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Dia da Voz: no palco ou em salas fechadas, profissionais explicam como se protegem

Especialista reforça que uma das principais providências a serem tomadas é a hidratação permanente, uma necessidade fundamental

Maria Eduarda Bacellar, Maria Paula Kurita e Maria Tereza Castro
Jornal de Brasília/ Agência UniCeub

“Ergam as suas taças, eu vou derramar meu coração. Te dou dois segundos para me dizer se vem ou não. Dentro das minhas veias corre um mar de amor, vem se afogar”. Os versos da música Bem-me-Quer traduzem a vontade de soltar a voz, o amor e a arte da banda brasiliense Lupa. Cercado da emoção do palco, das luzes e do ideal de sonorizar os sentimentos, o vocalista Múcio Botelho, de 29 anos, sentiu na garganta o impacto do trabalho. “Minha voz é tudo. É a essência da minha vida. Se o seu instrumento de trabalho é a voz, você deve utilizá-la para amplificar a verdade”, enfatiza o artista.

Ele verificou que, devido à falta de cuidados e à própria inexperiência, deixava a euforia do momento dominá-lo, o que comprometia a fala para uma conversa simples após os shows ou as gravações. Ao longo do tempo, ele se conscientizou que era preciso se cuidar. Alongamentos, aquecimentos vocais, prática de ioga e o consumo de água em temperatura ambiente passaram a ser rotina na vida do cantor e a situação melhorou.

Leia mais sobre cuidados com a voz

Aliás, quem tem a voz como instrumento profissional, é necessário cuidado redobrado, conforme adverte a fonoaudióloga Danielle Barreto e Silva, de 43 anos. Ela assegura que todo profissional precisa conhecer bem essa ferramenta de trabalho. O Dia da Voz, nesta sexta-feira (dia 16), é reconhecido como uma oportunidade de conscientização sobre como reforçar a prevenção a problemas que podem surgir a qualquer momento da vida.

A especialista reforça que uma das principais providências a serem tomadas é a hidratação permanente. Para os profissionais, torna-se uma necessidade fundamental. Outras observações são: boa alimentação antes do uso profissional da voz com dieta mais leve e menos condimentada, evitar café e laticínios. “O cuidado deve ser redobrado para quem possui refluxo gastroesofágico”, acrescenta a especialista. 

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Desafio físico 

No caso do cantor Múcio Botelho, ele testemunha que a utilização da voz como instrumento de trabalho consiste-se em um desafio físico, já que a rotina agitada de turnês e shows dificulta a realização dos cuidados necessários. Essa realidade contrasta com o cenário atual de pandemia, no qual a Lupa decidiu suspender os planos, resultando num menor esforço vocal.

Ele acrescenta que o isolamento social reflete na banda e que as “lives” não substituem a experiência proporcionada pelo show.

Rouquidão e ondas do rádio

“A voz tem que chegar, emocionar, comunicar, expressar um sentimento. Ela espelha sua alma”, diz a radialista Ilka Oliveira, que trabalhou 19 anos em rádio comercial e segue a carreira há 27 anos em programa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Ela afirma que a voz é o principal cartão de visitas, sendo ainda mais importante do que a própria  imagem. “É como eu me comunico. Não gosto tanto de aparecer. Fico mais à vontade somente falando”.

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Ilka Oliveira respeita intervalos para evitar rouquidão e outros danos. Foto: Arquivo pessoal

A profissional afirma que, devido à jornada de trabalho, na qual fala por cerca de 5 horas intervaladas, possui cuidados específicos orientada por especialista, que incluem aquecimentos vocais, e exercícios direcionados a boca, garganta e pulmão. Além disso, a radialista diz que procura se manter hidratada e evita laticínios ou “alimentos pesados” antes de fazer suas gravações.

Ilka enfatiza que ficou rouca “diversas vezes” e, mesmo assim, precisou trabalhar. As causas variam. Porém, ela assegura que seu emocional já a comprometeu, principalmente quando se apresenta para plateias muito grandes em palestras, deixando o nervosismo afetar a voz. Para disfarçar possíveis falhas e rouquidão, a radialista utiliza técnicas para controlar a respiração. Ela considera que esse é um anseio geral dos que atuam no meio. “Para quem utiliza a voz como instrumento de trabalho, o maior medo é de ficar rouco ou doente, não tendo condições de trabalhar”.

Jornadas e garganta doloridas

Profissionais de diversas áreas usam a voz como principal meio de comunicação. Esse recurso é essencial para os operadores de telemarketing (saiba mais sobre a profissão), por exemplo, Wesley Rezende, 23, assistente de saque, declara que sua jornada de trabalho dura em média oito horas, nas quais ele fala a maior parte do tempo. Por isso, opta por conversar menos ao final do dia, visto que costuma chegar ao fim do expediente com a garganta dolorida.

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Já o supervisor da área de cobranças Davi Torres, 20, que também atua na função de telemarketing, explica que passa cerca de 10 horas por dia falando e não possui nenhum cuidado vocal. Ele ressalta que sente certo receio de acabar dizendo “algo que não deveria” em seu ambiente de trabalho. 

“Acho que esse é o medo principal de pessoas que trabalham com a voz”. Ambos continuam em atividade presencial, com uso de máscara, causando desconfortos. Enquanto Wesley relata que isso lhe traz dificuldades na respiração, Davi sente que precisa forçar a voz mais do que o normal para que possam ouvi-lo, o que pode provocar rouquidão.

 Para o uso profissional, a fonoaudióloga recomenda acompanhamento periódico  e exercícios vocais, a fim de adquirir condicionamento, através do fortalecimento da musculatura oral e relacionada às pregas vocais. “Eu chamo profissionais da voz de atletas vocais porque precisamos de um preparo como se fosse atleta. A cada entrada profissional, devemos ter esse cuidado de aquecimento e alongamento das estruturas que vamos utilizar também”, adverte.

Riscos reais em sala de aula

Segundo a fonoaudióloga, as doenças mais comuns nas pregas vocais são chamadas de fonotraumas, lesões provocadas pelo abuso ou uso indevido. Alguns deles são: nódulos, fendas e pólipos vocais. Atualmente, com a pandemia do coronavírus, uma nova preocupação surgiu. A intubação, realizada em casos mais graves, pode causar danos vocais, temporários ou permanentes, associados ao tempo do procedimento. Para a recuperação, é necessário o acompanhamento com um profissional.

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A especialista, que também trabalha na Secretaria de Educação acompanhando professores, alerta que a maioria dos docentes não possui hábitos de higiene vocal. “Muitos ingressam na carreira de professor sem cuidados ou conhecimentos prévios e acabam se lesionando, seja com a prática abusiva, com o uso inadequado da voz ou devido à demanda excessiva”.

O professor de física Aldeny Menezes, 44 anos de idade (e 23 anos de docência), se encaixa nesse perfil. A rotina foi agravada por um sulco vocal de nascença, o que acarreta rouquidão constante. “Desde o início de sua carreira, utilizava a voz de maneira imprudente, sem qualquer cuidado vocal ou hidratação adequada”. Isso resultou em problemas tardios que acabaram lhe causando desgaste da voz.

Mesmo após um prévio acompanhamento médico, acabou deixando de lado sua rotina de cuidados vocais, devido à correria do dia a dia. Pela persistência da dor e o agravamento das demais dificuldades na voz, teve que ser afastado de suas funções por cerca de seis meses.

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Chegou a ser realocado no trabalho, para poupar a voz, o que poderia gerar uma readaptação de cargo permanentemente. Graças a sua motivação em voltar a dar aula, dedicou-se a uma rotina de exercícios vocais com acompanhamento de um otorrinolaringologista. Para evitar excessivo desgaste nas cordas vocais, investiu em ferramentas auxiliares, como o microfone. 

Na pandemia, com as aulas on-line, o professor afirma que utiliza a voz com a mesma frequência e diz que isso está relacionado ao seu estilo de aula, já que também grava vídeos complementares para resolução de exercícios. “Para mim, a voz é o que tenho de mais precioso, mesmo não dando o devido valor, ela é fundamental”.







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