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Brasília

El Niño avança e deve deixar o DF mais quente

Fenômeno já apresenta intensidade forte e tende a atingir o auge entre novembro e janeiro. Especialistas apontam aumento das temperaturas na capital, enquanto agricultores reforçam estratégias para proteger as lavouras

Isabele Mendes

16/07/2026 16h51

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Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

O calor ainda nem chegou com força ao Distrito Federal, mas os primeiros sinais do El Niño já começam a aparecer. Chuvas fora de época, registradas em pleno período de estiagem, chamaram a atenção de meteorologistas e acenderam um alerta para os próximos meses. A expectativa dos especialistas é que o fenômeno climático continue se intensificando ao longo do segundo semestre, elevando as temperaturas na capital federal e aumentando o risco de incêndios florestais durante a estação seca.

Embora o El Niño seja conhecido por alterar o regime de chuvas em diversas regiões do Brasil, o cenário previsto para o Distrito Federal é diferente. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), os impactos mais significativos deverão ser sentidos principalmente na temperatura, com valores acima da média climatológica durante a primavera e o verão. Já as chuvas não apresentam um comportamento definido para a região.

Os primeiros sinais já apareceram

O consultor climático Francisco de Assis explica que o El Niño já ultrapassou o limite que caracteriza a intensidade forte. Segundo ele, o aquecimento das águas do Oceano Pacífico Equatorial já influencia o clima brasileiro.

“As chuvas aqui na parte central do Brasil, até no Distrito Federal, nessa época que praticamente não chove, já são um efeito dele. Também as chuvas intensas no Tocantins e no Maranhão já são consequência desse fenômeno”, afirma.

Apesar disso, ele destaca que o principal efeito esperado para Brasília ainda está por vir. As frequentes massas de ar frio que chegaram ao Sul do país nas últimas semanas retardaram a sensação de calor mais intenso. A tendência, no entanto, é que a primavera marque uma mudança no comportamento das temperaturas.

“O Distrito Federal também sofre algumas influências do El Niño. Durante a primavera, entre setembro e novembro, deve registrar temperaturas mais elevadas”, explica Francisco de Assis.

Como as previsões climáticas trabalham com tendências de longo prazo, o especialista recomenda que a população acompanhe diariamente os boletins meteorológicos de curto prazo para se preparar para episódios de baixa umidade, ondas de calor e temporais localizados.

Calor acima da média preocupa especialistas

As projeções do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) reforçam esse cenário. Segundo o pesquisador Gilvan Sampaio, o fenômeno deverá ganhar ainda mais força até o fim do ano, atingindo intensidade entre forte e muito forte, com pico previsto entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.

Na Região Centro-Oeste, o aumento da temperatura média do ar será o principal reflexo do fenômeno. Ao contrário do que ocorre no Sul do Mato Grosso do Sul, onde existe tendência de chuvas acima da média, não há evidências de mudanças significativas no volume de precipitação para o Distrito Federal.

“Com temperaturas mais elevadas aumenta a probabilidade de incêndios florestais, principalmente em áreas de florestas degradadas”, destaca Gilvan Sampaio.

Além do impacto ambiental, as temperaturas mais altas também podem provocar reflexos na saúde da população, especialmente entre pessoas com doenças cardíacas e respiratórias, além de aumentar o consumo de energia devido ao uso mais intenso de aparelhos de refrigeração. A piora da qualidade do ar provocada pelas queimadas também entra na lista de preocupações dos especialistas.

No campo, adaptação virou rotina

Quem vive da agricultura sabe que acompanhar a previsão do tempo faz parte do trabalho. Nos vinhedos do Distrito Federal, cada mudança no clima interfere diretamente na qualidade da produção.

Na Villa Triacca, o produtor Ronaldo Triacca explica que a temperatura exerce papel decisivo no desenvolvimento das uvas. Se por um lado o frio intenso pode provocar geadas e comprometer brotos, folhas e cachos, por outro, a amplitude térmica característica do inverno no Cerrado favorece a maturação dos frutos.

“Esse estresse moderado estimula a concentração de açúcares, compostos fenólicos e aromas, resultando em frutos com maior teor de sólidos solúveis, característica muito importante para a produção de vinhos de qualidade”, explica.

Neste ano, as chuvas chegaram fora do período esperado. Apesar da mudança, o produtor afirma que os impactos foram limitados graças ao sistema adotado na propriedade.

“No Distrito Federal, o clima apresenta uma sazonalidade bem definida. Pequenas variações climáticas ainda não foram suficientes para comprometer a qualidade das uvas produzidas pelo sistema de dupla poda. No entanto, eventos extremos sempre são acompanhados com atenção”, ressalta.

A principal ferramenta utilizada pela Villa Triacca para reduzir os impactos climáticos é a dupla poda, técnica que desloca a maturação e a colheita para o inverno, período naturalmente mais seco no Cerrado. A propriedade também realiza a colheita nos horários mais frescos do dia para evitar que o calor prejudique a qualidade dos cachos logo após serem retirados da planta.

A preocupação, porém, vai além da produção.

Durante a estiagem, a prevenção contra incêndios passa a integrar a rotina da fazenda. Aceiros, limpeza da vegetação seca, monitoramento constante da propriedade e orientação das equipes fazem parte das medidas adotadas para reduzir o risco de queimadas atingirem os vinhedos.

Para Ronaldo Triacca, o maior desafio atualmente não está apenas nas mudanças climáticas, mas em manter um sistema produtivo adaptado às características do Cerrado. Embora a dupla poda proporcione uvas de alta qualidade, ela exige investimentos maiores em tecnologia, mão de obra e manejo, elevando os custos da produção.

Um desafio para os próximos anos

Na Ercoara/Vinícola Brasília, o produtor Erbert Araújo acredita que a região ainda é privilegiada quando comparada a outras áreas do país sujeitas a eventos climáticos extremos. Isso, porém, não significa que o setor esteja livre dos impactos.

“Esse ano tivemos um nível de precipitação acima da média no mês de junho. Isso trouxe um desafio para os viticultores em relação à sanidade dos vinhedos. Tratos culturais específicos tiveram que ser adotados para controlar essa condição adversa”, relata.

Para ele, as mudanças no clima devem exigir cada vez mais investimento em tecnologia e inovação.

“O clima é um dos fatores que mais interfere no resultado da produção de alimentos. Mudanças climáticas sempre serão um desafio para o produtor, que tem que buscar alternativas com tecnologias novas e sistemas de manejo específicos para minimizar esses efeitos. Esse talvez seja o grande desafio para a agricultura nos próximos anos”, conclui.

Enquanto o pico do El Niño é aguardado para o fim deste ano, especialistas compartilham a mesma recomendação: acompanhar de perto as previsões meteorológicas e se preparar para um período marcado por temperaturas mais altas. No Distrito Federal, onde o calor já faz parte da rotina durante a seca, a expectativa é que o fenômeno torne esse cenário ainda mais intenso, exigindo atenção redobrada para a saúde, o meio ambiente e a produção agrícola.

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