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Brasília

Distância prejudica rotina dos alunos da rede pública do DF

Arquivo Geral

04/01/2018 7h00

Atualizada 03/01/2018 21h53

Com as filhas estudando em pontos diferentes, Jéssica ainda não sabe como vai se organizar. Foto: João Stangherlin

Raphaella Sconetto
raphaella.sconetto@grupojbr.com

As aulas nem começaram ainda, mas pais de alunos da rede pública de ensino do Distrito Federal já têm motivos para reclamar: muitos estudantes foram matriculados em escolas longe de casa. A distância, em alguns casos, chega a quase 30 quilômetros. Até 18 de janeiro, os responsáveis precisam decidir se confirmam a matrícula ou tentam a sorte com as vagas remanescentes.

Em Vicente Pires, pelo menos 25 mães estão preocupadas com essa distância. É o caso da dona de casa Luzia Maracaípe Vieira, 41 anos. A filha mais velha, Clara, de 8 anos, foi matriculada na Escola Classe 2 da Vila São José, em Vicente Pires. “Mas a menor, de quatro anos, eles enviaram para M Norte (Taguatinga). Não sei nem onde fica”, comenta.

A preocupação com a falta de escolas na região fez com que Luzia criasse um grupo com outras mães que passam pelo mesmo problema. “O que fiquei sabendo era que as crianças do Assentamento 26 de Setembro (comunidade que fica entre Taguatinga e Brazlândia) vêm estudar aqui e os nossos vão ter que deslocar até a M Norte”, especula. “Fica complicado, por que como vai ser ter de deixar as duas crianças em locais diferentes?”, questiona.

A dona de casa está ciente de que há pouca oferta em Vicente Pires. A sua indagação é em relação à distância. “Não estou pedindo para que seja aqui, até porque entendo que não deve ter mais vagas. Mas poderia ser em alguma parte mais próxima em Taguatinga”, destaca. A mãe conta que o governo propôs transporte público para as crianças, mas ela pretende recusar a ajuda. “Eu não tenho coragem. Minha filha é muito pequena e está tudo tão perigoso”, aponta.

Também moradora da região, a babá Jéssica Morais Xavier, 28 anos, reclama da mesma situação: a filha, Luiza Vitória, de cinco anos, foi encaminhada para a M Norte. Ano passado, Luiza Vitória foi matriculada na instituição, mas, por ser pequena, a mãe preferiu aguardar 2018 para tentar outra vaga. “Eu não confirmei a matrícula porque sabia que não ia conseguir levá-la. Fui ao Conselho Tutelar, à Regional de Ensino, e nada foi resolvido. Só que este ano ela precisa estar na escola por conta da idade”, conta.

A babá alega ainda não poder pagar uma van escolar para a pequena. “Minha filha Sara (12 anos) conseguiu uma vaga em outra escola de Taguatinga. Seria mais fácil se as duas estudassem no mesmo lugar, porque a mais velha já consegue andar de ônibus. Se eu achar alguém que faça esse caminho, a van vai custar quase R$ 300. É um dinheiro que faz falta”, reclama.

Com as dificuldades, Jéssica já cogitou se mudar para poder levar as filhas. “Pensei em ir para Taguatinga ou Ceilândia, mas meu esposo não quer porque ele trabalha aqui em Vicente Pires”, afirma.

Caminho de quase 30 km

A autônoma Tuany Oliveira dos Santos, 27, tem três filhos. Residente no Itapoã, ela conseguiu somente este ano que dois deles estudem no Paranoá, que fica mais próximo de sua casa. No entanto, Raiane, de 7 anos seguirá na Escola Classe 1 do Lago Sul. A distância entre a casa e a instituição é de 28 quilômetros.

“Já tentei o remanejamento e não consegui. A Isabela, de 9 anos, e o Miguel, de 4, vão poder estudar aqui perto, então isso já facilita. Mas a Raiane continuará distante”, lamenta a mãe. A garota estuda na parte da tarde e a mãe afirma que a logística complica atividades diárias e até aperta o bolso.

“Tenho que pagar van escolar, que ano passado custava R$ 170 e neste ano deve aumentar. Ela sai de casa por volta das 11h20 e chega muito tarde, quase 20h. Fica bem cansativo, e com o horário de verão isso pesa mais. É muito ruim. Só matriculei no Lago Sul porque sempre precisei trabalhar e eles tinham que ficar em escola ou creche. Mas é muito ruim, é complicado até para ir em reunião de pais, festinha da escola”, argumenta Tuany.

Para ela, se a filha estudasse, assim como os irmãos, em uma escola do Paranoá, a rotina seria mais agradável. “O ônibus do governo pega e leva para a escola. Eles não chegam tão tarde em casa e conseguem aproveitar o dia”, acrescenta a autônoma.

Versão oficial

Segundo a Secretaria de Educação, apenas 0,5% dos alunos estudam em regiões administrativas diferentes das que moram. Esse número representa cerca de dois mil estudantes, em um universo de quase 470 mil matriculados em 2017. Em telefonema com a reportagem, a assessoria de imprensa da pasta chegou a dizer que “em qualquer escola é possível encontrar alguém nessa situação”. Por isso, o percentual de 0,5% foi contestado pelo Jornal de Brasília.

Ao ser questionada também sobre a forma de distribuição dos alunos, a assessoria da Educação informou que, por exemplo, “não existem vagas em Ceilândia para todas as pessoas que moram ali”. A consequência é o arranjo de alunos em instituições distantes de suas residências. Apesar disso, a nota da Secretaria de Educação alega que “os alunos são alocados a partir do CEP da residência ou do trabalho do responsável informados na matrícula”.

Até o fechamento desta edição, a Secretaria de Educação não se pronunciou mais a respeito do problema.

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