A estudante Leísia Melo e seu marido André Alves foram os primeiros moradores desabrigados do Varjão a receber do Governo do Distrito Federal (GDF) uma casa em Samambaia. Ela é uma das 15 pessoas que aceitaram a transferência para a cidade. Por volta do meio dia de ontem, more about Leísia e a família chegaram com seus pertences a sua nova casa, ainda em fase final de construção. A estudante se mostrou empolgada com a primeira residência própria.”É pequena, mas é ótima. Bem melhor que o barraco de madeira”, disse ela sobre a construção de cerca de 17 m2.
O casal foi recebido por funcionários da Secretaria de Desenvolvimento Social e Transferência de Renda (Sedest), assinou os papeis e recebeu o documento de posse do terreno. Leísia morava há 16 anos no Varjão e há seis no barraco que foi interditado após as fortes chuvas de três semanas atrás. Ela diz que o local para onde foram levados é longe, mas que não pensa em sair dali. “No barraco não tinha documento”, explica. Nem a lama que cerca a construção a desanimou. “Daqui ninguém me tira”, completou.
Também no local, funcionários do Centro de Referência da Assistência Social de Samambaia (CRAS) estavam fazendo a triagem e registro dos novos moradores. A Secretaria de Educação também prometeu encaminhar as crianças para escolas próximas antes do início das aulas. Ao longo das próximas semanas serão construídas mais casas no bairro, totalizando as 64 habitações revistas pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (Codhab).
Apesar da satisfação, a distância do antigo bairro ainda preocupa Leísia, que estuda à noite no colégio Cecap, no Lago Norte, e faz estágio na sede da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), no final da Asa Norte. “Tenho medo de voltar tarde da noite”, diz ela. A nova casa ainda não tem luz nem água, que serão implantadas nos próximos dias. Por isso, a Sedest garantiu almoço e jantar para os desabrigados que se mudaram ontem.
Temporal
Apesar de apenas 11 construções estarem prontas, durante a tarde outras 14 famílias ainda chegaram ao bairro para receber suas moradias. Elas são parte das 26 famílias que tiveram seus barracos derrubados pela chuva ou foram removidas pelo governo de áreas de risco na invasão na Quadra 5 do Varjão. No primeiro dia do ano, o temporal que atingiu o local derrubou uma árvore em cima de três barracos e deixou vários outros em situação precária, levando risco de vida às pessoas que ali residiam.
Todos foram instalados em dois abrigos provisórios: a Escola Classe do Varjão e a Creche Rafael Gregório. Mas em razão do início do ano letivo, a escola precisa ser desocupada até sexta-feira. Por isso, a Codhab vai terminar mais seis construções até o final da semana. Onze famílias ainda residem nos abrigos, e aquelas que não aceitarem a oferta do GDF até o dia 23,terão que deixar o local apenas com um auxílio moradia de R$ 300 da Sedest.
Mesmo assim, muitos dos desabrigados ainda se recusam a receber a casa em Samambaia. Na Escola Classe do Varjão, as opiniões se dividiam. Funcionário de uma casa de eventos no Lago Norte, Auri Rodrigues e sua família decidiram se mudar.”Achei legal a casa. É melhor do que o que eu tinha aqui, um barraco velho”, diz Auri, que pretende manter seu emprego no Lago Norte por algum tempo.
Já Bárbara Fabrícia nasceu no Varjão e não quer se mudar para longe da família e do emprego de manicure. “Tem gente do Maranhão que ganhou lote aqui, e eu que nasci no Varjão não posso ficar”, reclama a manicure. Segundo Bárbara, o local em Samambaia não vale tanto quanto um lote no Varjão. “Nem se eu quisesse vender não ia ganhar dinheiro. Lá não vale nada”, diz.
Além de argumentar que a casa que iria receber não tem vaso sanitário, pia, porta ou janela, Bárbara também acha Samambaia violenta e não acredita na promessa de emprego que o governo fez. “Disseram que tem vaga na Sadia, mas eu não acredito”, disse ela.
A doméstica Raquel de Souza se mudou ontem com os três filhos para a nova área, mas disse que vai manter seu emprego no Lago Norte. Raquel, que morava no Varjão há 23 anos, não tem marido e diz que não sabe como vai trabalhar tão longe dos filhos, mas preferiu se deslocar mais de 40 km todo dia a confiar na proposta do GDF de emprego na fábrica da Sadia, a poucos metros de sua nova residência.
O corregedor-geral do Distrito Federal, Roberto Giffoni, diz que o governo não tem outro plano para lidar com as famílias que se recusarem a aceitar a oferta do governo até sexta-feira. “É um trabalho de convencimento. Eles têm que compreender que não vamos deixar que fiquem em área de risco e que não podemos dar um lote para eles no Lago Norte”, explica Giffoni. Queremos dar aos desabrigados a melhor oportunidade dentro das possibilidades do GDF”, completa.
Giffoni disse ainda que o governo não leva em conta a questão da especulação imobiliária. “A gente nem pensa nisso. Queremos dar assistência social e dignidade para as famílias pobres”, diz. Segundo ele, outras pessoas que residem em áreas irregulares do bairro também vão ganhar casas em Samambaia nos próximos meses.