Isa Stacciarini
isacoelho@jornaldebrasilia.com
A equação não fecha. Faltam leitos e pediatras especialistas no atendimento em UTI neonatal e sobram pacientes. Devido à lacuna, a crise está instalada nos hospitais do DF, tanto públicos quanto privados. Esta semana, o Santa Lúcia sugeriu aos pais de bebês pacientes que transferissem seus filhos para outra instituição, por falta de equipe médica. Um acordo entre as partes permitiu que os pacientes continuassem internados no hospital até que todos recebam alta. Não haverá novas internações.
Atualmente, existem apenas oito UTIs neonatal na rede privada e apenas oito leitos em toda a rede pública. Só quatro hospitais particulares possuem exclusivamente UTIs pediátricas . Cuidados neonatais é uma subespecialidade da pediatria dedicada a bebês com até 30 dias de nascido.
No momento, a especialidade de pediatria não é uma das mais procuradas pelos médicos. Além de uma graduação de seis anos, os interessados têm de investir tempo e dinheiro para fazer residência e especialização, no mínimo mais quatro anos. Só depois de dez anos o médico pode ser chamado de especialista.
Somados a essa realidade, os honorários considerados baixos afastam os profissionais. De acordo com intensivistas pediatras, uma consulta particular, que pode custar até R$ 400, é reduzida nos planos de saúde, que repassam ao médico um valor aproximado entre R$ 15 e R$ 30.
Não compensa
O presidente do Sindicato dos Médicos do DF (Sindmédico), Gutemberg Fialho, explica que, para os médicos, já não é mais tão compensatória a área de pediatria. “Enquanto os honorários não forem atrativos, vai continuar ocorrendo deficiência de especialistas. Os profissionais estão indo para outras áreas com remuneração maior e os que decidem ficar já não atendem mais por convênios”, aponta.
Especialistas confirmam que a realidade não é nada animadora nos 14 hospitais da rede pública. Do total, apenas quatro possuem unidades neonatais e três deles pediátricas. A Secretaria de Saúde do DF (SES-DF) não confirma os dados. Segundo a pasta, atualmente há 70 leitos disponíveis para receber crianças em todos os hospitais públicos.
O secretário adjunto de Saúde, Elias Fernando Miziara, reconhece que o número é insuficiente.
Ele informa que a expectativa é que a ativação de dez leitos no Hospital Regional de Sobradinho (HRS) e mais dez no Hospital Regional do Gama (HRG) ocorra até fevereiro de 2013.
Recém-nascidos na fila
De acordo com a Defensoria Pública, hoje existem cerca de dez crianças na fila de UTIs pediátricas e neonatais aguardando internação devido à falta de especialistas e ausência de leitos.
O Sindicato Brasiliense de Hospitais (SBH) afirma que os hospitais não são obrigados a manter um atendimento de unidades de terapia intensiva, uma vez que o serviço é particular. A superintendente do sindicato, Danielle Feitosa, confirma a realidade e avisa que esses serviços são privados dos hospitais.
A intensivista pediatra Andréa Kairala explica que o problema começa em função do baixo número de UTIs neonatais e pediátricas. A médica aponta que, devido à situação de poucos leitos, crianças acima de 12 anos, que deveriam ser internadas em unidades infantis, ficam em UTIs adultas.
Segundo a pediatra, a crise começa pela falta de interesse dos médicos em fazer pediatria que acabou, ao longo do tempo se transformando em uma especialidade pouco valorizada, tanto que, atualmente, quase nenhum especialista atende por convênio”, ressalta.