Ao som de Carinhoso e da Internacional, o corpo do arquiteto Oscar Niemeyer foi enterrado diante de mais de 400 pessoas, contrariando a decisão da família de fazer uma cerimônia fechada. Além de parentes e amigos, admiradores anônimos e curiosos acompanharam o sepultamento, no Cemitério São João Batista, em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro.
A música de Pixinguinha foi tocada pela Banda de Ipanema, da qual Niemeyer era patrono, e o hino dos comunistas, cantado por velhos companheiros de militância do arquiteto. Niemeyer morreu na noite de quarta-feira, aos 104 anos.
O enterro aconteceu depois de quase nove horas de velório, no Palácio da Cidade, sede oficial da prefeitura do Rio. O palácio foi aberto ao público entre 8h30 e 16h. Antes da saída do caixão, às 17h15, cerca de 150 pessoas assistiram a um culto ecumênico. A viúva, Vera Lúcia, ficou ainda mais emocionada quando, de mãos dadas, o público cantou a música Suíte do Pescador, de Dorival Caymmi, puxada pelo pastor luterano Mozart Noronha.
Entre as muitas coroas de flores que homenagearam Niemeyer, militante comunista desde a juventude, destacavam-se as enviadas pelos irmãos Fidel e Raul Castro. O ex-presidente cubano lembrou o “incondicional amigo de Cuba Oscar Niemeyer” e assinou: “Comandante em chefe Fidel Castro Ruiz”.
Viúva do líder comunista Luiz Carlos Prestes, Maria Prestes levou uma bandeira com a foice e o martelo. “Ele se preocupava com o bem-estar do povo brasileiro. Era um grande amigo da nossa família”, disse. Na entrada do palácio, uma enorme bandeira do PCdoB foi aberta por filiados ao partido.
A genialidade do arquiteto foi destacada pelos colegas. “Já tem alguém que pode redesenhar a Via Láctea”, brincou o ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do Paraná Jaime Lerner. O engenheiro Giorgio Veneziani, de 86 anos, falou da convivência entre os dois. “Quando eu estudava na Itália, Niemeyer já era uma referência. Tivemos outros pontos de convergência, como o socialismo”, disse o engenheiro, responsável pelo revestimento de mármore dos palácios de Brasília projetados pelo amigo. O poeta Ferreira Gullar lembrou a amizade de 50 anos. “É uma dor irreparável”, lamentou.
Netos querem criar um museu
Netos e bisnetos de Niemeyer querem restaurar a Casa das Canoas, construída há 60 anos por ele para ser a residência da família. Tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o imóvel foi fechado porque precisa de obras de infraestrutura. A intenção é transformá-lo numa espécie de museu, com exposição multimídia, segundo Carlos Ricardo Niemeyer, diretor da Fundação Niemeyer, que detém direitos sobre as obras do arquiteto.
Carlos Ricardo informou que a diretoria da fundação ainda vai se reunir para fazer o inventário dos projetos em andamento, definir como viabilizar a reforma da Casa das Canoas e debater como se dará a proteção das obras concluídas e dos projetos que ainda não saíram do papel.