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Brasília

Disputa sobre grade no Plano Piloto fica nas mãos da Justiça

Arquivo Geral

03/05/2016 6h00

Eric Zambon

eric.zambon@jornaldebrasilia.com.br

A remoção da grade no comércio da 307 Sul simboliza mais um capítulo de um impasse antigo. Comerciantes do Bloco C investiram R$ 20 mil na instalação   na parte de trás do prédio, mas, ontem, tiveram de retirá-la após notificação da Agência de Fiscalização (Agefis). A justificativa dos empresários para colocar a proteção foi afastar usuários de drogas e moradores de rua.

A remoção foi o estopim para a Associação Comercial  (ACDF) entrar, hoje, com ação na Justiça para cobrar do governo “comprometimento de garantir segurança”. “Entendemos o papel da Agefis, mas não tivemos alternativa a não ser colocar uma grade para nos proteger. Os casos de furto   eram inúmeros”, defende o presidente da associação, Cléber Pires.

Os comerciantes criticam o tombamento da cidade  por embasar a  fiscalização contra as modificações estruturais, enquanto especialistas apontam que, além de deixar Brasília mais feia, a ação não é efetiva. “Tentar resolver criminalidade com soluções de arquitetura é enxugar gelo”, dispara o professor   Frederico Rosa Borges de Holanda, do Departamento de Teoria e História da Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília.

Crimes mobilizam

Dono de uma farmácia de manipulação no bloco, Sylvio José Ferreira de Menezes  diz ter sofrido três arrombamentos desde 2014. Em duas oportunidades, conta ele, os criminosos usaram a entrada de trás para acessar a loja, mas não levaram nada, pois teriam se assustado com o   alarme. “A gente se sente abandonado. Nos dois meses em que a grade esteve aqui, tivemos tranquilidade”, afirma.

Ele admite que a iniciativa surgiu sem consulta prévia a respeito da legalidade. Segundo Menezes, foram pedidos reforços no policiamento da região, porém, a situação não melhorou. “Os moradores de rua faziam as necessidades atrás da loja. Tinha dia que a gente chegava e estava um cheiro insuportável. Quando fomos limpar o ar-condicionado, encontramos canivetes, facas e pedras de crack escondidos”, desabafa.

Vendedora de uma loja de colchões, Iveline Coelho,   54, diz que a presença dos usuários de droga nos fundos do estabelecimento afasta clientes. “A gente tinha de deixar a cortina fechada, porque muita gente já reclamou. Cortaram uma grade da janela e puxaram fiação do ar-condicionado”, reclama.

Ela diz entender a necessidade de preservar o projeto arquitetônico, mas critica o fato de isso entrar em conflito com a segurança: “Acho mais bonito um patrimônio limpo e zelado do que uma calçada que ninguém usa, cheia de drogados. Isso sim é uma decepção”.

Versão oficial

Segundo a Secretaria de Segurança Pública, foram registradas 76 ocorrências por roubo em comércio na Asa Sul em 2015, três a menos em relação a 2014. Conforme a pasta, os números mais atualizados deste ano se referem a janeiro, quando foram registradas 15 ocorrências nas asas Sul e Norte e Zona Central. No mesmo período do ano passado, foram 12.

O órgão ainda informou que “roubo em comércio é um dos seis crimes contra o patrimônio monitorados de forma prioritária pelo programa Viva Brasília – Nosso Pacto pela Vida”. De acordo com a Polícia Militar, a área comercial da 306/307 Sul é “bastante movimentada e, por isso, recebe atenção especial”. A PMDF afirma que, durante o dia, os militares fazem ações preventivas com policiais a pé ou viaturas estacionadas em pontos estratégicos.

“Entrave para o desenvolvimento”

O presidente da Associação Comercial, Cléber Pires, diz que não quer  ser visto como alguém contra a preservação do patrimônio histórico. Defende, no entanto, a revisão de algumas regras. “Foi esse o governo que apoiamos e o que pedimos é o retorno do que nos é de direito. Quando se fala em segurança pública, se fala em desenvolvimento econômico”, critica.

Para especialistas, esse raciocínio é imediatista e não resolve a fragilidade da segurança. “Com essas medidas, você pode até deslocar o problema para outro local, mas não soluciona”, argumenta o professor Frederico Rosa Borges de Holanda. “A resposta é gradear a cidade inteira? É cidade que vamos ter? Seria um pesadelo, coisa de filme de terror”, avalia. 

Para ele, não se resolve problemas com alteração na arquitetura, mas com vigilância, equipamentos sofisticados para policiais e melhores salários para os militares.

O arquiteto e urbanista Cláudio José Pinheiro Villar de Queiroz, ex-superintendente do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), pede que os comerciantes respeitem o tombamento: “Quem diz que não pode não sou eu, é a lei. Se é bom ou se é ruim, não interessa. A lei tem que ser respeitada”.

Para ele, não adianta  interferir no visual da cidade para resolver questões de segurança. O papel é da polícia. “Se qualquer um começar a tomar iniciativas próprias, vai ficar complicado. O título de Patrimônio (Histórico da Humanidade, concedido pela Unesco) é o que gera investimentos grandes a Brasília. Pessoas do mundo todo vêm em razão da nossa cultura”, defende.

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