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Ex-estudantes indígenas da UnB disseminam o conhecimento

Poran (32) é engenheiro florestal e hoje coordena projeto de revitalização do rio do Aterro na Terra Indígena Potiguara, na Paraíba

Poran Potiguara graduou-se em Engenharia Florestal na UnB. Foto: Júlio Minasi/Secom UnB

Neste 18 de maio, dia em que são celebradas as raças indígenas das Américas, Poran Potiguara, Dinamam Tuxá e Aislan Pankararu, indígenas, de três diferentes etnias brasileiras, que passaram pela Universidade de Brasília, mostram como o conhecimento acadêmico aliado à cultura de seus povos tem contribuído para promover avanços sociais, culturais e ambientais necessários ao desenvolvimento do país e à preservação da vida no planeta.

Poran (32) é engenheiro florestal e hoje coordena projeto de revitalização do rio do Aterro na Terra Indígena Potiguara, na Paraíba. Ativista pelos direitos indígenas, Dinamam (35) é advogado e mestre em Desenvolvimento Sustentável. Atualmente é coordenador executivo na Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e cursa o doutorado em Direito na UnB. Aislan (31) trabalha na rede pública de saúde de São Paulo. Além de médico, ele é artista plástico e, por meio de sua arte, divulga a cultura de seu povo.

“Desde pequeno, sonhava em ser engenheiro florestal porque sempre vi o nosso território sofrendo com desmatamento e degradações. Tinha esse desejo de ajudar o povo potiguara de alguma forma”, conta Tanielson Rodrigues da Silva, conhecido como Poran Potiguara. Em 2008, ele soube do vestibular indígena da UnB, resultado de convênio com a Fundação Nacional do Índio (Funai), fez a inscrição no ano seguinte e foi aprovado. “Minha história com a Universidade começou ali”, relembra em seu artigo Diálogo de saberes: da aldeia para a universidade.

Em um de seus projetos de pesquisa, Poran descobriu que sementes de uma das espécies de plantas usadas na fabricação das vestes tradicionais de seu povo perdem poder de germinação se armazenadas. Ainda estudante, ajudou a criar a disciplina de Saúde Indígena no Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências da Saúde e o Ambulatório de Saúde Indígena no Hospital Universitário (HUB).

Formado, retornou à Paraíba onde passou a coordenar o projeto Águas Potiguara, de revitalização do rio do Aterro, afluente do rio Sinimbú. “Percebemos que o rio da nossa comunidade estava morrendo, pois fazia muito tempo que ele não era cuidado. Decidimos então juntar algumas pessoas e começar a cuidar do rio”, lembra. A ideia surgiu durante a pandemia de covid-19, “momento em que nosso povo se fechou por medo do que poderia acontecer e fez com que olhássemos com maior atenção para a situação do nosso território”, diz o engenheiro floresta.

Parte do conhecimento utilizado na recuperação do rio foi adquirido na Universidade, principalmente nas aulas de manejo de bacias, manejo florestal e silvicultura. Porém, segundo Poran, nada é feito sem ouvir os mais velhos nas aldeias, pois são eles que trazem na memória informações valiosas, como o local onde passava o rio e quais plantas existiam nas margens.

Dinamam vem denunciando em grandes eventos o ecocídio em curso no Brasil. Foto: Luis Gustavo Prado/Secom UnB

DIREITO À TERRA

Do povo tuxá, na Bahia, Antônio Fernandes de Jesus Vieira, ou Dinamam Tuxá, luta pelo direito à terra dos povos originários desde muito jovem. Sua dissertação de mestrado em Sustentabilidade junto a Povos e Terras Tradicionais, defendida em 2017, no Centro de Desenvolvimento Sustentável da UnB, virou uma petição à Organização dos Estados Americanos (OEA). O documento reclama o direito do povo tuxá a terras perdidas para o Estado brasileiro quando a hidrelétrica de São Francisco foi construída na década de 1980. Hoje, no doutorado, ele segue na luta por reparação.

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“Tivemos que mudar para uma nova aldeia, onde hoje vivemos à espera da devolução do território perdido. A empresa responsável pela construção da barragem havia dito a nós, índios, que dentro de seis meses as novas terras seriam entregues, porém, já se passaram 30 anos e ainda perdura a espera pelo território”, conta o ativista em sua dissertação Os índios Tuxá na rota do desenvolvimento: violações de direitos.

“Busco conhecimento na Universidade para que possamos atuar de forma conjunta”, diz Dinamam. O advogado foi uma das lideranças indígenas a denunciar, na Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre o Clima (COP26), no ano passado, em Glasgow, na Escócia, os crimes ambientais cometidos pelo governo brasileiro. Segundo a Apib, mais de 40 representantes dos povos originários estiveram na conferência do clima, compondo a maior delegação brasileira de lideranças indígenas da história da COP.

Dinamam é categórico ao afirmar a importância do território e da cultura indígena para a cura da Terra e a preservação da vida. O advogado ressalta que as terras indígenas são as mais preservadas do mundo e reservam 83% da biodiversidade do planeta. Segundo ele, esse fato se deve ao modo como as comunidades tradicionais cuidam do meio ambiente. “Somos parte da solução do problema climático. A demarcação é garantia de futuro para toda a humanidade”, defende.

Aislan Pankararu é artista e médico. Logo após se formar, ele pôde atender parte da comunidade pankararu que vive em São Paulo. Foto: Arquivo pessoal

SALVANDO VIDAS

Aislan Felipe da Silva Santos, conhecido como Aislan Pankararu, formou-se em Medicina na UnB e hoje trabalha na rede pública de saúde de São Paulo. “Vim do sertão pernambucano, mas hoje sou um pankararu espalhado pelo Brasil. O que aprendi na graduação da UnB fez com que, em São Paulo, onde trabalho, pudesse ajudar não apenas a sociedade em geral, mas a comunidade pankararu que aqui se instalou”, disse em entrevista recente à revista Darcy.

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“Tive a oportunidade de usar as habilidades aprendidas no curso de Medicina em uma unidade básica de saúde (UBS) que atende a população mais necessitada, devolvendo ao país o que foi investido em mim. Agora, atuo em outra UBS, trabalhando com estratégia da saúde da família e comunidade”, conta.

Além de médico, Aislan é artista plástico. Devido ao choque de culturas, a adaptação à extenuante rotina universitária não foi nada fácil. A arte se tornou refúgio e fonte de ânimo que ajudou a atenuar a sensação de não pertencimento. “De alguma forma queria exaltar a minha cultura, do índio nordestino do sertão, falar do bioma caatinga, dos cactos, dos frutos de mandacaru, dessas nostalgias que carrego em mim. A arte me ajudou a conectar com o meu povo e a sua cosmovisão, o que me acalmou, era terapêutico”, disse em entrevista ao canal Arte1.

Sua arte foi exposta, no ano passado, na mostra Yeposanóng (Curar-se), no Memorial dos Povos Indígenas, em Brasília. A exposição invocava a cura pela limpeza do corpo e da alma, ato de celebração à vida, em um ano marcado pela covid-19. Sua primeira exposição, Abá Pukuá (Homem Céu), foi realizada, em 2020, em parceria com a comissão de Humanização do Hospital Universitário de Brasília (HUB). Aparecem constantemente na obra de Aislan temas como a centralidade da mulher na cultura pankararu; pinturas corporais de seus ancestrais; rituais e festividades, como o uso do praiá – a máscara ritual de seu povo –; e a corrida do imbu.

*Com informações da UnB Notícias

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