Francisco Dutra
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O Distrito Federal cresce com passos incoerentes. Por um lado, as regiões administrativas trabalham em busca da modernização e da geração de renda. O brasiliense é batalhador. Por outro, a falta de planejamento e a bagunça urbana continuam a assombrar a população. O caos urbano nasce da ganância do mercado imobiliário, acobertada pela ausência de fiscalização e políticas públicas do governo. Com as devidas proporções, Águas Claras é um exemplo claro deste drama.
As desventuras do DF e de Águas Claras são bastante parecidas. Fundada em 1960, Brasília seria o alicerce para uma nova capital do Brasil planejada, dos pilotis até os cobogós do Plano Piloto. Bem distante das ruas entrelaçadas da antiga sede nacional no Rio de Janeiro (RJ). O planejamento era para 500 mil habitantes. Mas no dia a dia as cidades erguidas e aprimoradas pelos candangos superaram o patamar de 3 milhões de pessoas, nas atuais 31 regiões administrativas.
De tão belo e ousado, dos pontos de vista arquitetônico e urbanístico, Brasília foi tombada como Patrimônio Cultural da Humanidade, pela Organização das Nações Unidas (Unesco). Por isso, novos bairros foram criados. E junto com eles novas necessidades da população. Em 1992, Águas Claras foi criada como bairro de Taguatinga. Em 2003, conquistou o status de região administrativa. Nas promessas do governo e do mercado, seria uma vizinhança moderna, com grandes prédios e comodidade para a população.
E o perfil populacional da região realmente fica acima da curva. Segundo a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (PDAD) de 2016, produzida pela Companhia de Planejamento do DF (Codeplan), a Águas Claras vertical conta com 97.915 habitantes. Enquanto, Arniqueiras e Areal , também inseridas na grande Águas Claras têm juntas, aproximadamente, 51 mil pessoas. A renda domiciliar da vizinhança verticalizada está na casa dos R$ 11 mil mensais. Grande parte da população tem acesso a carro, internet e educação de nível Superior.
Mas o bairro dos sonhos sofre. E muito com problemas de falta de planejamento urbano. O local não tem escola pública e nem um centro de saúde público. O posto de saúde improvisado está fechado por falta de equipamentos. Assim, a reclamação é muito grande. e deixa todos preocupados com o adensamento populacional cada vez maior.
“Sim, a gente tem uma preocupação muito grande com o adensamento. Pequenas áreas com muitos apartamentos, com muitos moradores que demandam muitas questões referentes a trânsito e a mobilidade. Isso realmente nos preocupa”, explica o presidente da Associação de Moradores e Amigos de Águas Claras (Amaac), Roman Cuattrin.
“Temos mais de 25 lotes à educação e 7 destinados à saúde”, aponta Cuattrin. E apesar dos pedidos dos moradores, o governo não faz movimentos para a construção dos equipamentos públicos”, aponta o líder comunitário.
De acordo com o presidente da Amaac, para negar a escola e o centro de saúde, o governo diz que a cidade não precisa dos equipamentos pelo elevado padrão de vida dos moradores e a região seria contemplada pelas unidades em Arniqueiras e no Areal. Para Cuattrin, a resposta do governo é evasiva e tenta transformar a realidade em benefício do próprio governo.
“Essa resposta não convence. O próprio GDF nas pesquisas da Codeplan (Companhia de Planejamento do DF) chegou à conclusão de que 4 mil pessoas de Águas Claras vertical estudam em escola pública. Se a gente levar em consideração que metade delas estuda na UnB (Universidade de Brasília), que é pública, ainda sim sobram 2 mil crianças, adolescentes são obrigadas a se deslocar de Águas Claras vertical para poder utilizar o Ensino Médio e Fundamental. Ou seja, demanda existe”, comenta.
Sendo que cerca de 65% dos seus habitantes ainda utilizam o carro para ir ao trabalho e apenas 87,67% (Dados Águas Claras Vertical – PDAD) dos seus moradores trabalham em outras regiões administrativas, é inevitável o grande deslocamento de veículos durante todo o dia.
Para moradores, chegou ao limite
A sensação dos moradores é de que, embora o comércio da cidade esteja bem atendido para suas necessidades do dia a dia, a qualidade de vida na cidade poderia ser bem melhor caso os governantes estivessem mais atentos às necessidades e solicitações da vizinhança. Segundo líderes comunitários uma mensagem é clara: a região está no limite.
“O projeto do governo de fazer a Interbairros e adensar ainda mais Águas Claras nos preocupa e muito. Da forma que foi discutida nos gabinetes pode trazer o adensamento populacional com criação das quadras 400, aqui em Água Claras”, revela o presidente da Associação dos Moradores de Águas Claras Vertical (Asmav), José Júlio de Oliveira.
“A cidade está no limite. Antes nós tínhamos um prognóstico de 100 mil habitantes. Só a parte vertical já passou disso hoje”, comenta José Júlio de Oliveiro. Na leitura do líder comunitário, a pressão pelo crescimento desordenado escurece ainda mais o horizonte da cidade.
Neste sentido, os pedestres também são massacrados pela falta de calçadas na região, reclamação constante de moradores em geral e também das mães que sofrem para caminhar com os carrinhos de seus bebês. De fato caminhar pela cidade é um desafio perigoso também para idosos. As calçadas não tem regularidade e muitos trechos são interrompidos pelas ruas, sem faixas de pedestres nas proximidades.