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Brasília

Estudantes do sistema prisional do DF participam pela primeira vez do Circuito de Ciências

Projetos sobre tratamento da água desenvolvidos dentro da Penitenciária IV marcam uma experiência inédita e transformadora na educação carcerária

Redação Jornal de Brasília

15/09/2025 14h34

Foto: Mary Leal/ SEEDF

Foto: Mary Leal/ SEEDF

Uma página inédita foi escrita na 14ª etapa regional do Circuito de Ciências da Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEEDF), encerrada na última sexta-feira (12). Pela primeira vez, estudantes do sistema prisional do DF participaram da competição científica, mostrando que a ciência também pode ser ferramenta de ressocialização.

Os protagonistas dessa conquista são alunos do Centro Educacional (CED) 01 de Brasília que estudam na Penitenciária IV (PDF-IV), no Complexo da Papuda. Matriculados no terceiro segmento da Educação de Jovens e Adultos (EJA), eles desenvolveram dois projetos focados no tratamento e purificação da água, apresentados na etapa regional da Coordenação Regional de Ensino (CRE) do Plano Piloto.

O primeiro projeto, Moringa Oleifera, uma Alternativa para o Tratamento da Água, criado por cinco alunos, explora o uso das sementes da moringa oleifera como agente natural de floculação, substituindo produtos químicos convencionais. “A moringa oleifera tem substâncias químicas que auxiliam na floculação da água. Quando temos aquela água barrenta, adicionamos um floculante para que as partículas de sujeira se aglutinem e desçam para o fundo”, explica a professora Gabriela Cristiana Oliveira, que atua há sete anos no CED 01 de Brasília e no complexo penitenciário.

O segundo projeto, Ciência e Cidadania na EJA: Filtro Caseiro e SODIS para a melhoria da qualidade da água, desenvolvido por cinco estudantes da segunda etapa da EJA, propõe soluções acessíveis de filtragem usando materiais simples como pedra, carvão, areia e garrafas PET.

Superando limitações com criatividade

As restrições de segurança da penitenciária impediram o uso de objetos cortantes, produtos químicos perigosos ou materiais perfurantes. Ainda assim, os estudantes conseguiram realizar os experimentos. No projeto da moringa, eles trituraram as sementes em pilões tradicionais e observaram a decantação da água após duas horas de aplicação.

“Foi preciso pensar em uma temática que pudesse ser realizada dentro da unidade, cumprindo todos os requisitos de segurança”, comenta a professora Luciana Moreira Braga, da rede de ensino há 14 anos.

Ciência como ferramenta de ressocialização

As professoras Marina da Costa, Gabriela Oliveira e Luciana Braga foram responsáveis pela orientação dos projetos. A participação no circuito proporcionou uma experiência transformadora. “Ver o experimento acontecendo é muito gratificante”, relata Marina Ribeiro da Costa, que atua no sistema desde 2019.

Como os alunos não puderam comparecer presencialmente à etapa regional, as professoras os representaram na apresentação, levando os resultados desenvolvidos integralmente dentro da penitenciária. “Eles ficaram superempolgados, ansiosos, nervosos. É interessante poder proporcionar todas essas emoções aos alunos”, destaca Gabriela Oliveira.

A iniciativa contou com apoio decisivo da direção da PDF-IV e da equipe gestora do CED 01 de Brasília. A diretora da unidade escolar, Telma Cristiane de Almeida, ressalta que a participação proporcionou aos alunos senso de pertencimento e compreensão de que possuem os mesmos direitos dos estudantes de outras escolas.

“O objetivo é fazer a ressocialização por meio da ciência e da educação. Os alunos perceberam que podem usar o conhecimento para melhorar a vida das pessoas e transformar o lugar onde vivem”, enfatiza Gabriela Oliveira.

Perspectivas futuras

A experiência ganha ainda mais relevância diante do cenário da educação carcerária no DF. Dos quase 17 mil presos na capital federal, mais de 10 mil não concluíram a educação básica. Entre 2.100 e 2.400 custodiados recebem atendimento educacional por meio da EJA a cada semestre.

O DF se destaca nacionalmente na expansão da educação prisional. Em 2024, com ampliação de 40% da oferta educacional, o Distrito Federal subiu do 8º para o 3º lugar no ranking nacional de ampliação de vagas no sistema prisional.

Com informações da Secretaria de Educação

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