
Apreensão por porte de arma dentro do colégio, internação devido a um aborto, marcas de violência no corpo e fugas constantes. Essas são as cenas que Joana (nome fictício) tem de assistir de longe, enquanto perde a filha Marília (nome fictício), 13 anos, para o mundo das drogas e dos crimes. A menina meiga e comunicadora se transformou em uma pessoa agressiva e inconsequente aos 12 anos. Tudo em nome de um amor proibido – pela mãe e pela lei – com um homem de 18 anos.
Só o apego a Deus acalma a mãe, que buscou amparo em todos os poderes do Estado para recuperar a sua garotinha. Foram muitas madrugadas perambulando pelas esquinas perigosas da cidade à procura da filha desaparecida. Pelo menos seis ocorrências na 16ª Delegacia de Polícia de Planaltina, onde mora, e duas idas ao IML. Inúmeras visitas ao Conselho Tutelar e ao Ministério Público. Joana chegou a conseguir, após uma verdadeira guerra, uma vaga em um internato cristão em Goiânia (GO). Mas, por falta de posicionamento da Justiça, a garota perdeu a vaga. Enquanto isso, Marília continua ameaçando a mãe, agredindo a irmã e só aparece em casa para tomar banho, um dia ou outro. Depois, some sem previsão de retorno.
Flagrante
Tudo começou há aproximadamente um ano, quando Marília iniciou um relacionamento com Thiago (nome fictício), um suposto traficante conhecido na região, maior de idade. A mãe ficou sabendo disso da pior maneira possível, no meio de uma operação policial. “No dia 5 de abril de 2013, ela falou que ia para a casa de uma amiga e logo voltava. Quando cheguei em casa, do trabalho, ela ainda não estava lá”, lembra a mãe, que chegou a registrar ocorrência na 16ª DP naquela noite, pelo desaparecimento da filha.
De madrugada, enquanto Joana procurava pela filha, ela encontrou duas viaturas da PM e pediu ajuda. “Um amigo me contou que ela estaria com esse Thiago. O policial baixou a ficha dele e fomos até a sua casa. Lá, encontramos ele e minha filha, embriagados, dormindo juntos na mesma cama. Ele foi levado à delegacia e eu fui com ela para o hospital”, conta a mãe, que faz questão de repetir – a menina tinha apenas 12 anos.
Naquela noite, o autor confessou que estava “ficando” com a vítima, mas negou qualquer tipo de relacionamento sexual. A afirmação teria sido desmentida pela irmã dele, que disse à polícia que Marília a mostrou um diário onde registrava que teria perdido a virgindade com ele e que poderia estar grávida.
Mudança de comportamento
Após um exame no IML inconclusivo a respeito da suposta conjunção carnal, Thiago foi solto e Joana, no desespero, saiu da cidade com a filha mais velha, deixando a outra para trás com familiares. “Tirei ela daqui e levei para a roça. Ficamos cinco dias fora. Eu tentava conversar com ela, mas ela não me dava resposta. Tivemos que voltar, não podia abandonar a minha outra menina e tinha que trabalhar. E ele continuou indo atrás dela”, relata a mãe. O namorado de Marília já tinha antecedentes criminais quando menor.
Aos poucos, a mãe percebia que perdia a sua menininha. As roupas da garota eram cada vez mais curtas, a comunicação entre elas piorava e a agressão verbal contra a irmã e a mãe se tornava frequente. “Eu tento conversar e ela me agride com palavras. Tinha noites que ela chegava de madrugada, enfiava a mão por dentro da janela e sacudia a irmã, na cama. Eu não durmo mais, de medo”, confessa, desesperada.
Violência
Dois meses depois da ocorrência policial que expôs o relacionamento de Marília com Thiago, em junho de 2013, Joana teve de retornar para a delegacia, dessa vez para sua própria proteção. “Thiago e Marília apareceram lá em casa e eu disse que não autorizava aquele relacionamento. Nessa hora ela jogou uma chapinha de cabelo em mim, pegou uma faca e partiu para cima de mim”, recorda.
Ainda certa de que deveria retirar a filha daquela situação, ela seguiu o casal até o carro, onde estava dois amigos, que também a ameaçaram de morte. “Se a senhora chamar os homens pra gente, é mau para a senhora”, disse um deles. “A senhora não é doida de chamar a polícia para mim. Se eu rodar, eu te pego”, provocou o outro.
Há mais ou menos um mês, Marília voltou para casa após um ano morando com o criminoso, mas a situação está longe de melhorar. Desde seu retorno, ela pediu para voltar à escola, mas raramente vai às aulas. “Ela sai de casa, vai para o colégio e nem entra. E, quando vai, acontece o que aconteceu na última quarta-feira”, diz a mãe, a respeito da apreensão da filha por porte de arma dentro do colégio.
Ela ameaçou um colega de turma durante uma briga. “Quando eu fui buscá-la na DCA, ela falou que ia me matar porque eu não fui impedir que prendessem ela na escola. Nessa noite eu nem dormi direito”.
Nunca se sabe onde está
Embora Marília more na casa da família, em Planaltina, a mãe nunca sabe onde ela está quando sai de casa ou quando vai voltar. A equipe de reportagem do Jornal de Brasília foi surpreendida com a chegada de Marília na casa da mãe durante a entrevista. As vestes e o comportamento da menina destoam da maioria das garotas de sua idade. Ela bateu agressivamente no portão da casa repetidamente e exigiu que abrissem a porta.
Marília entrou em casa com uma outra menina – colega do colégio, de acordo com Joana – e passou direto pela mãe, como se fosse uma desconhecida. Entrou no quarto sem dizer uma palavra, pegou algumas peças de roupa e foi embora, mais uma vez, sem dizer nada. “Agora ela só volta segunda-feira”, prevê a mãe, que amarga um sentimento de impotência.
Esperança
Joana espera alguma ação do Estado e se agarra à fé para não perder esperança de que essa história tenha um bom desfecho. “Vem esse rapaz e a influencia a essa vida. Nada foi feito pela Justiça e agora minha filha é dependente das drogas, vive desse jeito”, desabafa.
Os nomes de mãe e filha foram preservados em respeito ao Estatuto da Criança e do Adolescente.