O escritor norte-americano Eric Hoffer (1902 – 1983) dizia que “a única forma de prever o futuro é ter o poder de modelá-lo”. A afirmação inspira um grupo de pesquisadores brasileiros envolvidos na elaboração de um plano estratégico para formulação de políticas públicas para Brasília e o Entorno da cidade nos próximos 50 anos.
Descrever como será a capital em 2060 é tarefa difícil. Mas, segundo especialistas, é possível apontar tendências. Caso o atual modelo de desenvolvimento persista, daqui a meio século Brasília será a capital dos idosos, formará uma gigantesca área urbana com Goiânia, sofrerá altas taxas de desemprego e criminalidade e terá o tombamento corrompido por soluções emergenciais para o transporte público.
Nas 155 páginas da versão preliminar do Projeto BsB 100, ao qual a UnB Agência teve acesso com exclusividade, o especialista em Planejamento Estratégico da Pontifica Universidade Católica (PUC/RJ), Tadao Takahashi, elege seis áreas de alerta para a capital federal nas próximas cinco décadas. São elas: Território, População, Ciência e Tecnologia, Educação e Juventude, Economia, Trabalho e Emprego, Governança e Estilo de Vida.
Segundo Takahashi, o aumento da desigualdade social entre o Plano Piloto e as demais regiões administrativas do Distrito Federal é preocupante. “Assim como o Rio de Janeiro, o DF terá de enfrentar, cedo ou tarde, o desafio das diferenças entre seus dois mundos”, afirma o coordenador da pesquisa encomendada pelo Governo do Distrito Federal com recursos do Fundo de Apoio à Pesquisa (FAP/DF).
Para Marcos Formiga, especialistas em Estudos do Futuro da UnB, o crescimento desordenado de Brasília pode fazer com que a área urbana da capital se junte à de municípios de Goiás e Minas Gerais. “Isso aumentaria ainda mais o abismo social”, explica. “Como conseqüência, as taxas de desemprego subiriam drasticamente, bem como os índices de criminalidade por conta da falta de estrutura nessas regiões”, completa o professor do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Ceam).
Brasília é a cidade com o maior PIB per capita do país. Por outro lado, a capital planejada também figura entre as 20 cidades do mundo com maior desigualdade social, segundo lista divulgada recentemente pela Organização das Nações Unidas (ONU). “Mesmo com 10% da população, o Plano Piloto concentra 75% da oferta de emprego da região. É preciso investimento para distribuir essa oferta”, aponta Takahashi, que esteve na UnB para uma apresentação pioneira do projeto
TOMBAMENTO
A preservação das características originais do Plano Piloto, tão defendida pelos apreciadores dos trabalhos do urbanista Lúcio Costa e do arquiteto Oscar Niemeyer, também está comprometida. “A pressão por alternativas para um transporte público eficiente vai obrigar alterações no tombamento”, alerta Takahashi.
O engenheiro explica que a criação de ciclovias como uma alternativa aos automóveis já demanda soluções para o cruzamento de vias no Plano Piloto. Isso sem falar em soluções de alcance mais amplo, como restrições para a circulação de veículos na área central da cidade, usada em metrópoles como Tóquio e Cingapura. “A criação de grandes bolsões de estacionamento ou de um metrô elevado, como em Miami, vão necessariamente modificar a paisagem hoje preservada pelo tombamento”, diz o especialista.
Hoje, a densidade de automóveis de Brasília e demais regiões administrativas já se equipara à de São Paulo. “O DF tem, aproximadamente, uma frota de um milhão de veículos para três milhões de habitantes. Na capital paulista, a comparação é de 6 milhões para 18 milhões”, compara o economista Marcos Formiga, professor da UnB.
O projeto BsB 100 usa dados e projeções de órgãos como o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Centro de Gestão de Estudos Estratégicos (CGEE), além de diversos órgãos internacionais. “Aplicamos esses números à realidade do Brasil e de Brasília para traçar os cenários futuros”, explica Takahashi.