Natal não é só dia de ficar com a família, também é tempo de solidariedade e de estar com aqueles que não têm com quem compartilhar esta data. É nisso que acreditam as centenas de voluntários que abrem mão do conforto dos seus lares para levar um pouco de amor ao próximo. Cada um ajuda como pode. Roupas, alimentos, brinquedos, ou simplesmente companhia. Para esses anjos sem asas, a solidariedade exige, antes de mais nada, desapego de interesses próprios.
Foi durante o almoço de Natal do ano passado que a família Bernardino teve a ideia de usar a carreta vermelha do tio Roberto para distribuir presentes para as crianças. “Na ceia do dia 24, me vesti de Papai Noel e presenteei os sobrinhos. No dia seguinte, durante um almoço em família, propus me vestir novamente de bom velhinho para distribuirmos o resto dos presentes pela cidade. Todo mundo adorou a sugestão. Os familiares que couberam foram comigo no caminhão e os outros nos seguiram em carreata pelo Eixo Monumental. As crianças ficavam encantadas, apontavam e corriam na nossa direção”, lembra ele, que é motorista e tem 51 anos.
Mas um episódio, em especial, marcou esse Papai Noel. “Uma menina veio até mim. Eu agachei, ela sentou no meu colo, me abraçou e fez seu pedido de Natal. Até aí, tudo normal. Assim que se afastou, porém, a mãe veio até mim com lágrimas nos olhos e disse que queria me contar um segredo. Ela falou que levou a menina a todos os shoppings da cidade, mas ela morria de medo do Papai Noel, chorava e não ia com nenhum. Fiquei tocado com a simpatia daquela criança comigo”, lembra, emocionado.
Desde então, a ação solidária com a carreta vermelha virou tradição na família. Os Bernardino criaram até um grupo no Whatsapp para combinar as próximas atividades. “São cerca de 15 pessoas envolvidas na organização, entre irmãos e sobrinhos. Nosso ponto de partida é o Vicente Pires. Este ano vamos distribuir roupas, alimentos e brinquedos para as famílias que vivem em uma área descampada atrás do Pistão Sul, em Taguatinga. É sempre gratificante ver a alegria das pessoas ao nos receber”, comenta a irmã de Roberto, Arianne Bernardino, bancária, de 41 anos.
Esquecimento
Já Dora Esteves, aposentada, de 71 anos, lembra-se daqueles que muitas vezes dedicam a vida aos outros criando filhos, netos e, mesmo assim, acabam sozinhos no Natal: os idosos. “O foco do Natal são as crianças. O Papai Noel, os presentes. Todo tipo de solidariedade é válida, mas me preocupo com os idosos, que vivem em asilos”, destaca.
A ação solidária de Dora não consiste em doar roupas ou alimentos. “Vou a um asilo na Asa Sul, que visito mensalmente, e levo um presente para cada morador, além da minha presença”, brinca.
Felicidade do próximo é a recompensa
Desde 1981, a aposentada Dora Esteves segue a tradição de visitar o asilo no dia de hoje, logo após o almoço. “Converso com meus colegas, contamos histórias e damos risadas. Muitas vezes, as pessoas só precisam de alguém que as escute e se importe com elas”, completa.
Dora viveu momentos emocionantes ao longo dos últimos anos. “Uma vez uma das monitoras me contou que fazia três anos que um idoso não passava o Natal com a família. Os filhos moravam fora e ele era deixado de lado”, lembra.
No dia da visita da aposentada, no entanto, tudo foi diferente. “Ele me confidenciou que sentia falta de celebrar o Natal com os entes queridos e disse que naquele ano estava sendo bem mais divertido. Foi nesse momento que me dei conta do apreço que ele tinha por mim. Pude perceber que me considerava um membro de sua família e estava feliz com a minha presença. É essa alegria, esse afago que o trabalho voluntário proporciona aos dois lados, que dinheiro nenhum no mundo paga”, completa.
Caridade não combina com vaidade
O engenheiro Manoel Alves (nome fictício), de 48 anos, não quer mostrar o rosto. Ele acredita que a pessoa verdadeiramente solidária não se identifica e também não deve fazer questão de mostrar aos outros o quão generosa é. “Vejo pessoas postando fotos no Facebook, contando orgulhosas o que fizeram. Ser solidário não é motivo para vergonha, mas também não deve ser motivo para vaidade, sabe?”, argumenta.
A ação praticada por ele também é um tanto curiosa. “Deixo envelopes com dinheiro próximos a mendigos enquanto eles dormem ou entrego diretamente a famílias carentes na manhã do dia 24. As pessoas ficam muito gratas e querem saber quem sou eu, mas digo que isso não importa e sigo meu caminho”, relata.
Manoel faz isso há dez anos e explica o motivo de doar dinheiro e não donativos. “Com o dinheiro, as pessoas fazem o que querem. Só elas sabem suas reais necessidades”.
Ouvir o próximo
O psicopedagogo Gilson Aguiar, de 54 anos, leva ajuda e conforto por meio das palavras. Voluntário do Centro de Valorização da Vida (CVV), ele abriu mão da companhia dos familiares para trabalhar no plantão de Natal, das 23h de ontem às 7h de hoje.
“O colega que estaria neste plantão precisou viajar e me pediu para substituí-lo. Para mim, foi uma alegria poder estar justamente nesta data ouvindo as pessoas que necessitam. Faço isso por amor ao próximo”, declara o voluntário.
Corrente do bem chega a todos
De acordo com Gilson Aguiar, no início houve um pouco de resistência por parte de sua família. “Mas hoje eles entendem que é um prazer para mim ajudar. Para não perder a ceia, ou eu como mais cedo, ou eles guardam um pratinho para mim”.
Quem pensa que generosidade tem a ver com idade está enganado. Jovens do grupo Engenhoca da Felicidade também prepararam ações sociais especialmente para o Natal. Apesar da pouca idade, eles já conhecem o poder transformador da solidariedade.
“Estamos distribuindo 150 presentes a crianças de zero a 13 anos que vivem na Estrutural. Recentemente, pedimos que elas escrevessem cartinhas com seus pedidos ao Papai Noel e agora vamos fazer as entregas”, diz estudante Vitória Lopes, 17, fundadora do projeto.
Sentimento de empatia é motivador
Mas o que nos leva a ser solidários? De acordo com especialistas, é o sentimento de empatia. Colocamos-nos no lugar do outro e somos levados a pensar que também gostaríamos de ser socorridos se estivéssemos na situação dele. Além disso, ações solidárias fazem com que nos sintamos úteis, amados e integrados a determinada comunidade.
Segundo o psiquiatra Ernane Pinheiro, no Natal a solidariedade é especialmente aflorada porque ficamos mais ternos ao fazer um balanço do que já passou e do que ainda está por vir. “Isso desperta um sentimento de gratidão nas pessoas, que as leva a exercitar a doação material e a partilha”, comenta.
Para o especialista, questões mal resolvidas no decorrer do ano e que geram sofrimento nas pessoas tendem a ser resolvidas ou, pelo menos, amenizadas quando somos caridosos.
No livro O segredo do sucesso: a Lei da Atração colocada em prática, o autor William Walker assegura que é o desejo que incita cada feito humano. “Um homem é amável porque isso o satisfaz. Outro é cruel pelo mesmo motivo”, destaca.
Saiba mais
Para solicitar ajuda ou obter informações sobre voluntariado no CVV, basta ligar para o 141. O serviço funciona todos os dias da semana, 24h.
O Centro realiza dois Processos Seletivos para Voluntariado (PSVs) durante o ano, um em março e outro em outubro. Para se tornar membro, basta cadastrar seus dados pessoais por telefone ou pelo site www.cvv.org.br que no período dos PSVs a equipe da instituição entrará em contato.
Serviço
Engenhoca da felicidade
Quem quiser informações ou fazer doações para o projeto pode entrar em contato com a Vitória pelo telefone (61) 3556-4756 ou acessar a página do movimento no Facebook (https://www.facebook.com/
engenhocadafelicidade).