Kamila Farias
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Se você vai a salões de beleza, bares ou a um simples encontro com amigos, um dos assuntos que mais aparecem na conversa é a novela Avenida Brasil. Mas não para por aí. Até na política, o folhetim da TV Globo virou referência. Na última terça-feira, tanto na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Cachoeira como no julgamento do mensalão, a trama foi citada. Nas ruas, as personagens Nina (Débora Falabella), Carminha (Adriana Esteves) e Max (Marcello Novaes) dão o que falar e muitos brasilienses se assumiram noveleiros. Por mais de uma vez, Avenida Brasil bateu recorde de audiência e chegou aos 40 pontos no Ibope. Mas por que a novela chama tanto a atenção dos telespectadores?
Para a psicóloga, escritora e professora da Universidade Católica de Brasília (UCB) Lívia Borges, o sucesso se reflete pelo momento em que a sociedade está vivendo, um tanto superficial. “As pessoas estão distantes da parte refinada delas mesmas e buscam a resolução de seus problemas nas outras pessoas. Nos salões de beleza, por exemplo, as pessoas comentam, brigam, reclamam, mesmo sabendo que se trata de algo fictício, pois elas estão relacionando a história com algo próprio”, afirma a psicóloga.
No entanto, ela deixa claro que, se a novela é usada como entretenimento, e não ocupa muito o tempo da pessoa, a questão não é vista como um problema. “O problema está no tempo que você deixa de viver por causa da novela”, diz.
Para ela, o folhetim deveria perpetuar valores mais positivos. “As duas protagonistas fazem vingança com uma pitada de humor, e isso atrai ainda mais. O que acaba sendo um perigo para a formação das crianças e adolescentes, pois eles ainda não sabem filtrar as informações”, observa.
Para a doutora em Cinema e Televisão da Universidade de Brasília (UnB) Tânia Montoro, vários fatores influenciam para o sucesso da novela. E as pessoas, de certa maneira, se identificam com alguma situação apresentada.
“Pode ser a insegurança de sair de casa que faz com que as pessoas fiquem mais próximas da TV. E vejo também como uma opção de lazer barata. É um gênero familiar e tem elementos da vida cotidiana. Tem muita gente assistindo essa novela e pode ser porque se identificam com algo que ela tenha, vejam alguma coisa familiar”, ressalta a professora da UnB.
Trama bem feita
Ela ainda avalia que a trama é muito bem feita, com vários atrativos. “A televisão faz parte do cotidiano do brasileiro e aonde você chega, se comenta sobre a novela. Vale ressaltar também que são duas grandes atrizes”, defende.
A aposentada Águida dos Reis assiste a novela todos os dias e diz que o que atrai sua atenção é a história sofrida da Nina e a curiosidade para saber como o enredo irá terminar. “A Nina está desenvolvendo coisas ruins em seu coração devido a todo sofrimento que ela passou na infância. E acho que o que atrai é isso, que a Nina era boa e está se tornando má, e as pessoas estão querendo saber até onde isso vai chegar”, comenta.
Mesmo diante da expectativa com o que irá acontecer no decorrer de Avenida Brasil, ela afirma que o drama já está perdendo a graça e que tem escutado muita gente reclamar. “Devido à audiência, o autor está se alongando demais e a vingança da Nina já está exagerada. E por onde ando, vejo as pessoas comentando isso, que já está ficando chato. O autor tem que fazer algo ai, por que a novela vai até outubro”, diz.
Max e Carminha da CPI
O assunto parece realmente influenciar a todos. Na CPI do Cachoeira, a senadora Kátia Abreu (PSD-TO) comparou Andressa Mendonça e seu esposo Carlos Cachoeira ao casal Max e Carminha da novela. Já no Supremo Tribunal Federal, o advogado Leonardo Yarochewsky citou o drama para ilustrar a sua sustentação de banalização as denúncias feias pelo Ministério Público, o que arrancou risadas dos presentes.
“É o momento em que se reúne toda a minha família. Todos lá em casa vamos para frente a TV e assistimos a novela”, conta a estudante Claudiana Alves, 17 anos. Ela diz que o folhetim tem servido até para conhecer novas pessoas. “Se tem uma TV ligada passando a novela, as pessoas podem nem se conhecer, mas ficam uma do lado da outra assistindo. Na escola é assim, quando conversarmos sobre a novela, de repente aparece muitas pessoas e dão opinião também”, conta a estudante.
O atendente Victor Viana também não consegue desgrudar os olhos da telinha e diz que o clímax da novela é a briga entre Carminha e Nina. “Sempre que vou a algum lugar e a TV está ligada, eu paro para assistir. E se não consigo ver no dia, procuro na internet no dia seguinte, mas não fico sem assistir. O que atrai é o fato de essa novela estar diferente. Antes, o vilão se dava bem e agora está parecendo que vai ser diferente e a gente está querendo saber até onde isso vai dar”, explica.
E a novela não difere classe social. Até quem têm uma boa condição financeira assume ser noveleiro de carteirinha. “Sento no sofá e me sinto atraída pela novela. Acho que tem muita coisa agressiva acontecendo na história, mas é complicado parar de assistir. O autor está sabendo manter o público atento”, diz a empresária Mariana Maia.
Academia ligada na trama
Para não deixar que a novela das oito se torne um concorrente, estabelecimentos comerciais estão ligando as televisões na novela para atrair a clientela. Bares, restaurantes, academias e até boates estão utilizando a teledramaturgia como um aliado.
“Segundo o diretor da academia Runway Márcio Padilha, 18% do fluxo da academia diminuiu no horário nobre da TV, desde que a Avenida Brasil começou. “Essa novela tem chamado muito a atenção das pessoas. Estão deixando de fazer as coisas para assistir a novela. Por isso, neste momento, a estamos vendo como concorrente, pois muita gente deixa de ir para academia nesse horário especifico”, conta.
Assim, para evitar que o fluxo diminua ainda mais, algumas televisões da academia são ligadas na novela. “Estamos tentando atrair esse público, mas está difícil. Essa novela está parecendo final de Copa do Mundo”, brinca.
Para não passar pelo mesmo problema, a boate Victoria Haus está programando a festa temática Avenida Brasília. “Decidimos fazer uma brincadeira devido ao fenômeno que a novela se tornou. Por isso, a gente decidiu fazer essa festa e brincar com os elementos marcantes da novela”, conta o diretor artístico Thales Sabino.
No próximo dia 31, uma das pessoas que receberá o público será bem parecida com a Zezé (empregada da Carminha). A festa contará com um painel para que as pessoas possam tirar fotos como se aparecessem no encerramento dos capítulos, quando a imagem dos personagens é congelada. E terá um show de funk com os bordões da novela. “Até o flyer (espécie de panfleto) é personalizado com o layout da novela. Vamos fazer uma paródia mesmo. Vão ter vários bonecos da Nina espalhados e muita surpresa. A festa já está dando muito burburinho”, diz.