O dia amanheceu tranquilo, help ontem, dosage na Capela Nossa Senhora de Fátima, mais conhecida como a Igrejinha da 308 Sul. Isso porque o incêndio que destruiu mais de 100 azulejos produzidos pelo artista Athos Bulcão, na parede de trás do monumento – numa área de cerca de seis metros quadrados –, não modificou a rotina da capela, mesmo que tenha deixado os frequentadores bastante tristes.
As missas foram celebradas durante todo o dia de ontem, nos horários de costume. Ainda hoje, no entanto, o secretário de Cultura do Distrito Federal, Silvestre Gorgulho, promete se reunir com representantes da Fundação Athos Bulcão com o objetivo de providenciar o mais rápido possível, os reparos da parede da igreja e até antecipar a reforma que estava prevista para
começar na próxima segunda-feira, dia 19.
A Fundação Athos Bulcão deve mandar produzir os azulejos no Rio de Janeiro. Mas a entrega pode demorar até 40 dias. A 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul) trabalha com duas hipóteses para o crime. Na primeira, os moradores de rua do local acusam uma fiel de ter acendido uma vela atrás da igreja, fato que teria causado o incêndio. A versão de alguns moradores da quadra, porém, dá conta de que os próprios moradores de rua teriam dado início ao incêndio, aproximadamente às 20h30 da última
sexta-feira.
A reportagem do Jornal de Brasília esteve ontem na 1ª DP. As investigações, segundo a polícia, devem se intensificar a partir de hoje. Até o momento ninguém foi preso e o laudo pericial deve sair em, no máximo, 30 dias. No último sábado, enquanto fazia a perícia no local, a Polícia encontrou um pequeno casebre utilizado anteriormente como caixa de energia, ou algo do tipo, próximo à Igrejinha. O local, porém, foi transformado em depósito. “Provavelmente pertence aos moradores de rua que circulam na área. Encontramos um facão e vestígios de crack”, contou o delegado de plantão Welington Pereira.
Problema social
O secretário Silvestre Gorgulho tomou conhecimento do incêndio logo ao chegar a cidade, de viagem, e prometeu tomar providências. “Acionarei o departamento de Patrimônio, da Secretaria de Cultura, para fazer um levantamento da situação no
local”, destacou.
O presidente do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Alfredo Gastal, também sentiu bastante o atentado contra a Igrejinha, ocorrido na última sexta-feira. “Acho que o problema aconteceu em decorrência de uma situação social muito séria que tem início na Região do Entorno e desemboca aqui em Brasília. Gente que não tem oportunidade na vida e acaba caindo no mundo das drogas”, acredita.
A reforma da Igrejinha, conforme Gastal, tem o objetivo de transformá-la em algo mais próximo possível de como ela era,
na época em que foi inaugurada. “O painel do artista Alfredo Volpi, por exemplo, foi picotado há alguns anos. Mas, infelizmente, ele não tem restauração. Por isso será colocado um outro, de um artista de Brasília, seguidor da linha do próprio Volpi”, informou Alfredo Gastal.
Fiéis e curiosos lamentam
A missa das 11h de ontem, na Igrejinha, estava cheia como de costume. Porém, moradores das quadras vizinhas à capela, além de muitos curiosos, estiveram no local para ver de perto o estrago causado pelo incêndio. O frade da ordem dos Capuchinhos, Firmo Antão de Sousa, sentiu o fato e disse que o local é o berço da congregação no Centro-Oeste. “É uma pena
presenciar uma situação dessas. A falta de segurança no local contribuiu muito para isso. Esta não é a primeira vez que se praticam atos de vandalismo contra a Igrejinha”, disse.
Agora, o religioso espera que os azulejos sejam repostos de maneira bem rápida e que o problema da insegurança seja solucionado. Os frequentadores pensam da mesma forma. O administrador de empresas Daniel Moreira, 28 anos, vai à Igrejinha todos os domingos, na companhia da família. “É triste perceber a falta de cuidados que as pessoas têm com os monumentos da cidade”, destacou.
Já a dona de casa Ângela Vieira, 39, disse que enquanto o governo não der um destino certo para os moradores de rua,
a tranquilidade do local estará comprometida. “Aqui eles bebem, usam drogas e acabam fazendo besteiras, como colocar
fogo em um dos principais cartões-postais da cidade”, falou.
Tombada pelo Patrimônio Histórico da Humanidade, a Igrejinha é, desde a fundação da capital, um dos pontos turísticos mais visitados. O monumento criado por Oscar Niemeyer teria sido construído em função do cumprimento de uma promessa feita pela então primeira-dama do País, Sarah Kubitschek, devido à frágil saúde de sua filha, Márcia Kubitschek.
Além de Oscar Niemeyer e Athos Bulcão, a Igrejinha teve o seu projeto paisagístico produzido por Burle Marx. Na época em que foi inaugurada pelo presidente JK, a Igrejinha recebeu do governo dePortugal uma imagem original de Nossa Senhora de Fátima, que ornamenta o altar até hoje.