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“É uma violência cruel”, diz psicóloga sobre abusos sexuais a crianças e adolescentes

O abuso é um acontecimento que está além da compreensão da criança, fazendo com que ela não entenda o porquê do que houve

Foto: Breno Esaki / Secretaria de Saúde

“É uma violência cruel”, descreveu a psicóloga clínica Ciomara Schneider a respeito da violência sexual contra crianças e adolescentes. Nesta quarta-feira (18) comemorou-se o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, data criada há 22 anos para a conscientização deste tipo de crime contra menores de idade.

O dia relembra a morte de Araceli Cabrera Sánchez Crespo, que em 18 de maio de 1973, com 8 anos de idade, foi sequestrada, violentada sexualmente e assassinada em Vitória, no Espírito Santo.

A especialista, que já recebeu pacientes adultos que haviam sido abusados na infância e na juventude, além de outras crianças que passaram pelo mesmo trauma, o ocorrido no crime pode levar a criança a um processo depressivo e que muitas vezes afeta a autoestima. “Ela considera uma violência do mais alto nível”, disse.

De acordo com a também mestre em Antropologia Social e doutora em Psicologia Clínica, por vezes, dependendo da idade, o abuso é um acontecimento que está além da compreensão da criança, fazendo com que ela não entenda o porquê do que houve, embora sinta as dores da agressão. “Para ela, aquilo aconteceu por algo que ela fez de errado [sendo como um castigo]”, disse. A partir daí, a baixa autoestima pode ser gerada.

“Se a criança não for bem atendida e o caso não for bem conduzido, pode vir a desenvolver uma dificuldade para socializar. Não podemos dizer, porém, que uma criança que sofre um abuso está com a vida condenada a esse estado [de depressão e autoestima baixa]. Ela precisa ser atendida e tratada, e com a família junto, que também passou por um trauma”, destacou.

A forma como o ambiente de convivência da criança e do adolescente lida com as vítimas após a agressão poderá ajudar para uma boa recuperação. Por mais que a situação não seja apagada da memória de maneira intencional, as sequelas do ato de abuso poderão ser bem menores durante a vida adulta, não impedindo que a pessoa viva feliz com ela mesma, segundo Ciomara.

“Mas quando a criança não é tratada, escutada e legitimada nessa situação de abuso e de dor – não apenas física, mas também psíquica –, então ela carrega o trauma como uma marca dela, em que muitas vezes pode levar ao desenvolvimento da baixa autoestima e insegurança nas relações afetivas e amorosas que ela terá a partir da juventude, afetando até na área sexual, agindo com desconfiança”, alertou a psicóloga.

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E quando o abusador é de casa?

As situações mais difíceis para se lidar com as situações de agressões sexuais, segundo Ciomara, são aquelas em que o abusador é uma pessoa próxima à família, ou mesmo pertença a ela, sendo padrastos, tios, avós, ou mesmo mães e tias. Em casos como estes, por mais que haja uma pena a ser cumprida, após a saída do agressor da prisão, ainda há a possibilidade de contato pela proximidade familiar.

Nesses casos, o acompanhamento e atendimento continuam, se estendendo também aos algozes, conforme explica a psicóloga. “Existem grupos comunitários que existem para dar um suporte. O próprio abusador tem que passar por um processo de tentativa de reaproximação”, destacou, havendo, com certeza, uma complexidade maior.

Em muitos casos, as pacientes atendidas por ela na clínica em que trabalha, já adultas, ainda carregavam os traumas de terem sido abusadas sexualmente durante anos dentro de casa. “Não que elas não tenham refeito a vida, enfrentando as dores, mas a dificuldade ainda existe. Quando se entra na vida adulta, essas mulheres, que hoje já têm filhos, por vezes passam pelo trauma da preocupação excessiva dos filhos também passaram por uma situação de abuso”, disse.

“Elas podem acabar se tornando mães superprotetoras, que não querem que os filhos cresçam, e que têm medo de que os filhos saiam sozinhos e venham a ser abusados”, destacou. “Isso pode refletir nas relações familiares também, porque se é um parente que abusou e não houve uma separação da situação, é como se a vítima não tivesse legitimidade na dor e no sofrimento dela”, continuou.

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Atenção aos sinais

São diversos os contextos e situações em que as violências sexuais contra crianças e adolescentes podem acontecer. Em todas elas, as dificuldades emocionais variam conforme a idade por ser sempre uma situação traumática, de acordo com Aurea Cerqueira, psicóloga, psicanalista e mestre em psicologia clínica e cultura pela UnB.

Se for uma criança muito pequena, por exemplo, o abuso transcende a capacidade da criança de comunicar, sentir e perceber o que está acontecendo, conforme explicou a especialista. Sendo tão pequenas, é mais difícil identificar o crime porque elas podem ou ficar mais silenciosas ou chorar mais. Mas é comum elas terem dificuldade com adultos. Além disso, é preciso estar atento a hematomas e dores para urinar. Em crianças mais velhas, a tendência é se isolar, apresentar dificuldades para se expressar e manifestar alterações de comportamentos.

“Em relação a colegas na escola e professores, ela pode apresentar uma série de sinais de que está com sofrimento psíquico”, afirmou a também professora do curso de Psicologia do Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). “[A criança] sente medo, angústia, não sabe como recorrer a um adulto, e pode se sentir inibida e culpada dependendo de como funciona a dinâmica familiar dela, se vendo incapaz de pedir ajuda”, destacou.

Destaca-se, portanto, neste momento a importância do auxílio da instituição de ensino no apoio à criança ou ao adolescente. “É importante que os agentes da escola percebam algo diferente do habitual, para que a criança seja acolhida e ouvida. A partir daí, se deve conversar com a família e interagir com profissionais psicólogos que estão atendendo na escola, se for o caso, para que os sinais sejam identificados”, reforçou.

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A especialista atenta para que, no momento da conversa com a vítima, menor de idade, a comunicação não carregue um caráter punitivo, para que a criança ou adolescente se sinta confiante para falar sobre o que aconteceu – caso contrário, o posicionamento ríspido apenas tornaria mais difícil a situação. Ao mesmo tempo, é importante que as famílias e as escolas recorram a instituições que estejam aptas a realizar as escutas necessárias a essas crianças, como o conselho tutelar e a Delegacia de Proteção da Criança e do Adolescente (DPCA).

“Envolve um trabalho multidisciplinar, porque envolve um crime. A própria conversa com a criança na investigação precisa ser guiada de uma forma menos dolorosa o possível para ela”, destacou. “Há um transbordamento emocional em que as vítimas não sabem o que fazer com tantas emoções. Por isso é importante o papel dos adultos nessas situações em perceber as dificuldades e ter sensibilidade para enxergar que há algo de errado.”

Diálogo também é prevenção

O posicionamento de Aurea é que os momentos de diálogos precisam ser maiores e melhores dentro das famílias com as crianças e adolescentes. Ao mesmo tempo em que se pode orientar, apontando onde os toques de outras pessoas podem ou não podem acontecer, a abertura na comunicação com os filhos faz com que problemas de abuso sejam identificados mais facilmente, uma vez que a vítima menor de idade se sentirá confiante para conversar sobre o que aconteceu.

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“Se as famílias puderem fazer dos diálogos algo regular, ter tempo para conversar sobre o dia a dia das crianças e adolescentes, a abertura vai ser maior e os filhos tendem a ficar mais preparados para enfrentar situações que eventualmente escapem do acompanhamento dos pais”, defendeu a psicóloga.

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“Aquelas que sentem abertura para conversar o que sentem, percebem e veem, tendem a agir de forma mais segura em situações em que podem acontecer abusos e estará segura para pedir a ajuda dos pais”, finalizou.








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