A dependência química é um dos temas mais debatidos na atualidade. O assunto é sempre tratado como caso de polícia, no caso do tráfico de drogas; ou de saúde pública, tratando-se dos dependentes. Entretanto, o triste universo que envolve o cenário das drogas vai muito além. A dependência causa dor e sofrimento não apenas aos usuários, mas também aos familiares, que convivem de perto com o drama e acabam tornando-se codepententes. Ou seja, não fazem uso de substâncias ilícitas, mas são vítimas indiretas de seus efeitos.
Todas as classes sociais estão envolvidas nesse contexto. Um exemplo triste dessa realidade é a histórias do ex-lutador e professor de Muay Thai Moisés Maciel, que é acusado de espancar até a morte Isaque Nilton Alves, de 28 anos. A vítima teria reclamado do consumo de drogas na porta da casa dele, no Guará II, no último dia 10. A família de Moisés não é a única a sofrer com a codependência.
30 anos de vício
Contar com o colo do pai, ouvir conselhos e até mesmo reclamar do excesso de autoridade são situações protagonizadas por muitos filhos. Mas a aeroviária Fernanda Silva, 29 anos, nunca teve a oportunidade de vivenciar isso. Seu pai, A.L, 50 anos, é dependente químico há mais de 30 anos e coleciona oito internações em clínicas de recuperação.
Suas primeiras experiências foram com a maconha e com o álcool, ainda na adolescência. Depois veio a cocaína e, por último, o crack. “Eu não o enxergo como pai, me sinto a responsável por ele. Mas transformei a ausência dele em força para lutar pela sua recuperação”, relata.
Jamais jogar a toalha
A trajetória de algumas pessoas no mundo das drogas acaba não se restringindo ao consumo. Além de usuário, A.L., pai de Fernanda, se tornou traficante. Mas de acordo com ela, a prática não foi motivada pelo aspecto financeiro.
“Eles são muito vaidosos. Tem aquela coisa de bater no peito e dizer: ‘eu sou dono da boca’. Para enganar a família, ele mantinha um comércio para justificar os ganhos. Mas como estava sempre lá, percebi que tinha algo errado. Via gente comprando droga o tempo todo”, relembra a aeroviária.
Segundo ela, que tinha apenas 16 anos na época, o convívio com o ambiente sombrio do tráfico foi determinante para o seu futuro. “Eu percebi que definitivamente não era aquilo o que eu queria para mim. Vi o sofrimento de toda a família e percebi que precisava fazer a diferença” , relata.
Apoio
O irmão de A.L., o fotógrafo J.R, conta que o apoio ao dependente é fruto do desejo de evitar um sofrimento ainda mais latente aos seus pais. “Meus pais são octogenários. Se eles não desistem, quem somos nós para jogar a toalha? Sabemos que se não fizermos isso, eles, no alto da velhice, tomarão a frente de tudo”, afirma.
De acordo com ele, o irmão sempre contou com o apoio financeiro e afetivo dos pais para seguir um caminho diferente. “Por excesso de amor, meus pais acabaram facilitando o vício dele, pois nunca negaram dinheiro”, relata.
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