Vítor Mendonça
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A última testemunha de defesa, o perito criminal Sami El Jundi, com base em técnicas utilizadas pelo FBI para a apuração investigativa de cenas de latrocínio, comparou, em julgamento ontem, os laudos periciais e depoimentos dos autores do crime da 113 Sul. De acordo com ele, há compatibilidades e incoerências colocadas sobre os fatos que podem afastar a culpabilidade de Adriana no processo.
Segundo o perito, na cena do crime, há riqueza de vestígios, isto é, elementos que apontem uma ação no local, mas uma pobreza de indícios, ou seja, poucos materiais que remetessem à autoria do crime. Nos três primeiros depoimentos de Leonardo em comparação ao depoimento de Paulinho, acusados de assassinar o casal Villela, há compatibilidade de informações, como o uso de duas armas brancas, e detalhes sobre a cena como posições dos corpos e dinâmicas da ação.
A incompatibilidade dos depoimentos são evidenciados, ainda de acordo com Sami El Jundi, na omissão de supostamente amarrar a empregada da família, Francisca Nascimento. Além disso, nem Leonardo nem Paulinho assumem o assassinato de Maria Villela, mãe da ré, Adriana. “Quem confessa tem elementos que o colocam na cena do crime e, ao mesmo tempo, a tentativa de se eximir da responsabilidade do evento. Faz isso ou por vergonha ou por achar que terá mais tempo de pena.”
Sobre o crime, a suposição feita pelo perito é de que seja latrocínio. “Eles queriam dinheiro gastável. Eles precisariam de um receptador qualificado para converter esses objetos [joias e dólares], para que possam negociar a moeda rapidamente”, afirmou. Deixar objetos na cena do crime indica uma situação de pânico e medo de serem reconhecidos, como expõe Sami à luz do manual do FBI.
“Quem vai para roubar não necessariamente vai para matar. O pânico ou o medo de ser identificado modificar a dinâmica do evento completamente. Quem vai para matar vai com o risco máximo assumido.”
A acusação, no entanto, utilizou os mesmos argumentos para afirmar que o crime foi da natureza de mando, a partir da dinâmica do crime e o depoimento de Paulinho. “Leonardo abriu uma loja de bijuterias em Montalvânia, então ele tinha conhecimento sobre joias”, sugeriu o procurador do Ministério Público do Distrito Federal, Maurício Miranda.
Além disso, o procurador Maurício, ainda no início do depoimento da testemunha, levantou a questão de que o perito não estaria envolvido no processo para ter credibilidade de afirmar ou não o que aconteceu no local do crime. O perito, confrontado, confessou. “Somente poderíamos entender a dinâmica do crime se ele tivesse sido gravado em vídeo.”
Ainda na manhã de ontem, a penúltima testemunha foi ouvida. Apresentou-se o ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e amigo pessoal da família, Pedro Gordilho. De acordo com ele, que esteve presente na vida familiar dos envolvidos logo após o crime, para prestar solidariedade aos entes do casal Villela, Adriana se mantinha inquieta diante de possíveis atrasos na investigação policial e sugeria, a todo momento, a investigação do porteiro do prédio dos pais. “Era um mantra de Adriana: ‘Investiguem Leonardo’, ela dizia constantemente”, afirmou. “Parece que era uma intuição dela.”
Conhecedor da história da família desde o princípio, uma vez que era amigo pessoal de infância de Maria Villela e colega de trabalho de José Guilherme, as indagações feitas tanto pela defesa quanto pela acusação giraram em torno da percepção da testemunha sobre o relacionamento de Adriana com os pais, se respeitoso ou de agressividade.
“Acho que os atritos eram tão raros que acho inverossímil afirmar algo deste tipo. […] Nunca soube de nenhuma agressão da parte de Adriana contra a mãe”. Ainda sobre possíveis conflitos sobre uma suposta disputa financeira entre a ré e o irmão, além de desequilíbrios de mesma natureza com os pais, Pedro Gordilho foi categórico.
“Adriana é a pessoa menos ambiciosa que eu conheci em toda a minha vida. […] Em nenhum momento [ele e ministros do Tribunal] tivemos desconfiança da participação dela no crime. Inocência é uma palavra muito fraca, sempre acreditei na não culpabilidade de Adriana”, afirmou.
Após o assassinato do casal Villela e da empregada doméstica, Francisca Nascimento, três processos do advogado Guilherme, pai da ré, passaram a ser geridos pela testemunha em questão.
O julgamento
Hoje é o oitavo dia de depoimentos do caso e está previsto em Júri o depoimento da ré do caso da 113 Sul, Adriana Villela. Já são cerca de 75 horas de julgamento no Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT). Este é o mais longo da história do DF e permanece em andamento. A previsão é que o caso se estenda até amanhã, salvo outros possíveis atrasos.