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Brasília

Em Ceilândia, João e Drielly foram mortos por conta de R$ 40

Arquivo Geral

14/05/2014 7h25

O assassinato de duas crianças, em Ceilândia, por conta de uma dívida de R$ 40, destruiu  pelo menos três famílias, nas palavras do irmão das vítimas, Marcos Paulo da Silva Santos,   20 anos. “Estragou a minha, a dele e a da namorada dele, com quem ele morava”, disse, emocionado, o atendente, que perdeu João Guilherme, de nove anos, e Drielly,   13. 

A violência chocou a população de Ceilândia e também quem lida diariamente com episódios de violência. “Como cidadão, não entendo o que leva uma pessoa a fazer algo dessa natureza”, desabafou o delegado do caso, Johnson Monteiro, da 15ª DP (Ceilândia Centro).  

Segundo a Polícia Civil, Rômulo Nascimento, 21, foi à casa de Marcos para roubar objetos   a fim de saldar dívida de R$ 40, referentes à venda de artesanato. As crianças teriam tentado impedir a ação, o que fez com que Rômulo as amarrasse em cômodos diferentes. Depois, o jovem teria ateado fogo na casa e partido, deixando, ainda, um sofá em frente à porta principal, para impedir a fuga das vítimas. Ele teria confessado à polícia que a motivação foi unicamente a dívida.

Tudo aconteceu por volta das 17h da última segunda e, segundo laudo preliminar da polícia, as crianças teriam sido agredidas antes de morrerem por asfixia.

Valores distintos

Em depoimento, Rômulo teria dito que a dívida era  de R$ 600. O delegado Monteiro, porém, teria confirmado, por meio de mensagens trocadas pelos dois, que o valor era  de R$ 40. “Ele disse que não teve intenção de matar, que só queria assustar. Mas a certeza da morte naquela situação, para mim, é evidente”.

Abalado, o irmão das vítimas  foi à casa da família, na QNM 7, na manhã de ontem, e aguardou o trabalho da perícia do lado de fora. Contou que era amigo do acusado há sete meses. “Ele chegou a dormir uma noite aqui em casa, quando foi expulso da casa da namorada. Nos conhecemos no Parque da Cidade mexendo com artesanato”.

Marcos teria comprado R$ 140 em mercadorias de Rômulo para presentear amigas, mas deixado para pagar depois. Na tarde do crime, ele teria pagado R$ 100 ao acusado e dito que entregaria o resto quando a mãe lhe desse dinheiro. Saíram juntos da casa de Marcos, mas Rômulo   retornou. “Drogado eu não sei se ele estava, mas ‘endemoniado’ com certeza”, lamentou.

Amigos fazem homenagem a vítimas

O crime chocou a vizinhança, que se aglomerou em frente à cena do crime na manhã de ontem. Colegas das crianças falecidas pregaram cartazes com frases emotivas, oraram e cantaram músicas religiosas em frente à residência, que ainda estava impregnada com o cheiro de queimado. Móveis destruídos podiam ser vistos na garagem da família.

“O mundo está terrível. Eram crianças maravilhosas e fizemos uma pequena homenagem para elas”, disse uma das amigas da família, Tatiane Cavalcante, de 31 anos. Ela mora nas redondezas e ficou bastante abalada com o acontecimento. “Não vejo um policial sequer na escola da minha filha. Estamos à mercê de criminosos”, esbravejou.

Crueldade

Para Tatiane, no entanto, além da falta de alcance do poder público, as pessoas estariam mais cruéis, de maneira geral. “Ninguém mais parece ter amor no coração. Acho que a tendência é piorar. Matam idosos, crianças. É horrível e inacreditável”, desabafou. “Ensino meus filhos o que é certo, mas cada vez que saem de casa, eu tenho medo”, admite.

Ajuda no momento do sufoco

O vizinho da frente da cena do crime, Almir Araújo, de 40 anos, também se impressionou com o crime. Ele foi um dos primeiros a chegar à casa em chamas e até tentou apagar o fogo com baldes d’água, sem sucesso. “Quando a fumaça aumentou, corri para lá com mangueira também, mas não dava para chegar perto. Tinha muita fumaça quente”, recordou, emocionado.

Para o vizinho, o que mais o chocou nessa história foi ter sido um evento tão próximo de casa. “Nós nos acostumamos a ver coisas assim pela televisão. Quando é com a gente, perdemos o chão”, definiu. “Não dá para saber o que se passa na cabeça do sujeito. A gente só fica com medo”, completou.

Prisão

Rômulo foi preso horas depois do crime. Ele estava na casa da namorada, no P Sul. O suspeito será indiciado por duplo latrocínio, podendo pegar até 60 anos de prisão. O delegado responsável pelo caso, Johnson Monteiro, confirmou que o acusado não tinha antecedentes criminais e, portanto, é réu primário. Isso não deve lhe conferir benefícios, apenas não implicará agravantes à sua sentença.

Para o irmão das vítimas, Marcos Paulo, não há explicação para a atitude do ex-amigo. “Nada parecia errado. Ele era um cara gente boa e conhecia minha família. Não sei o que aconteceu”, disse o jovem. “Minha mãe ainda encontrou com ele quando estava voltando para casa e o cumprimentou, mas ele só abaixou a cabeça. A namorada dele também não sabia de nada. Todo mundo foi pego de surpresa”, relatou.

Cada vez mais injustificáveis

Em contextos diferentes, a violência injustificada ou por motivo superficial parece dar o tom não apenas do cotidiano, como também das manifestações brasileiras. Em fevereiro último, o cinegrafista Santiago Andrade foi morto após ser atingido por um rojão, em protesto contra o aumento da passagem de ônibus, no centro do Rio de Janeiro.

“Todos os dias somos assolados por tragédias, bombardeados por imagens que destroem a razão e sofremos com a violência e o descaso político”, afirmou o especialista em inteligência estratégica, Fábio Pereira Ribeiro, em artigo publicado pelo Instituto Millenium, em 13 de fevereiro deste ano. “Todos os dias perdemos os mais puros sentidos da civilidade humana”, alegou, em alusão ao incidente.

Mais próximo da realidade brasiliense, o taxista Boaventura Alves Neto, de 63 anos, também foi morto, aparentemente, por razões banais. O idoso teria sido agredido até a morte na plataforma D da Rodoviária do Plano Piloto por dois jovens, um deles de 17 anos, após pequeno desentendimento. A 5ª DP (Área Central) ainda investiga o caso.

Taguatinga

Em agosto do ano passado, em um caso menos grave, na QNL 23 de Taguatinga Norte, o dono de uma lanchonete foi baleado por dois assaltantes por volta das 23h. Segundo a polícia, um dos criminosos estava nervoso e se irritou ainda mais com o fato de haver pouco dinheiro no caixa, no instante da ação.

Para o sociólogo da Universidade de Brasília (UnB), Arthur Trindade, a incompreensão causa o choque. “Desde sempre há violências que classificamos como banais, cujos motivos são fúteis para nós. Porém, às vezes, para as partes envolvidas, não é bem assim”, argumentou o professor. “Infelizmente não é uma novidade”, concluiu.

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