Surpresa e alegria. Esses sentimentos dominaram os sete alunos do Centro de Ensino Médio 304 de Samambaia, ao receberem a notícia de que haviam sido classificados para a Universidade de Brasília (UnB), neste semestre. Seis deles foram selecionados pelo Programa de Avaliação Seriada (PAS) e uma aluna passou no vestibular. Agora, os maiores sentimentos são a expectativa e a vontade de prosseguir vencendo nos estudos e, em poucos anos, nas carreiras que decidiram seguir.
Anderson Diego Souza de Jesus, 17 anos, é teimoso e sabe bem o que quer. Não adiantou a família argumentar que “ser professor não é uma boa opção, que todo mundo fala que o salário é baixo, que dá dor de cabeça e tem muita greve”. Não que os parentes não o apoiassem nos estudos. Ao contrário, acreditavam, apenas, que se existe a chance de uma faculdade, “melhor uma profissão mais rentável e que dê menos transtorno”.
“Eu sempre quis fazer algo ligado à educação e gosto de ciências, então, juntei as duas coisas”, conta o sorridente Anderson, aprovado para Ciências Naturais pelo PAS. “Posso não ficar rico, mas eu gosto e dá para viver numa boa”, aposta.
“Para qualquer profissão que exija especialização precisa ter professor. Então, se não tem professor, também não tem profissão nenhuma”, analisa o adolescente. “Para mim, é uma das atividades mais importantes do mundo. Se outros não querem o desafio, o problema é deles. Eu estou aqui, firme e forte”, diz o adolescente.
Nada foi fácil para Anderson. Filho de uma família com mais quatro irmãos, a primeira moradia em Brasília foi na antiga invasão do CEUB. Depois, em um assentamento em Samambaia, onde vive até hoje. Os pais são separados. A mãe sustenta a casa como empregada doméstica. Trabalhou meio período durante todo o Ensino Médio – dois anos em um mercado e um ano como aprendiz na área de jardinagem, na Novacap.
Há pouco tempo, parou para fazer um curso de eletrotécnica e ganhar melhor, pagar os custos de livros, deslocamento e material, enquanto o diploma do curso superior e o emprego na área não chegam. Cooperar para pagar as despesas da casa também está na lista de responsabilidades financeiras do futuro professor.
Traçar e perseguir meta é o segredo
Cada um dos colegas de Anderson do CEM 304 de Samambaia, do CED 3 de Brazlândia, do CEM 1 de São Sebastião e do CEM Setor Leste, aprovados no PAS ou no vestibular da UnB, tem uma história de dificuldade.
Nunca faltam à aula, cumprem as tarefas, estudam em casa e buscam tirar todo o conhecimento formal e a sabedoria de vida que os professores têm condições de transmitir. O apoio das famílias é outro aspecto que empurra cada um para a frente, aconteça o que acontecer.
O professor de química Altair Teixeira acredita que o primeiro passo para o sucesso na vida escolar é acreditar em si próprio. “Independentemente da escola na qual o aluno esteja estudando, pública ou privada, se ele traçar e perseguir a meta de ingressar na universidade, construir uma carreira, com certeza, conseguirá”, aposta o professor. “Todo o resto é importante, mas o principal é a vontade. Ele pode ter toda a condição material do mundo, mas se ele não quiser realmente, de nada adianta”, avalia Altair.
“No caso específico do aluno de escola pública, ele precisa se conscientizar que também tem acesso a um bom ensino e que é tão capaz quanto qualquer outro”, afirma. “É necessário aproveitar o que a escola pública oferece, a começar pelos livros de qualidade, fornecidos pelo governo, e os professores qualificados”, aconselha.
De olho no futuro dos alunos
No CEM 04, uma das propostas é direcionar o Ensino Médio como um verdadeiro canal de acesso à educação superior e isso foi bastante discutido na semana pedagógica, que antecedeu o início do ano letivo. “Atualmente, o Ensino Médio não dá base para o mercado de trabalho e isso é necessário para que os alunos prossigam a jornada. Então, prepará-los com foco no ingresso na universidade é a alternativa”, diz a vice-diretora Daniela Arnold.
“Entre os projetos que estamos realizando junto ao corpo discente está mostrar que entrar na faculdade não é algo inalcançável para quem não tem recursos financeiros”, conta. “Além de buscar sempre aprimorar o ensino, estamos desmitificando a idéia de que ingressar em uma universidade pública e concorrida como a UnB é algo quase inatingível para alunos de escolas públicas – isso não corresponde à realidade e é preciso estimular a autoestima de cada um”, afirma a vice-diretora.
A escola também está esclarecendo seus 2.350 alunos sobre as diversas opções que existem de acesso à faculdade, além do PAS e do vestibular tradicional. “Muitos não sabem como funcionam o Enem – Exame Nacional do Ensino Médio, o Prouni, que concede bolsas de estudo, o Bolsa Universitária, programa desenvolvido pelo GDF”, destaca a vice-diretora.
“Quando começamos a prestar essas informações aos alunos e eles vêem que há colegas que estão conseguindo soluções, vencendo os obstáculos, percebem que também são capazes”, avalia.
Outra proposta do CEM 04 para 2010 é usar a internet como ferramenta de comunicação na comunidade escolar, a partir da criação de um site, e desenvolver um projeto para traçar acompanhar a trajetória daqueles que se formarem no Ensino Médio. “Saber o que está acontecendo com os alunos depois que eles saem do Ensino Médio é importante. Estas informações poderão ser usadas, posteriormente, para aperfeiçoar o projeto político-pedagógico”, adianta a vice-diretora.