Jogar videogame, cuidar da estética e fazer uma massagem. O que antes era visto como uma habilidade a ser usada na vida pessoal virou assunto sério. De olho nesse cenário, instituições de ensino fogem do convencional e usam a originalidade ao lançar novos cursos. Entre os recém-chegados ao setor acadêmico estão o de Gestão de Negócios Securitários, Tecnologia em Estética e Cosmética, Tecnólogo em Jogos Digitais e Construção de Edifícios.
A tendência pode ser explicada pelo aumento do nível de exigência dos consumidores e o consequente interesse dos profissionais em se especializar, mesmo que já atuem na área.
É o caso da massagista Caroline Macêdo, de 35 anos. Visando qualificação e novas oportunidades profissionais, ela junta dinheiro há seis meses para fazer o curso e garantir a certificação dentro de sua área. “Quero expandir o leque de opções para fidelizar e aumentar minha clientela”, pontua.
Público exigente
De acordo com a massagista, o público tem ficado cada vez mais exigente. “As pessoas querem se tratar com especialistas. Por isso, preciso ter mais do que experiência prática”, comenta.
Foi pensando nisso que a estudante Monique Rodrigues, de 25 anos, decidiu se matricular no curso de graduação no setor de estética. “Escolhi pela expansão dessa área no Brasil e o fato de ser algo diferente, com pouca concorrência no mercado, já que ainda existem poucos profissionais graduados”, acredita.
O incentivo, segundo ela, veio de uma tia que trabalha na área. “Muita gente ainda não sabe da existência da graduação ou acha que é algo fútil, mas é muito sério”, afirma.
Entendimento
A opinião das estudantes é semelhante ao que pensa o professor Álvaro Quaglia, coordenador do curso Gestão em Recursos Humanos, na faculdade Estácio Facitec, em Taguatinga. De acordo com o docente, a demanda crescente se deve a um amadurecimento do empresariado brasileiro.
“Os proprietários de empresas perceberam que pessoas é que geram processos e não o contrário. Não adianta ter o melhor músico se não tiver o melhor maestro”, frisa.
Qualidade
Para Célio Cunha, especialista em educação básica e políticas educacionais da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade Católica de Brasília (UCB), a curta duração não implica redução na qualidade do ensino. “Os cursos de curta duração podem até superar os convencionais em qualidade”, diz.
Inserção rápida e preços baioxos são atrativos
Segundo Gardenia Sampaio, coordenadora de Estética e Cosmética do Iesb, o principal objetivo da graduação é a inserção rápida do profissional no mercado de trabalho. “O curso é dividido em módulos: facial, capilar e corporal. Ao final de cada semestre, o aluno recebe um certificado e já pode atuar na área estudada”, declara.
Para os que desejam se formar tecnólogos, no entanto, é preciso cursar os três anos completos. “O profissional formado tecnólogo pode abrir seu próprio negócio ou trabalhar em clínicas estéticas, spas, e até na área de educação”, diz.
Idade
A idade dos alunos também é peculiar, se comparada à dos matriculados em cursos tradicionais, afirma o professor Álvaro Quaglia, da Facitec. “Normalmente são pessoas de média idade, que preferem a agilidade de uma graduação de curta duração e preços mais acessíveis”, comenta.
Foi o que aconteceu com Lidiane de Souza, de 27 anos. Ela abandonou o curso de Administração para cursar o de Gestão em Recursos Humanos por acreditar em sua ascensão. “O tempo reduzido de graduação foi o principal atrativo. Depois fiz uma pesquisa e vi que o curso estava sendo muito reconhecido no mercado”, diz.
Seu colega, Everaldo Mota, de 21 anos, foi atraído pelas oportunidades de carreira na área. “Na empresa onde trabalho há muitas oportunidades para esse segmento. Quero tentar passar da área operacional para a administrativa”, disse.
Jogos digitais são assunto sério
A graduação de Tecnologia em Jogos Digitais também foi lançada no universo acadêmico. O que antes era apenas uma disciplina de alguns cursos da área de tecnologia da informação virou especialidade de ensino superior. De acordo com o MEC, o curso é autorizado em quatro faculdades do Distrito Federal: Centro Universitário Iesb, Centro Universitário de Brasília (UniCeub), Centro Universitário UDF e Rede de Ensino JK (FacJK).
Atuação
O objetivo é formar profissionais para o mercado de entretenimento, com foco em jogos virtuais. Os alunos são capacitados para criar games, roteiros e animações. Além disso, estudam questões mercadológicas ligadas a áreas de mídia e interatividade e desenvolvem habilidades para atuar na produção de vídeo, publicidade e web design.
Formação rápida
A graduação dura dois anos e meio. Depois de formado, o tecnólogo pode atuar na criação de jogos para o mercado nacional e internacional ou trabalhar como advergames – profissional que utiliza os jogos eletrônicos para promover marcas, produtos e organizações – segmento em expansão no Brasil.
Para Célio da Cunha, especialista em educação básica e políticas educacionais da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade Católica de Brasília (UCB), para evitar gastos, as instituições de ensino precisam estar em contato com os setores produtivos. “A globalização levou à diversificação dos setores de produção, possibilitando o surgimento de novas áreas de especialização em escala mundial. É preciso estar em contato com profissionais desses segmentos para entender as demandas do mercado e evitar gastos com cursos que não terão procura”, explica.
Adesão também cresce
O curso de graduação tecnológica em construção de edifícios também tem conquistado adeptos. O profissional formado na área está habilitado a gerenciar, planejar e executar obras de edifícios, além de acompanhar, orientar e fiscalizar os recursos humanos e o controle de qualidade no canteiro de obras. A otimização dos recursos e o respeito ao meio ambiente ainda fazem parte do conteúdo programático.
Diferenças
A principal diferença entre as formações em construção de edifícios e engenharia civil é a abrangência dos cursos. O trabalho do tecnólogo se restringe às rotinas do canteiro de obras. Já o engenheiro estuda a tecnologia das construções de forma mais geral. Instalações, estruturas de concreto, metálicas, solo e rochas, fundações, obras subterrâneas, pavimentação, recursos hídricos, além da área de transportes, com engenharia de tráfego e sistemas viários, estão entre as áreas de atuação de um engenheiro.
A graduação em construção de edifícios dura, em média, seis semestres, enquanto a de Engenharia leva, no mínimo, quatro anos (oito semestres). No DF, o curso está autorizado em instituições como o Iesb e o UniCeub.
Mapeamento
Com o objetivo de orientar as escolas superiores quanto às áreas que precisam de qualificação profissional, o MEC começou a elaborar, em 2011, um mapeamento de mercado. Com ele, o MEC passou a sugerir às universidades os cursos a serem criados.
Graduações acompanhadas pelo MEC
Para ter um curso reconhecido, as faculdades precisam pedir uma autorização junto ao MEC para iniciar a oferta de turmas – centros universitários e universidades têm autonomia e não precisam de autorização. O reconhecimento só pode ser solicitado quando o curso de graduação tiver completado entre 50% e 75% de sua carga horária e é um pré-requisito para a validação nacional dos diplomas.
Renovação
O reconhecimento precisa ser renovado periodicamente. A revalidação deve ser solicitada pela faculdade, centro universitário ou universidade ao fim de cada ciclo avaliativo do Sistema Nacional de Educação Superior (Sinaes), que é de três anos. O Sinaes é o órgão responsável por avaliar as instituições de ensino, os cursos e o desempenho dos estudantes. A análise é feita por meio de provas escritas. Cursos que obtiverem Conceito Preliminar de Curso (CPC) 1 ou 2, em uma escala que vai até 5, são avaliados pessoalmente por profissionais do MEC.