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Brasília

Fácil acesso às redes sociais torna a vida dos usuários um diário aberto

Arquivo Geral

14/11/2011 17h48

Kátia Gomes

katia.gomes@clicabrasilia.com.br

 

O primeiro amor, o primeiro beijo, as notas baixas, as brigas na escola. Esses eram alguns dos principais temas registrados naqueles caderninhos, que os adolescentes tinham, que viviam trancados a sete chaves, os diários. Há alguns anos, era comum as pessoas escreverem sobre as atividades do dia a dia, os segredos que as angustiavam, os desentendimentos com a família e até mesmo as alegrias e conquistas. Com um detalhe: tudo tinha que ser bem escondido. Hoje, as informações mais importantes estão expostas para todos, graças às redes sociais. Orkut, Facebook, Twitter, MySpace e demais plataformas de relacionamento virtual tornaram-se verdadeiros diários abertos, onde as pessoas postam tudo o que costumam fazer, os lugares que freqüentam e os namoros que começam. Ou terminam.

 

Para a psicóloga Lívia Borges, essa mudança ocorreu com a evolução tecnológica, a influência cultural e a mudança de hábitos. A mídia também exerce certo controle sobre o comportamento das pessoas, e dita como devem se comportar ou agir. “Muitos sentem a necessidade de tornar pública a vida, para talvez mostrar que é tão interessante como a do outro, para se sentir amado, valorizado e assim serem aceitos pela sociedade. Esse é o reflexo da mudança cultural de hábitos e valores”, pontua.

 

Outro fenômeno que ocorre, segundo a psicóloga, é que as pessoas acabam ficando viciadas na vida alheia. Sentem prazer em ‘cuidar’ e vigiar a rotina dos amigos, ou conhecidos. “Quando isso acontece, a pessoa passa a viver uma vida artificial ou acaba tento uma competição dentro dela. Essa é uma necessidade antiga, só que antes as crianças chegavam à escola e corriam para contar o que fizeram de bom nas férias, às vezes até mentiam para parecer que foram mais legais do que na verdade foram. Hoje isso também acontece, só que nas redes sociais”, alerta.

 

Lívia Borges explica que muitos adolescentes não têm o discernimento do que é certo ou errado. Se alguma pessoa mal intencionada quiser prejudicar ou fazer alguma maldade, poderá encontrar facilidades para obter informações sobre sua eventual vítima. Alguns não sabem os riscos que correm ao expor dados pessoais indiscriminadamente. Segundo ela, o adolescente deve avaliar as consequências, pesar o que deve ou não ser divulgado e aprender a usar as ferramentas de maneira segura.

 

Redes Sociais

A estudante Laryssa Prates, 19 anos, tem as redes sociais como fiéis companheiras. Ela utiliza o MSN, Orkut, Facebook e Twitter diariamente. Laryssa conta que cresceu com a tecnologia e, à medida em a web evoluía, ela foi trocando o caderno pelo teclado e o monitor. “O Twitter é como se fosse o meu antigo diário, que mantive durante três anos. Confesso que ainda não o abandonei totalmente, nele eu guardo os segredos que não podem ser revelados publicamente”. A estudante conta que posta tudo o que faz durante o dia. “Gosto das redes sociais pela interação que elas me possibilitam com os meus amigos. E também me permitem conhecer novas pessoas”, revela.

 Foto: Reprodução

A secretária Angélica Lopes confessa que é viciada nas redes. Ela mantém conta no Orkut e Twitter, mas sua preferência é pelo Facebook, pois ele permite uma maior interação com os outros usuários. “Eu passo o dia inteiro on line, desde que chego ao trabalho até a hora de sair, sempre que consigo escrevo alguma coisa na minha página ou comento o recado dos meus amigos”. Angélica conta que utiliza a rede social para tudo. “Eu gosto de interagir com meus amigos, comentando o que eles escrevem, as fotos que postam, os chamo pra sair, dou algum recado, converso no bate-papo e comento sobre a vida das pessoas”, diverte-se. 

 

Foto: ReproduçãoA jornalista Bruna Torres e outras quatro amigas mantêm um blog sobre videogame. Elas são usuárias das redes sociais principalmente para a divulgação do blog. No Twitter e Facebok são postadas as atualizações diárias que publicam. Em seguida, elas propagam o que escrevem em sua página nas redes sociais. “Nós postamos no blog o que sai de novidade no mundo dos games, entrevistas exclusivas que conseguimos, eventos que cobrimos e participamos, alguma curiosidade. Enfim, tudo relacionado a videogame”, explica.

 

Bruna conta como nasceu o blog. “Surgiu de uma ideia minha e de uma outra integrante, a Carla Rodrigues. Nós trabalhávamos juntas em uma revista especializada em games e cada uma tinha um blog pessoal sobre videogame. Resolvemos unir nossos conhecimentos em um só, e daí criamos o Girls of War. Com o passar do tempo fomos chamando outras integrantes, para cobrir algumas lacunas que faltavam, como por exemplo, uma que gostasse de RPGs, outra de jogos antigos. E foi assim que, respectivamente, Clarice dos Santos, Viviane Werneck e Rebeca Gliosci entraram para o nosso grupo”, conta. 

 

Por incrível que pareça, elas não se conhecem pessoalmente. Depois de três anos de blog, a primeira vez que elas irão se encontrar será em 2012, na Campus Party Brasil, onde realizarão palestrar sobre a página. 

 

Querido Diário.  Era assim que a jornalista Tamara Peixoto, 28 anos, começava a escrever no seu caderninho. Na verdade, não era um pequeno que cabia na bolsa, era grande de 10 matérias que ali colocava tudo que sentia, pensava, as alegrias e fazia planos. Ela conta que começou a escrever no diário com 14 anos e na época tinha perdido uma tia muito importante. Foi a partir daí que ela começou a desabafar e fazer perguntas, e tentava responder as muitas dúvidas de sua cabeça. Tudo isso para tentar entender o que acontecia em sua vida. “O diário é diferente de um psicólogo ou terapeuta. O caderno não tem como responder. Fui algumas vezes a terapeutas, mas eu não gostava. Gostava mesmo era de caneta e meu diário. Com o passar do tempo, eu não consegui substituí-lo pelo computador. No computador parecia mais um texto qualquer, e quando era escrito a mão parecia ser mais fiel. Em um dia de ansiedade e nervosismo, as letras saíam um pouco atropeladas, parecia que eu pensava mais rápido do que escrevia. Nos dias felizes e calmos, a letra sempre estava redondinha e bem desenhada”, conta.

 

Hoje em dia, Tamara passa o dia conectada no Facebook, troca mensagens com os amigos e faz novas amizades, mas ela confessa que sente saudade do modo antigo de comunicação. “O diário era meu melhor companheiro. Naquela época, não existiam as redes sociais. O tempo passou e as pessoas começaram a escrever tudo no Orkut, Facebook, Twitter. Muitas dessas pessoas sofrem com a opinião alheia. O mais difícil das redes é entender e aceitar (ou não) a visão das pessoas que comentam a sua vida abertamente. Eu ainda prefiro o velho papel e caneta pra escrever um segredo”, confessa.

 Foto: Kátia Gomes

Gafes

Algumas publicações podem acabar com sérias consequências. Um funcionário da assessoria de imprensa do Ministério do Planejamento foi demitido por publicar no Twitter oficial da pasta uma piada sobre a presidente Dilma Rousseff. Ele postou no microblog a frase “Dilma será a garota propaganda do Veja Limpeza Pesada”, seguida pelo link do site de humor “Sensacionalista”. O site faz piada com as demissões em ministérios envolvidos em denúncias de irregularidades dizendo que a “faxina” rendeu à presidente “um contrato milionário na área da propaganda.” “Ela fará o comercial do produto Veja Limpeza Pesada. A presidente chegou ser cotada para anunciar o Bombril, mas não aceitou. Dilma disse a amigos que seu trabalho é muito mais do que ariar panelas. Trata-se de uma limpeza difícil, acumulada por muitos anos, que não poderia acabar com um produto qualquer”, diz o site.

 

De acordo com o Ministério do Planejamento, o servidor disse que publicou a piada “por engano” no microblog da pasta. Esse é um exemplo que aconteceu que está se tornando cada vez mais frenquente. É preciso analisar a publicação para que não caia no erro.

 

Em fevereiro deste ano, uma funcionária terceirizada do Supremo Tribunal Federal foi dispensada após publicar na página oficial do tribunal uma piada envolvendo o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). A mensagem dizia o seguinte: “Ouvi por aí: ‘agora que o Ronaldo se aposentou, quando será que o Sarney vai resolver pendurar as chuteiras?”.

 

Saiba Mais

Hoje, 45,4 milhões de usuários acessam regularmente à Internet no trabalho ou em casa, aumento de 10% em um ano. A maior parte acessa de casa (37 milhões), com alta de 15% em um ano. 38% das pessoas acessam a web diariamente; 10% de quatro a seis vezes por semana; 21% de duas a três vezes por semana; 18% uma vez por semana. Somando, 87% dos internautas brasileiros entram na internet semanalmente.

 

Com taxa de crescimento de 67 novas conexões por minuto, o Brasil atingiu em setembro a marca de 50,7 milhões de acessos à banda larga. Os números são da Associação Brasileira de Telecomunicações (Telebrasil), que informa ainda que a quantidade de novos assinantes foi 60% superior à média de 2011.

 

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