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DF tem o menor tempo de abertura de empresas

Ainda assim, dificuldade na concessão de crédito afeta empreendimentos

Restaurante Sagrado Mar teve sua inauguração adiada em consequência da pandemia. Proprietário diz que atrasou seus planos em cinco meses.

Elisa Costa e Gabriel de Sousa
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De acordo com pesquisas recentes divulgadas por instituições, órgãos do governo federal e do Governo do Distrito Federal (GDF), a pandemia do novo coronavírus causou impactos significativos no mercado de trabalho, no comércio e nos empreendimentos de todo o planeta, inclusive nos que existem no Distrito Federal. Antes da pandemia, o Boletim do Empreendedorismo divulgado pela Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan-DF) em 2019, calculou que cerca de 297 mil pessoas organizavam negócios e/ou empreendimentos no DF naquele momento, referente à 21,7% do total de ocupados, número superado apenas pelo segmento dos assalariados pelo setor privado, com 42,2% de ocupação.

De acordo com o boletim Mapa de Empresas, lançado pelo Ministério da Economia referente ao 1º quadrimestre de 2021, o Distrito Federal foi a unidade da federação que apresentou o menor tempo de abertura de empresas nos primeiros quatro meses deste ano (1 dia e 11 horas), ainda assim, teve um aumento de 9,4% em relação a 2020. A Bahia tomou o primeiro lugar no ranking nacional com maior tempo de abertura de empresas (8 dias e 18 horas), com um aumento de 28% em relação ao ano anterior. Segundo o economista e presidente do Conselho de Economia do Distrito Federal (Corecon-DF), César Bergo, o distanciamento social – estabelecido como uma medida de prevenção à proliferação do vírus – mudou o comportamento dos consumidores e afetou diretamente o faturamento das empresas e também a abertura de novas.

Para se adaptarem à nova realidade, empreendedores e instituições financeiras tiveram que adotar novas práticas de trabalho, novos métodos de negociação, novas formas de entrega de produtos e de serviços. Antônio Carvalho, empresário brasiliense e dono do Restaurante Sagrado Mar no Lago Sul (DF), idealizou a abertura do estabelecimento em 2019 e a inauguração estava programada para o dia 21 de abril de 2020, no 60º aniversário de Brasília. Com a chegada da pandemia no Brasil os planos atrasaram: “O que mais me incomodou foi não saber quando poderíamos abrir”, ele contou. O restaurante só foi liberado para funcionamento em setembro do mesmo ano e, segundo Antônio, as restrições contra a covid-19 causaram impactos no negócio: “Por mais que a vacinação esteja avançando, a movimentação não é grande, as pessoas têm medo. E em geral, o movimento de casas novas é naturalmente menor porque você ainda não conseguiu fidelizar o cliente”, aponta o empresário. A projeção e planejamento do empresário para 2020 mudaram completamente após a chegada da pandemia no país, mas para ele, “é melhor trabalhar com restrições do que não trabalhar.”

A dupla de empresárias Aline Cunha e Fabiana Lopes também abriu seu próprio negócio durante a pandemia: a clínica de estética Humanize, que foi inaugurada em maio de 2020, no Setor Tradicional de Planaltina (DF), perto do Hospital Regional da cidade. A ideia surgiu logo após Aline sair de seu antigo emprego e também teve seus empecilhos: “Passamos muito tempo fazendo pesquisa de mercado e analisando dados da pandemia para saber o momento certo de inaugurar a clínica”, disseram.

Tem que ter coragem e disposição

Segundo o economista César Bergo, é fundamental saber com clareza os objetivos e ambições. “Para isso, é necessário criar um planejamento cuidadoso antes de atender o primeiro cliente e fazer cálculos de ponto de equilíbrio, para evitar problemas de fluxo de caixa.” Para fazer um negócio crescer e se manter ativo, mesmo em tempos de crise, César aconselha que os empreendedores monitorem constantemente seus progressos, analisem a concorrência e se adaptem às mudanças do mercado.

Antônio Carvalho, dono do Restaurante Sagrado Mar, acredita que as médias empresas recebem menos atenção que micro e grande empresas. Antônio esperou por anos, mas só conseguiu receber crédito do governo em julho deste ano e afirmou: “As grandes empresas conseguem crédito porque são influentes, as pequenas conseguem através das políticas públicas e as médias empresas são esquecidas”. Para ele, a agilidade para a concessão de crédito é essencial para diminuir as consequências econômicas deixadas pela pandemia. César Bergo, presidente do Corecon-DF comentou o assunto: “Foi constatado que é mais fácil captar recursos para um projeto que ainda irá se iniciar do que para aquele que está passando por dificuldades há meses. Por isso é necessário que o empreendedor elabore um plano de contingenciamento de risco, com uma previsão de fluxo de caixa para o pior cenário possível.”

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Jael da Silva, presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares do DF (Sindhobar-DF) já realizou diversas denúncias sobre a dificuldade de obtenção de crédito por pequenas empresas, mas não teve sucesso. “Já tentei também diversas interferências com presidente de bancos, superintendentes e convênios, mas no fim, não sai o financiamento”, completou. De acordo com o presidente do Corecon-DF, César Bergo, as maiores dificuldades para conseguir crédito hoje em dia estão relacionadas à precariedade de informações cadastrais e contábeis, mas principalmente à problemas financeiros: “Na maioria das vezes, os bancos exigem que os empreendedores invistam uma parte significativa do capital próprio (geralmente 50%), só que muitos empreendedores não possuem esse recurso, e isso os distancia.”

Saiba Mais

  • Seguindo diretrizes de desenvolvimento, a Secretaria de Empreendedorismo do Distrito Federal (SEMP-DF), foi criada pelo decreto nº 40.767, de 13 de maio de 2020, com o intuito de fomentar o empreendedorismo nos setores de indústria, comércio e serviço, estruturar políticas de incentivo, estimular a cultura empreendedora, praticar o desenvolvimento sustentável, entre outros motivos.
  • A SEMP-DF trabalha para fomentar o empreendedorismo local com ações e programas de incentivo e capacitação, mas declarou que não trabalha com o acesso ao crédito, e portanto, não possui mapeamento sobre isso.
  • A reportagem questionou a SEMP-DF sobre os impactos dos empreendedores na economia local, mas a pasta também não possui os dados.






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