João Pedro Netto
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Eu venci
Essas pessoas chegaram ao fundo do poço. Perderam tudo. Durante anos, viveram à margem da sociedade. Saíram de casa, perderam emprego, se afastaram da família, dos filhos. Conviveram com o preconceito, com a violência, o medo. Adquiriram dívidas, venderam bens, propriedades. Conheceram todas as implicações da dependência química. Sofreram as sequelas físicas e psicológicas dos entorpecentes. Envolvidos com o vício, deixaram de ser quem eram. Alguns já haviam desistido de si mesmo. Mas conseguiram reunir a força de vontade necessária para dar a volta por cima. O Jornal de Brasília conversou com ex-adictos, antigos dependentes de diversas substâncias. Pessoas que superaram o vício. Deixaram o mundo das drogas. Essas são histórias de superação, de luta, de vitória. Acima de tudo, de força de vontade.
Os relatos mostram que é possível vencer a dependência. Mas os protagonistas também asseguram que alcançar a abstinência não é fácil. Tanto é que eles fazem parte de um universo de apenas 30% de dependentes químicos que a alcançam. Essas pessoas começaram de forma semelhante – usando drogas mais leves, geralmente a maconha. Até que, aos poucos, foram se envolvendo com substâncias mais perigosas e poderosas. Os motivos que os levaram a experimentar são diversos. E, apesar de estarem meses, anos, distantes da droga, continuam a luta. “Só por hoje”, dizem. Não se dão o direito de baixar a guarda. Dia a dia, travam uma batalha para se manterem distantes. Continuam em tratamento. Muitos deles hoje se envolvem com o problema social e de saúde pública chamado droga. Trabalham para ajudar os que estão entregues.
“Não tem amigo no meio da droga”
Ricardo Luís Costa, 28 anos, mecânico e empresário
“Tem um ano, quatro meses e 17 dias que estou limpo. Hoje estou mais forte. Mas preciso estar me policiando todos os dias, todas as horas. Só por hoje, né? Se usar droga, vou cortar minha onda de ficar limpo, de curtir minha vida. Não quero voltar para o que eu passei, por isso tomo cuidado. Eu não me dou direito de recair. Senão perco tudo o que conquistei. No começo, foi mais pela curiosidade, para se enturmar com o pessoal. Sempre fui tímido, então, para entrar na galera mais descolada, fumei maconha pela primeira vez com 13 anos. Primeiro, fumava um por dia. Depois ia fumando toda hora, enquanto tivesse. Com 16 para 17 anos, experimentei o pó. Achei uma coisa fora do normal. Eu era tímido, então ficava desinibido, falava com as meninas. Mas até então, não vendia minhas coisas, dizia que parava quando quisesse. Mas comecei a usar todos os dias. Conheci a merla. Fumava, cheirava pó também. Depois que experimenta a primeira química, você experimenta tudo. Um dia, fui comprar pó. Não tinha. Comprei a pedra, o crack. Não senti nada, mas queria mais. Fumava no cigarro, misturado com tabaco. Quando passei para lata, acabou. Perdi o controle. Comecei a vender minhas coisas. Mentia para minha mãe. Não queria, mas não conseguia ficar sem. No começo era legal. Mas depois, fumava sem querer fumar, passava mal, tinha paranoia, via coisas. Achava que ia morrer. Minha vida era uma mentira. Acabei pedindo ajuda, depois de uma briga. Quando saí a primeira vez da clínica, foi a melhor coisa da minha vida. Depois de quatro meses internado, fui para o Zoológico com família, fazer um piquenique. Ficava satisfeito com pequenas coisas. No começo, parecia que seis meses eram uma eternidade. Mas quando faltava um mês, deu um medo de sair, de não ter sido suficiente. Agora, meu sonho está funcionando aqui na minha oficina. Ainda tem pouco movimento, mas as portas estão abertas. Minha parte, eu estou fazendo. Estou investindo, vou abrir outra oficina. Hoje, minha mulher, meu pai, minha mãe e minhas duas filhas são meus únicos amigos. Não tem amigo no meio da droga. Se soubesse que era tão bom ficar de cara limpa, não teria fumado aquele primeiro baseado com 13 anos. Seria outra pessoa hoje.”
Eu perdi
O olhar carregado revela a angústia de relembrar os passos do irmão. A voz trêmula é sinal de quem revive momentos dolorosos. “Vi o Diogo morrer aos poucos, ele foi se matando.” A frase de Alessandra Saldanha, que teve o irmão morto por uma dívida de crack, há dois anos, mostra o sofrimento por que passam os familiares de dependentes químicos. Agonia que dura anos. “Além do paciente, que tem o sintoma do uso, a família e a comunidade também são vítimas”, diz o gerente do Centro de Assistência Psicossocial para Usuários de Álcool e Outras Drogas (CAPSad), Luiz Felipe Castelo Branco.
O Jornal de Brasília ouviu histórias de pessoas que, apesar de todos os esforços, viram familiares perderem a vida devido ao envolvimento com entorpecentes. Por problemas de saúde, ou pela violência associada ao uso e tráfico de substâncias químicas: “De um jeito ou de outro, a droga mata”, constata Alessandra. Para eles, que perderam a vida, o dia em que experimentaram a droga foi o começo do fim.
“Será que eu podia ter feito alguma coisa?”
Diogo Robson Felipe Silva, 33 anos, morreu assassinado. Quem conta essa história é a irmã Alessandra Felipe Silva Saldanha.
“Com a droga, você vê a pessoa morrendo aos poucos. Você vê a pessoa se matando, mas não consegue mudar. É um sentimento muito grande de impotência. O que quero dizer é que as pessoas nunca desistam de lutar, por um filho, irmão, parente. Porque eles não têm condições de lutar, nós é que precisamos lutar por eles. O Diogo começou a usar droga muito cedo. Com 10 ou 11 anos, fumou maconha. O início da desestrutura veio pela falta do pai, pela separação. Nossa mãe trabalhava muito, o pai era ausente, e ele sentia muita falta. Já com 16, 17 anos, ficou igual a mendigo de rua, dependente da cola. Envolveu-se com crime por droga. Foi preso por quatro anos, mas saiu pior ainda, totalmente viciado. Teve melhora, se casou, converteu-se à religião. Mas não deu certo, com o tempo, se separou, e caiu de novo. Cada vez que caía, ia para uma droga pior. Passou para a merla. Mas voltou para a igreja. Tinha dois filhos adotivos com a esposa, mas se desestruturou com ela e se desorganizou de novo. E foi para o crack. Eu queria ajudar, mas tinha as mãos atadas. Não podia trazê-lo para casa, tenho três filhos e marido, não dependia somente de mim. No início de 2009, ele pediu ajuda. Tinha tentado se matar, estava totalmente perdido, não sabia onde estava. Achamos casa de recuperação, e o levamos. Mas não ficou no centro, logo saiu. Ele estava sendo ameaçado de morte, por dívida de drogas. Fomos procurá-lo, nas bocas de fumo. Não encontramos. A droga tira a identidade da pessoa, tem o poder de transformá-la no que a gente nem imagina. Naquele dia, ele foi assassinado, na rua, pelas costas, com tiros. Com certeza foi o envolvimento com droga. No dia anterior, ele pediu a TV da nossa mãe. Disse que precisava, pois estava sendo ameaçado. Falou: ‘Você não entendeu, eu estou usando crack’, como se dissesse ‘não tem mais jeito’. Foi como se arrancasse um pedaço de mim. Fica aquela dúvida, será que eu podia ter feito alguma coisa, será que faltou alguma coisa?”
A matéria completa está na edição deste domingo (17) no Jornal de Brasília.