Apesar da proximidade com o Lago Sul, a realidade no Núcleo Rural Boqueirão, comunidade que vive às margens do Lago Paranoá, é outra. Após quilômetros de estrada de terra batida misturada ao cascalho, é possível ver, no pé do morro, uma sequência de casas simples, onde vivem poucas famílias. O local foi habitado inicialmente por trabalhadores que vieram para as obras da Barragem do Paranoá, em 1957, e ficaram por aqui após a inauguração de Brasília.
Hoje, as famílias vivem da agricultura, comércio e, boa parte, trabalha no Paranoá ou em Brasília. A escola mais próxima fica no Paranoá e, segundo os moradores, só dois ônibus escolares descem para buscar os alunos. As famílias não têm acesso à água encanada e saneamento básico. Pagam somente pelo uso da energia elétrica. Como se não bastassem todas essas dificuldades, na última segunda-feira a área ficou inundada após a Companhia Energética de Brasília (CEB) abrir três comportas na barragem do Lago Paranoá devido à quantidade de chuvas dos últimos dias.
Ilhados
A ação foi necessária, já que o lago atingiu o limite considerado seguro. Na manhã de domingo, o primeiro compartimento de 40 centímetros foi aberto. Com o aumento das chuvas na segunda-feira, foi necessária a abertura das outras duas barreiras de contenção. As três comportas estão abertas em 60 centímetros. Com isso, a água chegou à porta dos moradores e os deixou praticamente ilhados.
Desprevenidos
A decisão, no entanto, pegou os moradores desprevenidos. Eles negam ter recebido o aviso três dias antes, como afirmou a Defesa Civil, e dizem não ter ouvido sequer as sirenes soando no momento da liberação da água. “Todo ano, nessa época, o nível da água sobe, mas recebemos os alertas antes. Esse ano não foi assim. A água chegou na porta do meu bar, nos deixou ilhados e atrapalhou muito o movimento. Tive prejuízo”, lamenta o comerciante Durval Souza, 47 anos.
A força da água inundou estradas, arrancou árvores e arrastou lixo e animais silvestres, como cobras e peixes, para a área próxima às casas.
Abertura das comportas
Esta é a primeira abertura das comportas neste ano. Em 2013 houve o mesmo procedimento em fevereiro. A CEB explicou que a abertura é normal e acontece quando o volume de chuva aumenta muito e a usina não pode absorver toda água. Caso o volume de chuva caia, os compartimentos poderão fechados nos próximos dias.