepultamento nesta segunda-feira, no cemitério Campo da Esperança, na Asa Sul. Cláudia foi vítima de feminicídio, assassinada a tiros pelo companheiro Josimar Vieira da Costa, policial militar reformado. O crime foi cometido no último sábado, em São Sebastião, na Chácara 23 do condomínio Mansões Parque Brasília.

Ao som de “Tá Escrito”, música do Grupo Revelação, cerca de 100 pessoas seguiram da capela até o local do sepultamento. A letra traduzia o sentimento de todos naquele momento de despedida.

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Para Vanessa Silva, prima de Cláudia, casos como o da tragédia que assolou a família dela, são continuamente mostrados nos jornais, mas a ficha só cai quando se vive a situação de perto. “A gente vê essas coisas acontecendo com outras pessoas, vemos muito na televisão, só que a gente nunca espera que vai acontecer com alguém tão próximo, porque é uma realidade frequente.” Vanessa desabafou que a prima virou estatística, mas ressaltou que ela era muito mais que isso. “É muito triste uma vida se romper dessa forma, ser tirada do meio das pessoas que a amam desse jeito trágico”.

Vanessa afirmou que agora ficam a saudade e as lembranças boas. “A gente não entende por que essas pessoas ainda continuam, por que elas não se desapegam. Mas é difícil a gente poder julgar o pensamento, o sentimento do outro”, comentou, desolada.

Sobre Josimar, a prima afirmou que ele e Cláudia tinham um relacionamento de muitos anos. “Ele já estava aposentado e teve uma época em que ficou sem o porte de arma, pois a posse havia sido retirada. Depois, foi feita uma análise psiquiátrica e devolveram a arma para ele”, acrescentou. Josimar já havia disparado a arma em público, ocasião em que perdeu o direito ao armamento. No entanto, Vanessa apontou que o resultado foram os disparos contra Cláudia. “Aí acontecem essas tristezas, essa tragédia lamentável. É uma pessoa que nem deveria estar armada, por todos os traços violentos que demonstrava.”

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Possessividade

Para a imprensa, a sobrinha de Cláudia, a advogada Stephanie Roberta Ferreira Pessoa, descreveu a relação da tia com Josimar como extremamente conturbada. “Ele era muito possessivo e ciumento, e afastava minha tia da família”, contou. Ainda de acordo com Stephanie, a interação com ele era difícil. Ela relatou que a família tentou intervir várias vezes, pois foram diversas as situações de violência até chegarem ao trágico fim. “Teve uma época em que ela conseguiu até se desvencilhar dele, foi morar comigo por um tempo, mas infelizmente era aquele ciclo do abuso”, disse.

Segundo a sobrinha, após os episódios de violência, Josimar melhorava “de uma forma fenomenal” e, logo em seguida, voltava a ser um monstro. “Para mim ele era um monstro. Uma pessoa que teve a covardia de dar três tiros na minha tia é um monstro.” Ela contou ainda que o militar reformado não deixava Cláudia conversar com ninguém devido ao comportamento possessivo.

Stephanie descreveu a tia como um ser de muita luz. “Ela ajudava todo mundo, era uma pessoa extremamente caridosa e amiga.” A advogada contou que até brigava com a tia às vezes, avisando que algumas pessoas não eram amigas de verdade, mas Cláudia insistia em ajudar mesmo assim. “Você poderia contar com ela para tudo”, enfatizou. Para Stephanie, a relação com a tia era quase de mãe e filha. Ela considerava que as duas eram melhores amigas. “Minha tia esteve ao meu lado em situações que ninguém mais sabe que eu passei. Ela era tudo para mim.”

Stephanie deixou um conselho para as mulheres que passam por abusos psicológicos e físicos: “Eu sei que às vezes tem a questão da violência financeira, tem a violência psicológica, mas lutem por vocês. Tudo passa. Não vai ser fácil no início, mas é melhor você estar viva, ter a oportunidade de viver, do que ser enterrada sete palmos abaixo do chão.”

A sobrinha também fez um apelo para a Polícia Militar do DF e para o Estado, pedindo que as instituições se atentem à saúde psicológica dos profissionais. “Ele já tinha um histórico de perda da arma, um histórico de descontrole mesmo. Fez sessões de terapia, mas não foi o suficiente. Qualquer pessoa que conversasse com ele por 30 minutos tinha a certeza de que ele não tinha plena capacidade mental.” Ela acredita que Josimar não poderia estar armado e não tinha condições de defender a cidade.

Robson Silva dos Santos, de 47 anos, também primo da vítima, descreveu Cláudia como uma pessoa muito extrovertida, que gostava de se divertir e tinha muitas amizades. “O que aconteceu com ela foi uma fatalidade muito grande. A família já a tinha alertado sobre essa pessoa com quem convivia”, destacou. Segundo Robson, o autor do crime era um homem covarde, de temperamento forte e possessivo. “Acho que por diversas vezes ela tentou se separar dele, mas acabou voltando. E o resultado a gente viu qual foi.”

Durante a despedida, os presentes relembravam com carinho a infância e juventude de Cláudia no P Sul, em Taguatinga, embora ela vivesse em São Sebastião nos últimos anos, onde morava com Josimar. A vítima deixa uma filha de 20 anos, que havia se afastado da mãe por ser contra o relacionamento do casal. Muito abalada e chorando muito durante o sepultamento, a jovem preferiu não falar com a imprensa para preservar seus sentimentos.

Outra pessoa, que preferiu não se identificar, afirmou que Josimar tinha dois filhos de um primeiro casamento e que o tratamento dispensado à ex-mulher também era violento, nos mesmos moldes do que fazia com Cláudia.

Relembre o caso

Cláudia e Josimar foram encontrados mortos no último sábado, no Condomínio Mansões Parque Brasília, em São Sebastião. Segundo o Corpo de Bombeiros Militar do DF (CBMDF), a vítima foi morta após sofrer três disparos de arma de fogo. O acusado de cometer o crime tirou a própria vida em seguida. O caso está sendo investigado pela 30ª Delegacia de Polícia.

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