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Brasília

Da banca para a mesa: as histórias de quem vive das feiras no DF

Cerca de 30 mil trabalhadores vivem a rotina das feiras brasilienses

Isabele Mendes

24/08/2026 18h51

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Quando boa parte da cidade ainda dorme, o dia de Jadson Carvalho, 34 anos, já começou. Feirante de frutas, às 4h, ele deixa o Gama e segue para a Ceasa, no SIA, onde compra frutas por um preço mais acessível para depois revendê-las. A jornada, repetida diariamente, garante o sustento dos dois filhos, da própria casa e também ajuda a mãe. É assim, colocando alimento na mesa de outras famílias, que ele consegue colocar comida na sua.

Neste 25 de agosto, Dia do Feirante, a história de Jadson se mistura à de milhares de trabalhadores que fazem das feiras um ponto de encontro, comércio e sobrevivência no Distrito Federal. Segundo o presidente do Sindicato dos Feirantes do DF (SindiFeira-DF), Valdenir Machado, são aproximadamente 30 mil feirantes na capital e cerca de 75 mil pessoas beneficiadas pela atividade.

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Para Jadson, porém, ser feirante começou muito antes da primeira venda feita sozinho. A mãe trabalhava em feira e ele cresceu entre mercadorias, clientes e bancas. Quando ela se aposentou, o filho permaneceu. Hoje, calcula que já sejam cerca de 15 anos trabalhando diretamente no ramo. “A feira me ensinou tudo. Desde quando eu nasci, na real. Minha mãe era feirante, ela parou, se aposentou e eu fiquei. É como se eu tivesse herdado dela essa tradição familiar”, conta.

Na profissão ainda há um adversário impossível de negociar: o tempo. Frutas que não encontram comprador têm prazo curto para virar prejuízo. “É muito triste porque a fruta perde. É muito perecível. Se não vender, a gente vai perder”, resume.

Ainda assim, ele não se imagina longe dali. Pai solo de dois filhos, Jadson diz que a feira não se resume ao dinheiro que leva para casa. Entre uma venda e outra, conhece pessoas, escuta desabafos e acompanha histórias de clientes que voltam à banca. Com outras bancas sob sua responsabilidade, afirma também gerar oportunidades de trabalho. “Eu acho que nasci para isso. Nasci para ser feirante. É a única coisa que fiz na minha vida até hoje. Eu amo ser feirante”, afirma.

Do pai para a filha


A alguns quilômetros dali, outra história ajuda a mostrar como uma profissão atravessa gerações. Na família Teixeira, o aprendizado passa pelas mãos de Evandsrro Cezar Teixeira, 55 anos, e chega à filha Giovanna Aires Teixeira, 22, estudante de Agronomia.

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Evandsrro começou como produtor rural e feirante em 2018, embora já trabalhasse havia anos com agricultura. Até acertar o sistema de hidroponia, conta que acumulou erros, testes e aprendizados. A produção cresceu como um projeto familiar: as filhas participaram do plantio, da colheita e da higienização dos produtos, além da administração e das vendas. O que ele não esperava era que uma delas escolhesse transformar aquela vivência em futuro profissional.

Giovanna praticamente cresceu no campo. Antes dos tomates, o pai já trabalhava com sementes de soja, e acompanhá-lo fazia parte da infância. Quando a família passou a vender nas feiras, ela encontrou um lugar de que gostava especialmente: o contato com as pessoas. Aos sábados, depois da colheita, vinha a preparação e a higienização dos tomates. Muitas vezes, a família dormia tarde para acordar por volta das 3h de domingo e seguir para a feira.

A rotina puxada não a afastou. Pelo contrário. Hoje, Giovanna cursa Agronomia e tenta juntar dois tipos de conhecimento dentro da propriedade: aquele que encontra nos livros e o que o pai acumulou trabalhando. “Ele traz a experiência prática que construiu no dia a dia e na realidade do campo, enquanto eu trago o conhecimento teórico”, explica. Para ela, há aprendizados do pai que nenhuma sala de aula conseguiria substituir.

A sucessão também carrega peso. Giovanna viu o pai construir o negócio do zero e sabe que, no futuro, parte dessa responsabilidade pode ficar em suas mãos. A produção depende de fatores que nem sempre a família consegue controlar do clima à economia e exige investimento constante. Por isso, diz sentir orgulho, mas também a responsabilidade de preservar os princípios sobre os quais o pai ergueu a empresa.

Muito antes da banca


Quem passa pela feira e escolhe um tomate ou um pé de alface dificilmente enxerga toda a jornada que antecedeu aquele encontro. Na propriedade da família Teixeira, o expediente costuma começar entre 4h e 5h, mas não tem hora certa para acabar. Em períodos mais intensos, pode avançar até meia-noite, 2h ou 3h da manhã. Há dias em que a família vira a noite preparando e higienizando os produtos.

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Antes da venda, vêm o planejamento da plantação, escolha dos insumos, manejo e uma sucessão de imprevistos. Uma bomba d’água pode queimar; uma produção pode ser perdida; o clima pode não colaborar. Depois de tudo isso, o preço recebido pelo produto ainda pode cair. “Independentemente do preço pelo qual o produto será vendido, a rotina continua sendo a mesma, o esforço continua sendo o mesmo, os custos continuam existindo”, relata Evandsrro.

Neste momento, enquanto aguardam o novo ciclo dos tomates, pai e filha apostam na alface hidropônica. A estratégia ajuda a explicar uma das regras de sobrevivência no campo: não colocar toda a renda em uma única cultura. O tomate demanda investimento maior e tem ciclo mais longo; a alface permite uma rotatividade mais rápida. Se uma produção enfrentar problemas, a outra ajuda a manter o negócio e a renda familiar. “A produção não pode simplesmente parar”, explica o agricultor.

Uma tradição que também precisa mudar


As transformações não acontecem apenas dentro das propriedades. Evandsrro percebe uma mudança também do outro lado da banca. Se antes ir à feira aos domingos para comprar os alimentos da semana era quase um ritual para muitas famílias, hoje ele observa um público mais velho e menor presença dos jovens. Ao mesmo tempo em que redes sociais ajudam a divulgar os produtos e alcançar novos consumidores, a facilidade de comprar sem sair de casa disputa espaço com o costume de caminhar entre bancas, conversar e escolher pessoalmente o que levar.

A consumidora Ilana Silvério Santos, 26, ainda prefere esse contato. Autônoma, ela conta que compra com frequência em feiras e vê na qualidade dos alimentos um dos principais motivos para continuar voltando. “Eu acho que é mais fresquinho. Geralmente, no mercado, você não sabe há quanto tempo está lá”, afirma.

Para o SindiFeira-DF, preservar esse espaço passa também por mudanças estruturais. Valdenir Machado aponta como prioridades a valorização da categoria, a atualização da legislação e a reestruturação e organização das feiras livres e permanentes. Segundo ele, regras atualizadas são importantes para organizar o funcionamento desses espaços e deixar claros os direitos e deveres dos trabalhadores e do poder público.

Mais de um século depois de 25 de agosto de 1914, data associada à regulamentação das feiras livres em São Paulo e que deu origem à homenagem nacional aos feirantes, a essência da profissão ainda resiste no contato direto entre quem vende e quem compra. No Distrito Federal, ela sobrevive nas mãos de quem levanta antes do sol, enfrenta incertezas e aprende a se reinventar para continuar trabalhando.

No caso de Evandsrro, sobreviver também significa preparar quem vem depois. Sem ter tido a oportunidade de cursar uma faculdade, ele se orgulha de ver Giovanna estudar Agronomia e levar conhecimento novo para dentro de uma história construída na prática. Entre o que o pai aprendeu errando e acertando e aquilo que a filha encontra nos livros, uma tradição ganha chance de continuar. “É preciso lutar, seguir firme e, mesmo quando as coisas estiverem difíceis, não desistir”, ensina o produtor.

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