Maria Clara Martins, de 21 anos, estudante de Publicidade em Brasília, criou a PinkSafe para suprir uma carência de proteção para mulheres. A startup hoje funciona como um ecossistema, que integra a venda dos itens ao suporte emocional especializado. O amadurecimento dessa ideia ocorreu no Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) e atraiu atenção do público feminino.
O plano surgiu antes da Maria Clara entrar na faculdade, incomodada com a constante insegurança, ela decidiu que transformaria esse incômodo em uma solução prática que pudesse ajudar também outras jovens. Quando as aulas começaram, ela transformou uma simples ideia em uma estrutura empresarial.
Para que a empresa se desenvolvesse foi necessário que a fundadora dividisse sua rotina entre trabalhar em outra companhia e os estudos. O incentivo para esse projeto veio de programas como o Selfie Lab, um laboratório de branding pessoal, e a Incubadora IDP, que ofereceu suporte técnico e uma viabilização do plano. Em uma edição posterior do programa, a startup conquistou o primeiro lugar.

O especialista em empreendedorismo Rafic Júnior, programas como esses ultrapassam o conhecimento técnico e impactam na maturidade do jovem empreendedor. “A maioria dos negócios que morre no primeiro ano não morre por falta de ideia, morre por falta de dono. Trabalhar autoconhecimento e liderança não é conteúdo motivacional, é infraestrutura”, defende Júnior.
Rafic também destaca que o diferencial da PinkSafe está em construir um ecossistema, que fortalece a fidelização da marca. De acordo com o mesmo, a conexão emocional é o que impede que um produto seja facilmente copiado pelo mercado. “Quem vende produto tem transação; quem constrói ecossistema tem relação. O cliente satisfeito com um produto recomenda quando lembra. O cliente amparado num momento difícil recomenda pelo resto da vida”, pontua o especialista.

Maria destaca a importância da mentalidade que desenvolveu durante esse processo de incubação. “A incubadora também me mostrou que, se não tiver venda, não se sustenta. Me empurrou para a ação, me mostrou que ‘Faz! Quando você fizer, vai descobrir como melhorar'”, afirma a criadora do projeto.
O catálogo da loja virtual foi o que atraiu atenção nacional, após a regulamentação do uso do spray de pimenta por civis no Brasil. A PinkSafe foi uma das primeiras a comercializar este item pela internet logo após a mudança na lei. “A regulamentação do spray de pimenta impactou nossas vendas porque serviu de motivação para que as pessoas buscassem outros produtos de segurança também”, relata Maria Clara.

Para Alexandra Menezes, advogada criminalista, no entanto, dispositivos como este exigem muito cuidado. “Não acredito que colocar um spray de pimenta na bolsa de uma mulher seja suficiente para dizer que ela está mais protegida. Em uma situação real de violência, existe medo, surpresa, diferença de força física e uma enorme carga de estresse”, explica a especialista. Ela ressalta ainda o risco do instrumento ser tomado é utilizado pelo agressor contra a vítima.
Por outro lado, itens com design estratégico auxiliam na agilidade da reação, a PinkSafe comercializa itens que parecem objetos comuns, como pentes e chaves. Alexandra pontua que essa combinação pode ser benéfica: “integrar determinados recursos de segurança a objetos cotidianos pode favorecer acessibilidade e prontidão”.

O diferencial da marca está em compreender que a segurança feminina vai além de confrontos físicos. Maria Clara percebeu que muitas clientes já haviam passado por situações de abuso e não sabiam ainda como lidar, isso motivou uma parceria com psicólogas para auxiliarem no acolhimento dessas mulheres.
Para dar o próximo passo a marca irá lançar o seu próprio aplicativo, a plataforma contará com mapas com indicações para Delegacias da Mulher e locais com aulas de defesa pessoal. Maria descreve o recurso como algo necessário: “Nosso aplicativo é extremamente completo e necessário no dia a dia de uma mulher. Lá, você encontra um mapa do Brasil com localizações importantes para as mulheres”.
A ferramenta também irá incluir uma seção de notícias sobre o mundo feminino com matérias sobre política e economia. O sistema vai facilitar o contato com profissionais das áreas jurídica e psicológica. “O aplicativo conta ainda com uma assistente virtual que realiza os primeiros atendimentos, além de uma aba de agendamentos para consultas com psicólogas e advogadas”, conclui a fundadora.
Ao avaliar a chegada do projeto acadêmico no mercado, Rafic enfatiza que a execução precoce foi fundamental para o sucesso de Maria Clara. Ele defende que o empreendedor deve ver o projeto como empresa desde o começo. “Vender antes de aperfeiçoar: a primeira venda ensina mais que seis meses de refinamento. É preciso trocar improviso por método: esforço tem teto, processo não”, conclui o especialista.

Alexandra Menezes finaliza traçando um limite claro para a atuação de redes privadas de proteção. Ela afirma que a responsabilidade constitucional pela segurança pública pertence ao Estado. Para a advogada, “essas comunidades devem funcionar como instrumentos complementares de prevenção e apoio, e não como mecanismos de justiça ou vigilância paralela”.
