
Devido às condições preocupantes do Hospital Regional de Ceilândia (HRC), o Conselho Regional de Medicina (CRM) pede a interdição da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal e do pronto-socorro do local. Em 12 dias, morreram seis bebês na unidade. Em duas mortes, houve a confirmação de que o motivo foi a bactéria Serratia. Dois óbitos estão sob investigação e a causa de outros dois não têm relação com o micro-organismo, que compromete as plaquetas.
Mesmo após a recomendação do CRM, a Secretaria de Saúde decidiu manter-se firme e insiste que a UTI neonatal não será fechada. A pasta afirma que estão sendo tomadas todas as medidas possíveis para evitar que a bactéria se espalhe. Ontem, foram realocados dez pediatras da rede pública para o HRC.
O conselho afirma que desde março vem alertando a secretaria sobre as deficiências no hospital. Em nota, a entidade informa que o serviço está sendo prejudicado pelo número reduzido de profissionais. “O deficit de médicos foi denunciado pelo próprio corpo clínico do setor e constatado pelo departamento de fiscalização deste conselho. O relatório da vistoria foi encaminhado também ao diretor do hospital e ao secretário de Saúde. O documento relatou uma sobrecarga desumana de trabalho por parte dos neonatologistas do HRC, o que compromete a qualidade do atendimento”, alertou.
O secretário de Saúde, Rafael Barbosa, declara que caso surja a necessidade de interdição, a providência será tomada. “Nós estamos à disposição do CRM para fazer visita na unidade, em todo o hospital. Eu te diria que não tem nenhum risco de aquela unidade ser fechada pelo CRM, porque se houvesse necessidade, a própria secretaria já tinha feito isso”, garantiu, em entrevista à TV Globo.
Em nota, a pasta afirmou que “todos os procedimentos estão sendo adotados no sentido de apurar a origem da infecção. E se o hospital for fechado, a maior prejudicada será a sociedade”.
Encaminhamento
O procedimento adotado essa semana, de fazer apenas os partos considerados de emergência e encaminhar bebês prematuros para outras unidades, está mantido. Segundo a secretaria, não há gestantes à espera de leitos, mas ainda está valendo a recomendação de que as mães devem procurar outros hospitais para realizar partos.
Ala Vermelha Fechada
Foi interditada na manhã de ontem a Ala Vermelha do pronto-socorro do HRC. O motivo da medida foi uma desinfecção, mas a secretaria garante que não há relação com o surto da bactéria Serratia. O local recebe pacientes adultos que chegam ao hospital em estado grave. Os ocupantes dessa parte da unidade foram transferidos para a Ala Amarela, para casos de gravidade intermediária, mas com os mesmos equipamentos do setor interditado.
Além da alocação de dez médicos no HRC, a pasta também anunciou que as contratações emergenciais de neonatologistas estão sendo providenciadas.
A situação preocupa pacientes e acompanhantes. A empregada doméstica Maria das Graças foi ao HRC para levar a cunhada, tia de um bebê que está internado na UTI. Ela conta que o clima é de apreensão. “Eles ficaram bastante inseguros, mas quem não ficaria diante de uma situação dessas?”, diz.
Higiene deixa a desejar
A própria Secretaria de Saúde afirma que o surto da bactéria Serratia pode ter sido causado pela falta de higienização. Para resolver o problema, foram revistas todas as rotinas na UTI neonatal, e assim evitar mais casos de infecção pelo micro-organismo. No entanto, a reportagem do Jornal de Brasília flagrou médicos e enfermeiros do HRC transitando pela unidade com roupas utilizadas nos centros cirúrgicos e nas unidades de tratamento intensivo. Uma funcionária que usava luvas foi vista atendendo o celular. Na porta do hospital, havia uma lixeira destampada com gases e luvas usadas.
Situação do HRT
A UTI neonatal do Hospital Regional de Ceilândia recebe, atualmente, sete bebês.
Entre eles, dois estão isolados, infectados com a bactéria Serratia, quatro estão sem sintomas de infecção e um está com meningite e corre risco de ser afetado pelo micro-organismo.
A unidade não receberá mais pacientes, para evitar contaminação, mesmo que ainda existam vagas disponíveis.