Raphaella Sconetto
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Fake News. O tema transcende o debate apenas entre jornalistas e profissionais da comunicação e já toma de conta de conversas em todos os setores da sociedade, principalmente após as eleições presidenciais em que o assunto esteve em alta. No intuito de qualificar as discussões e entender quais são os impactos das fake news, o Conselho Federal de Administração (CFA), em parceria com a Embaixada da França, promoveu ontem uma palestra com dois pesquisadores franceses.
Para o sociólogo Dominique Cardon, PhD em Ciências Políticas pela Universidade de Nova Iorque, as mídias exercem um certo tipo de influência, mas a verdadeira influência se dá quando a troca de informações é transversal – de pessoa para pessoa. “Não quero dizer que as fake news não têm importância, não quero diminuir as inquietações dos pesquisadores, mas fico me perguntando se não estamos fazendo demais, se não estamos dando poder excessivo às novas mídias”, provoca.
Cardon acrescentou à discussão o fato de que notícias na internet não são necessariamente imediatas. Ou seja, não é todo o público que vai conseguir ver algum tipo de conteúdo, pois a visibilidade é diferente para cada usuário. Para esse teoria, ele deu o nome de “exposição seletiva”.
O estudioso, porém, não nega que há uma produção massiva de notícias manipuladas. Em sua pesquisa, o francês constatou que durante as eleições dos EUA as fake news não representaram nem 1% do conteúdo ao qual os eleitores estiveram expostos.
Escolaridade
O segundo pesquisador francês a participar do debate foi Patrick Le Bihan, professor da Universidade de Paris Est. Assim como Dominique Cardon, as pesquisas de Le Bihan tentam mensurar os efeitos das fake news. Ele também acredita que são poucas as consequências da distribuição das informações. Para Bihan, o nível de escolaridade não tem ligação com o compartilhamento de informações falsas. “No debate público, temos a noção de que o eleitorado que for mais educado e racional poderá controlar melhor o governo. Mas temos resultados que mostram que não é necessariamente verdade que esse eleitor fará mais pressão no trabalho de um político”, indica.
Para mostrar o seu ponto de vista, Bihan exemplifica. “Digamos que temos um eleitor emotivo. Ele não aguenta mais corrupção, sabe que não tem como mudar a realidade, uma vez que todos os candidatos são corruptos. Diz que não tem jeito, que não tem solução e não consegue encontrar o equilíbrio. A partir disso, temos a criação de um novo fenômeno: o eleitor que estiver cada vez mais emotivo e menos racional será o mais vulnerável às fake news”. Ele cita que esse fenômeno pode ter acontecido aqui no Brasil.
No entanto, o professor volta a questionar os impactos da fake news. “Não tem como a gente medir se a pessoa foi convencida por aquela notícia, ou se já tinha uma opinião formada. É a mesma história do ovo e da galinha”, brinca.