As férias escolares do meio de ano já estão chegando e o cenário de algumas escolas públicas do DF é desanimador. Sobram problemas e, o pior, são antigos, velhos conhecidos da população. Faltam professores, as classes têm goteiras, os alunos ficam fora de sala em horário de aula, muros e paredes pichados, e, em Ceilândia, até pombos ameaçam os alunos.
Não é à toa que um relatório do Tribunal de Contas do Distrito Federal (TCDF) reprovou 87% das escolas mantidas pelo GDF. Isso quer dizer que de cada dez instituições de ensino pelo menos oito seriam reprovadas no quesito infraestrutura, com problemas de infiltrações, goteiras, desnível no piso, carteiras quebradas e pouca iluminação, situações incompatíveis com a atividades escolares.
Para o presidente da Associação de Pais e Alunos, Luís Claudio Megiorin, a triste realidade se reflete nos baixos índices de rendimento e na evasão. “Se o ambiente não for minimamente acolhedor, não tem como aprender, e a desistência acaba se tornando comum”, disse.
No ano passado, o índice de evasão escolar no DF estava em 31,2%, de acordo com dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Ou seja, um terço dos alunos abandonaram as salas de aula. Hoje, segundo dados da associação, das 653 escolas públicas, 300 estão em reforma. “Isso porque não há onde realocar alguns alunos de colégios que precisam de revitalização, senão o número seria maior”, ressaltou Luís Claudio. A seu ver, deixar que as unidades chegassem a tal ponto é um “descaso do governo”.
No Centro Educacional 2, do Guará I, faltavam professores na última sexta-feira. A professora de Biologia teve uma consulta médica, e deixou atividades para a turma. A de português estava com problemas pessoais e pediu à direção para se retirar. “Esses casos são raros, mas acontecem de vez em quando”, salientou a diretora da Regional, Tânia Passos.
Doenças
Em Ceilândia, a escola Caic Bernardo Sayão sofre com a invasão de pombos. As aves, transmissoras de várias doenças, estão por todo canto. O colégio, que tem hoje mais de mil alunos, está infestado de ninhos.
“Dedetizamos diariamente o local. É insuportável o cheiro”, desabafou a diretora Neuza Maria da Silva, 52 anos. As janelas da unidade, que sempre ficam fechadas, estão cobertas por fezes. Ela contou que o problema existe há, pelo menos, 20 anos. “Ninguém faz nada”, ressaltou.
Pombos afetam crianças
As mães reforçam o coro no Caic Bernardo Sayão, em Ceilândia. “Minha filha estava com coceiras por conta dos piolhos desses bichos. É um absurdo uma situação dessas”, desabafou a dona de casa Elisângela Maria Melo, 31 anos. Para ela, a prioridade deveria ser a saúde dos alunos. “Por isso, exigimos solução”, completou. A diarista Janeilde Sousa, 35, mãe de um aluno, acredita que para os alunos alérgicos, a presença das aves é ainda pior.
A Secretaria de Educação informou que, “principalmente no período de chuva, algumas escolas ficam mais prejudicadas pelas condições estruturais antigas. Entretanto, diz que o órgão trabalha com o planejamento de obras prioritárias, nas quais as escolas mais precárias têm prioridade de atendimento”.
Um problema recorrente nas escolas
Na Escola Classe 415 Norte, a falta de professores atrapalha o rendimento dos alunos do Ensino Fundamental. “Nos primeiros três anos de alfabetização da criança, é imprescindível que os educadores tenham compromisso com a causa”, lembrou a diretora da unidade, Nailda Rocha, 56 anos.
De acordo com ela, três professores de turmas iniciais estão de licença. Outra, que está grávida, deve entrar com o pedido de afastamento por 30 dias. “Estou aqui há 14 anos e posso te dizer, com certeza, que isso é recorrente”, afirma. A diretora contou que está de mãos atadas, pois os servidores são amparados por lei.
A legislação diz que o professor pode apresentar um atestado de até três dias, diretamente à chefia imediata, uma vez a cada bimestre do ano civil. A mesma regra estabelece que, quando o atestado se estende por mais de 30 dias, o servidor deve passar por junta médica. Segundo dados da Secretaria de Educação, no período de janeiro a 18 de fevereiro deste ano foram apresentados 1,1 mil atestados. Uma média de 51 dias de afastamento. Em 2012, o índice de declarações médicas ultrapassou a casa dos 24 mil. O número atual de professores ativos é de 40 mil. Estão excluídos dos dados os afastamentos relativos à licença maternidade e os atestados entregues à Coordenação de Saúde Ocupacional.
Na falta de professores, Nailda e a vice-diretora, Kenia Soares, 42 anos, revezam-se nas salas de aula para que as crianças não percam dias letivos. “É muito ruim para as crianças não terem um professor fixo que acompanhe o desenvolvimento delas. Elas se sentem inseguras. Muitas nem querem entrar em sala de aula”, contou a diretora.
Temporários
A secretaria informou que o governo autorizou 6,5 mil contratos temporários, cujos selecionados assumem as carências em caso de professores efetivos se afastarem do cargo. Mas isso ainda não resolve, segundo Nailda: “Quando os alunos começam a acompanhar a didática do substituto, vem o outro e assume. É muito confuso para eles todo esse processo”.
No Gama, o problema da Escola Classe 06 foi um curto-circuito na rede elétrica. Os alunos ficaram quase um mês sem energia nas salas de aulas. No início da semana, a direção do colégio, que atende 308 estudantes do 1º ao 5º anos do Ensino Fundamental, suspendeu as aulas após recomendação da Defesa Civil. O órgão verificou a presença de fios elétricos expostos, que colocam em risco a vida dos alunos.
Ação por melhor atendimento
A Escola Classe 7, que fica na QE 38 do Guará II, tem sido alvo de diversas reclamações de pais de alunos. Faltam, segundo eles, livros didáticos há três meses, auxiliares para crianças com deficiências físicas e psicológicas e professores para as crianças. Os pais decidiram entrar em conjunto com uma ação no Ministério Público contra o Estado pela falta de atenção com a educação das crianças.
Dos Reis, 37 anos, afirma que é um caso muito complicado: “O maior problema para mim é a falta de livros. Ela tem deficit de aprendizado e o atendimento dela precisa ser melhorado na escola. Isso tem feito com que minha filha não aprenda nada direito”. Segundo a Regional de Ensino, o problema dos livros ocorreu por terem sido vítimas de um assalto quando as publicações chegavam a Brasília.
Selassie Virgens é coordenador da Regional de Ensino do Guará e informa que as medidas cabíveis para resolver o problema já estão em andamento. Kleberson Gomes, pai de uma aluna especial, reclama da falta de auxiliares de inclusão para as crianças. Já Nayana Pinheiro Pereira se diz preocupada com a situação da escola: “Minha filha só viu português e matemática na vida. Ela estuda na escola e nunca aprendeu nada direito devido a toda essa confusão”. A direção da escola não retornou o contato até o fechamento da matéria.