Colecionadora, fã número um e curadora de um museu pessoal. Essa é Rosa de Lourdes Garcia, professoraaposentada de 67 anos, moradora da Asa Norte, que reúne peças do segundo livro mais vendido e traduzido do mundo, O Pequeno Príncipe. Ela conheceu o livro pela primeira vez na infância, aos 12 anos, e apaixonou-se pelo mundo mágico criado pelo autor francês Antoine de Saint-Exupéry. Hoje, ela vive inspirada pelos ensinamentos contidos nas histórias.
Para provar que “toda pessoa grande foi criança um dia”, Rosa não tem vergonha de rir e brincar, com a inocência de uma menina. Entre as preciosidades, há cartas e desenhos de crianças. Uma delas diz: “você parece ter cinco anos porque é muito moleque”.
“Você já está atrasada. Combinamos de nos encontrar às 10h30. E desde às 9h30 estamos felizes. Preparei o coração para esse encontro”, sorriu, ao receber a repórter. Rosa justifica: “Essa é uma fala do livro, só mudei um pouco para o momento de hoje”. A fala original é “se tu vens às quatro da tarde, desde as três eu começarei a ser feliz”.
Rosa é daquelas que faz qualquer visitante se sentir em casa ao sentar no chão para contar as histórias do livro. “Adoro sentar no chão, é o que mais gosto, principalmente quando há crianças pela casa”, confessa.
Espírito jovem
O espírito de moleque vai além do papel. Ela curte esportes radicais, já pulou de asa delta e andou de caiaque. Mas suas maiores loucuras foram em nome de sua paixão: “Uma vez encontrei uma edição da obra, com 2m de altura que custava R$ 51 mil em São Paulo. Até levei meu carro para avaliar na loja, pensei em vendê-lo, mas o livro não caberia no apartamento.”
Demonstrações do amor pela obra também não faltam nas memórias de quem a conhece. “Uma vez fomos para Natal (RN) e ela viu um baobá. Estávamos numa van de turismo. Ela fez o motorista parar, desceu mancando, com o gesso na perna, e abraçou o baobá emocionada porque a árvore tem um momento importante no livro”, lembra sua cunhada, Regina Duarte, 58.
Motivação
Essa é, aliás, sua motivação diária: viver o que prega e acredita. “Não há sentido a gente falar as coisas se não vivemos. O livro é minha ação de vida. A lealdade, a honestidade e a inocência só fazem sentido nos ensinamentos de vida que aprendi com o Príncipe”, ensina.
Rosa de Lourdes viveu em um internato na Paraíba na infância e foi para o convento de freiras logo cedo, onde ouviu as histórias do Pequeno Príncipe pela primeira vez. Ela ficou encantada com a forma como o menino de cachinhos encarava a vida. Quando saiu de lá, aos 18 anos, encontrou uma coleção de cartões do livro, que viraram as primeiras peças do museu. “Não há tanta filosofia e história em outro livro. Sinto espiritualidade quando ele precisa se livrar do corpo pesado para voltar ao planeta dele.”
Acervo
No acervo particular há edições em 18 idiomas diferentes, além de todas as outras obras de Saint-Exupéry. Seu capítulo favorito é o de número 21, quando o menino conhece uma raposa e aprende a cativar um relacionamento.
“Hoje em dia a gente se sente tão só. Mas nesse momento, ele aprende a ter lealdade e carinho pelos outros”, diz a senhora que nunca se casou, mas vive rodeada de amigos e familiares que a presenteiam com lembranças do livro. “Ela é o Pequeno Príncipe encarnado, nas atitudes e forma de ser. Uma pessoa incrível”, diz a cunhada Teresinha Nunes, 60 anos.