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Brasília

Drogas X trabalho: um drama mascarado

Arquivo Geral

18/11/2014 6h50

Em 1991, o ídolo argentino Maradona  foi pego em exame antidoping  por uso de cocaína, e acabou suspenso do futebol por mais de um ano. No Brasil, o ex- jogador do Brasiliense Jobson, hoje no  Botafogo, passou mais de dois anos longe do esporte por uso da mesma substância. A realidade, no entanto, não está restrita aos gramados. Houve crescimento de mais de 50% nos índices de afastamento de trabalhadores por dependência de alguma droga.  

O dado é de levantamento do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que abrange o período de 2009 a 2013. O principal “vilão” que progrediu foi a cocaína, cuja responsabilidade pelos afastamentos aumentou em quase 90%.

Segundo o instituto, isso significa mais de R$ 200 milhões gastos durante esses cinco anos para o pagamento dos auxílios-doença. Os valores recebidos por cada beneficiário variam, dependendo do contracheque da pessoa, mas as quantias pagas estão entre R$ 724 e R$ 4,3 mil, valores mínimo e máximo respectivamente, do INSS.

No DF

De janeiro a agosto deste ano, o INSS calcula ter emitido mais de 82 mil auxílios “relacionados ao uso de drogas” no País. Dentre as substâncias citadas estão álcool, antidepressivos e    cocaína. No DF, dos 1.450 benefícios concedidos neste período, 41 foram por “transtornos mentais e comportamentais” devido ao uso da droga.

Para André de Souza Pinto e Castilho, médico do trabalho da Brasal, o derivado sintético da coca é mais perigoso tanto por ser mais simples disfarçar os sintomas de vício quanto pelo efeito colateral da dependência. “É possível saber se uma pessoa é viciada em álcool, por exemplo, a ‘quilômetros’, pelo cheiro. Mas com a cocaína é possível mascarar os sintomas”, alerta.

“Em geral, ela deixa as pessoas mais agressivas. Portanto, é comum que usuários tomem ansiolíticos e antidepressivos para mascarar o uso, o que agrava o problema ou gera um segundo vício”, complementa. Segundo ele, no entanto, apesar de o consumo da cocaína ter aumentado, ainda não é tão representativo quanto o abuso de álcool.

“Após uso de álcool, mesmo em pouca quantidade, percebemos a diminuição da concentração do trabalhador. Notamos   certa sonolência, principalmente quando associado a remédios. A diminuição do desempenho  é perceptível”, diz.

Nem todos conhecem direitos

Marcelo Cavalcante Dias Pereira, ex-metalúrgico de 31 anos, já foi trabalhar sob efeito de álcool, maconha e cocaína. “Comecei a usar   na adolescência. Quando fazia entrega no meu bairro no Rio de Janeiro,   viciei em maconha, aos 16 anos. Tudo o que eu fazia era pensando na droga”, relata o carioca, hoje morador do DF e livre do vício.

Ele nunca foi ajudado pelo INSS, pois sempre largou os empregos antes de buscar ajuda. Sua principal batalha foi contra o vício em crack, que destruiu  a carreira. “É uma droga que se fuma e, cinco minutos depois, se quer mais. Você faz qualquer maluquice para obter”, diz.

Segundo Marcelo, a cocaína o deixava acordado  e, ao ir trabalhar,   estava cansado. O  rendimento   caiu. Ele não conseguia se concentrar e se sentia desmotivado.

De acordo com o professor de psiquiatria da  UnB, Raphael Boechat, quando o efeito inicial passa, a cocaína faz o usuário entrar em um ciclo vicioso. “Pode aumentar irritabilidade e levar a quadros psicóticos, em que há delírios de perseguição e insônia”, explica. 

Segundo Raphael, é importante que colegas  apoiem ao notarem a condição de um amigo e que as empresas disponham de um corpo médico especializado. “A pessoa é demitida, mas às vezes nem sabe que tem problemas por causa da droga ou não se dá conta de que desenvolveu dependência”, ressalta.

Serviço
 
O dependente químico tem direito a pedir o auxílio-doença do INSS em caso de incapacitação para o trabalho. É necessário, no entanto, que seja segurado com pelo menos 12 meses de contribuição para a Previdência Social. O número do INSS para dúvidas é o 135.

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