Raphaella Sconetto
raphaella.sconetto@grupojbr.com
Existem tartarugas em Brasília, sim. E elas estão convivendo com lixo espalhado pelos córregos e água suja com forte odor. Tudo isso em riachos bem próximos à área urbana. Outro fator complicador é a crise hídrica que assola a capital, elemento fundamental para estes animais aquáticos. Para conscientizar a população sobre a causa, o estudante de engenharia florestal Estephânio Shairon de Souza monitora grupos de tartarugas em cinco regiões do DF.
O projeto Tartaruga do Cerrado surgiu em 2014, a partir do desejo de um grupo de ambientalistas de cuidar do Cerrado. “A gente não conseguia tomar de conta de tudo. É tanto animal que precisa, mas resolvemos pegar as tartarugas como um segmento”, explica. Aliás, Estephânio sabe da importância deste animal como foco do projeto. “Até hoje tem gente que estranha. Perguntam se existe tartaruga no DF, e associam logo às marinhas. A gente faz essa educação ambiental para mostrar que há tartaruga no Cerrado, de água doce”.
Os sete voluntários escolheram atuar na parte sul do Lago Paranoá, onde há grande quantidade de córregos. O projeto já mapeou 68 tartarugas em cinco córregos: Guará, Vicente Pires, Riacho Fundo, Açudinho e Gama.
O trabalho de Estephânio consiste em monitorar e mapear os bichos. “A gente faz medição de casco – altura e largura -, o sexo do animal, se é adulto ou filhote. Não fazemos a chipagem, porque é um custo alto e não temos esse recurso”, explica. Além disso, o grupo promove mutirões de limpeza em locais mais críticos.

Por meio de projeto, Estephânio monitora grupos de tartarugas em cinco regiões do DF./Foto: João Stangherlin
Doenças
Ao longo de três anos com o Tartaruga do Cerrado, o estudante se esbarrou com alguns problemas. “Animais migraram pela mudança do habitat, de três a cinco quilômetros. A qualidade da água, em alguns pontos, sofreu eutrofização (acúmulo de matéria orgânica), aí fica com coloração diferente. Há um animal com verrugas e doença de pele. A matéria orgânica vem do lixo, do esgoto jogado nos córregos”, explica.
“Com a questão da crise hídrica, com menos água nos leitos dos riachos, tem uma concentração ainda maior da matéria orgânica e menos alimento para as tartarugas. Algumas pessoas as capturam para tê-las de animal de estimação. Tiram da natureza, levam para casa e lá eles morrem”, alerta.
O estudante critica a atitude da população e do governo. “Esses animais são resistentes, se adaptam ao ambiente. Mas até quando? Eles indicam para a gente que há um problema e está na água. Eles não têm voz, então vão sofrer até morrerem?”, questiona. Estephânio alega que faz alertas aos órgãos responsáveis, mas não recebe respostas concretas.
A situação delicada é confirmada pelo doutor em ecologia e professor do Departamento de Engenharia Florestal da UnB, Reuber Brandão. “As tartarugas são predadores. Alimentam-se de peixes, girinos, e, se há mudança na oferta das presas, esses bichos vão ter perda de qualidade nutricional e adoecer. Eles estão sumindo dos rios poluídos justamente por isso”, aponta.
Brandão enumera fatores que estão afetando o ecossistema das tartarugas: “o lixo e o esgoto não tratado que cai nas águas, desmatamento, secamento de nascentes e a introdução de espécies exóticas, como a tartaruga tigre d’água, que é comercializada e é portadora de bactéria que desenvolve uma síndrome respiratória”.
Questionado se é possível registrar alguma mudança na vida das tartarugas por conta da crise hídrica, o especialista pondera: “Esses bichos têm se deslocado de uma região para outra, desde que permaneçam em um local que tenha água. O fator central é que a tartaruga reflete o descaso da população e dos governantes com a conservação dos rios”.
Para ele, não há uma única solução para os problemas, mas várias. “Acabar com as emissões de esgoto não tratado nos córregos; não desmatar; mudar radicalmente a mentalidade sobre esses animais, porque não pode capturar as tartarugas nativas; e, jogar o lixo corretamente. A responsabilidade da população é até o descarte final, quando chega ao aterro sanitário”, diz.
Versão Oficial
Em nota, o Instituto Brasília Ambiental (Ibram) afirmou que conhece as iniciativas do projeto Tartaruga do Cerrado e as apoia.
Em relação à água do Córrego Riacho Fundo, o Ibram apontou que realiza ações de fiscalização na região desde 2014, em média três vezes por ano, “fiscalizando toda a área de proteção ambiental, da nascente à foz, de forma a detectar pontos de poluição no córrego. Além dessas, também são feitas operações eventuais, a partir de denúncias da população por meio do telefone 162”. Além disso, o Instituto contou que vem realizando, desde o ano passado, o projeto “Como Pode um Peixe Vivo” voltado exclusivamente ao Córrego do Riacho Fundo. “O Ibram dará início a um levantamento das nascentes de toda a unidade hidrográfica, que, além do Riacho Fundo, envolve regiões que margeiam o ribeirão, como Núcleo Bandeirante, Candangolândia, Guará e parte de Águas Claras”, garantiu.
Já a Caesb apontou que os problemas de poluição no córrego não têm relação com o esgoto tratado pela companhia: “O tratamento feito é de qualidade e de nível terciário, o mais avançado entre os convencionais. Além disso, a Caesb tem um plano de monitoramento permanente, que garante a qualidade do efluente lançado no local”.