Jurana Lopes
Especial para o Jornal de Brasília
A menos de dois meses para o recesso escolar, há escolas da rede pública de ensino com falta de professores. Segundo o sindicato da categoria (Sinpro-DF), seriam necessários 6 mil docentes para cobrir todas a carência existente no DF, e a Secretaria de Educação (SE-DF) afirmou, em nota, que foi autorizada a contratar 6,5 mil temporários. No entanto, a pasta informou que cerca de 5 mil foram chamados.
Essa insuficiência de profissionais ocorre, em alguns colégios, desde o início do ano, e os alunos são os mais prejudicados. Outro fato que atrapalha são os atestados médicos e afastamentos por até 15 dias, pois a pasta não envia professores temporários para licenças de até duas semanas, conforme o Sinpro-DF.
Liberados mais cedo
Os alunos do Ensino Fundamental do Centro Educacional 8 do Gama são prejudicados pela falta de professores desde o início do ano letivo. A escola tem carências nas disciplinas de Matemática e Ciências. “A professora de Ciências deu aula por uma semana e, depois, se afastou por problemas médicos. Os alunos estão sem nota de Ciências no 1º bimestre. O de Matemática deu aula por pouco tempo e saiu. Solicitamos o envio de temporários, mas até agora nada. A secretaria sempre alega que vai enviar, mas nunca chega”, explica o diretor da unidade, Tarsis da Costa.
Por causa disso, os alunos são obrigados a fazer nada no pátio do colégio até o horário de outra disciplina ou são liberados mais cedo. A escola atende, durante a manhã, Ensino Médio e, à tarde, Ensino Fundamental. Segundo o diretor, são 650 estudantes do turno vespertino prejudicados. “Para piorar, temos mais dois professores que estão de atestado esta semana, ou seja, estamos sem quatro. Nem gostamos de liberar mais cedo porque a região é perigosa e há muitos assaltos”, conta. Segundo o diretor, falta policiamento na escola.
Alunos lamentam
“Desde o início do ano, não tenho aula de Matemática. Somos obrigados a ficar no pátio sem fazer nada. A gente não aprende e, na hora da prova, a gente não sabe responder”, avalia a estudante do 6º ano Rebeca Nunes, 11 anos. O colega de classe Breno da Silva, 15, conta que, quase todo dia, tem um ou dois horários vagos e relata que há professores que faltam com frequência e não se importam se eles ficarão sem aula.
Pais se queixam
Márcia Alves, 34 anos, tem um filho que estuda no CED 8 do Gama e diz que está preocupada com a falta de professores. “Se eu colocar em outra escola, não vai adiantar porque é a mesma coisa. Uma aula perdida já prejudica muito o aprendizado”, opina.
A telefonista Kátia Tatagiba, 47 anos, tem duas filhas matriculadas no colégio e conta que a mais velha ficou sem aulas de Filosofia durante quase todo o ano passado. Quando o professor chegou, conta, passou tantos trabalhos que ela não conseguiu acompanhar o ritmo e, por causa disso, ficou com dependência na matéria. “Este ano, ela tem todos os professores, já minha caçula está sem docente de Ciências e Matemática. Estou super preocupada porque são matérias de extrema importância. O aluno não aprende direito e fica sem bagagem para, no futuro, passar no vestibular”, avalia.
Sindicato está de mãos atadas
A filha de Vera Lúcia Barreto, 42 anos, auxiliar de serviços gerais, passa pelo mesmo problema de falta de professores no CED 8 do Gama. Adrielly, de 12 anos, chega mais cedo em casa quase todos os dias. “Este ano, já começou mais tarde e, para piorar, minha filha está sem aula de Ciências e Matemática. Daqui a pouco, chega o recesso e nada se resolve. São 16h e ela está em casa. Me preocupo porque, desse jeito, não aprende e não gosto que ela fique sozinha em casa. Não é todo dia que estou em casa ou chego mais cedo do trabalho”, lamenta.
O Sindicato dos Professores do DF (Sinpro-DF) está apreensivo com a situação dos profissionais e cobra mudanças, a começar pela convocação dos aprovados no último concurso, realizado em 2013. “A Secretaria de Educação tenta camuflar a realidade. Em todo início de ano letivo, independentemente de crise, deve-se convocar aprovados em concursos para cobrir os que se aposentaram. Porém, 2015 começou sem essa convocação”, reclama o diretor de imprensa do Sinpro-DF, Cláudio Antunes.
Segundo ele, cerca de 240 professores se aposentaram, e, mesmo assim, não convocaram os aprovados. “Essas vagas estão abertas porque os temporários não podem substituir aposentados”, explica.
Convocação
De acordo com o Sinpro-DF, a última convocação foi em setembro de 2014. Além disso, o sindicato alega que, nas reuniões, a secretaria faz de conta que está tudo bem e, sempre que é cobrada para convocar os aprovados, alega que a demanda foi passada para o governo e que não há verba para nomeações.
“É algo triste porque há professores para assumir essas vagas e alunos ficam sem aula por causa disso. É uma economia para os cofres do governo em detrimento da qualidade de ensino”, lamenta.
2016
Segundo Antunes, para que o ano letivo de 2016 não comece com falta de docentes, seria necessário a realização de um novo concurso para efetivos o quanto antes. “Caso não seja feito um novo certame até o final de agosto, o ano que vem vai começar com falta de professores porque ainda não terão reposto as vagas dos aposentados do ano anterior. Este ano, teremos mais professores se aposentando e o banco de vagas do último concurso já esgotou em algumas disciplinas. É uma situação preocupante. A educação vai ficar em estado caótico”, prevê.
Déficit educacional
Washington Dourado, diretor do Sinpro-DF, conta que o governo não quer se comprometer com a melhoria da qualidade de ensino. “A secretaria não faz nada e nem dá expectativa. Estamos com medo de 2015 ser um ano perdido. Com a falta de professores, cria-se um déficit de conteúdo. No ano seguinte, o aluno vai ter problemas, pois não tem como recuperar.”
O Sinpro-DF denuncia que o número de temporários convocados foi bem menor que a demanda. “Seriam necessários cerca de 6 mil para cobrir tod s as carências, mas não foi chamado todo esse quantitativo. E, quando há carências de até 15 dias, a SES-DF não envia substituto”, afirma o diretor de imprensa do Sinpro-DF, Cláudio Antunes.
“Ausências são pontuais”
Sobre a convocação dos aprovados no último concurso, a Secretaria de Educação afirma que o processo de nomeação dos professores está no governo, onde aguarda aprovação, e diz que não há previsão de quando será realizado um novo certame.
Em nota, a secretaria informou que foi autorizada a contratar 6,5 mil professores temporários ao longo do ano, “não havendo a obrigação de efetuá-las de uma única vez”. A SE-DF disse também que cerca de 5 mil profissionais temporários foram chamados.
Por causa do não envio de professores temporários para carências de até 15 dias, cerca de 70 crianças da Escola Classe 8 de Taguatinga ficam em casa em vez de ir para a escola. No portão, há um aviso, colado desde a última semana, dizendo que alunos de determinadas professoras não terão aula.
Atestado médico
Segundo a direção do colégio, duas professoras estão de atestado médico com prazo inferior a um mês e que já foi solicitado à Secretaria de Educação que fossem enviados substitutos, mas, até agora, não chegou nenhum. Como não há professor, a direção explica que os alunos são dispensados e estão sem aulas. A secretaria, por sua vez, informou que eles são chamados de acordo com a necessidade.
A pasta explicou também que as ausências de profissionais da carreira de magistério público em salas de aula são pontuais e surgem, eventualmente, no decorrer do ano letivo. A SE-DF justifica que o número oscila, pois, ao mesmo tempo que um professor entra de licença, outro retorna para a atividade fim.