O cenário é crítico. Centenas de moradores de rua dividem espaço com aqueles que trafegam pelas calçadas. Eles pedem comida, dinheiro, e muitas vezes até agridem e assaltam. Desde crianças até idosos são vistos deitados em cada esquina e eles encontram o sustento nas drogas e na prostituição. Alguns ainda têm moradia na Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (RIDE), outros, são caracterizados pela extrema pobreza que passam.
Na tentativa de ajudar esses moradores para terem acesso aos direitos de qualidade de vida, autonomia, desenvolvimento humano e cidadania, a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Trabalho (Sedest), por meio do Núcleo Especializado de Abordagem Social em Espaços Públicos, contribui para a inclusão social desses vizinhos que são indesejados pela população.
Com base nos atendimentos feitos pela Sedest de janeiro a novembro deste ano, a região de Brasília apresenta maior índice de moradores de rua, num total de 1.764. Em segundo lugar aparece Taguatinga, com 109 abordagens. Logo em seguida Cruzeiro com 55 e a Ceilândia, com 41.
As principais causas detectadas pela escolha de se morar na rua são desemprego, falta de moradia fixa, de estrutura familiar, vícios em drogas lícitas e ilícitas, problemas mentais, utilização da rua como geração de renda, violência doméstica, doações da comunidade (principalmente em épocas festivas), dentre outros.
Desses moradores, 77% são do sexo masculino e 23% do feminino. Sendo que 3% do total apresentam algum tipo de deficiência mental. A faixa etária dessas pessoas varia muito e a que apresenta maior porcentagem é a de 25 a 59 anos, com 50%. As outra 50% estão divididas entre 0 a 6 anos (2%), 7 a 11 (7%), 12 a 17 (22%), 18 a 24 (14%), e por fim, acima de 60 com 5%.
Os dados da Sedest ainda mostram que cada um deles tem uma situação de moradia diferente. 32% deles têm moradia fixa no DF e 28% no entorno. Já os moradores de rua com referência fixa são 25% e os 15% restante não têm.
Em Taguatinga, diversas crianças estão no mundo do crack e mal sabem elas o perigo que a droga causa. A maioria delas se instala no centro da região, onde chamam de cracolandia. “Saí de casa e não pretendo voltar, não gosto do meu padrasto. As pessoas dão comida aqui e ajudam. Tenho R$ 2. Falta R$ 1 para comprar uma pedra”, revela o jovem Marcelo Dias*, 14 anos. Ele sonha em estudar e ser piloto de avião um dia.
Outro jovem que participa do grupo de Marcelo é Antônio da Costa*, 15, é outra criança viciada na droga. Veio de Sobradinho para morar em Taguatinga. “Minha família saiu de onde morávamos e estão no Jardim Ingá. Nem sei mais onde ficam”, conta. A vontade de voltar para casa e de reencontrar a família é esquecida. Só o que lembra é de conseguir dinheiro para o crack.
De acordo com o guarda de trânsito, Jânio, conhecido em Taguatinga como “o amigo do trânsito”, diversas dessas crianças participam de assaltos e arrombamentos de lojas. “Tenho uma política de ajudar essas crianças a acharem as famílias. Corto cabelo delas, dou comida e converso dando conselhos para que saiam dessa vida”, destaca ele. A ideia dele é que essas crianças recebam um programa e sejam resgatadas para receber ajuda, e não maus tratos.
Ao sair do centro de Taguatinga, onde essas crianças mais se encontram e diversos adultos viciados em crack e outras drogas, está Carlos Alberto Bastos, 43 anos. Veio de Minas Gerais na década de 1980 e desde então reside embaixo de uma ponte na região. “Só Deus me ajuda. Alguns às vezes me dão comida, mas tiro meu dinheiro de lavagens de carro e também de quando cuido de veículos. Sinto que existe muita rejeição social e preconceito das pessoas com pessoas em nossa situação”, explica.
Com as feições cansadas e lágrimas escorrendo, Emília Soares, 23 anos, sofre pela perda do marido que foi atropelado na última quinta-feira, em Taguatinga. Ela vive entre moradores de rua embaixo de uma ponte. Veio do Piauí em busca de uma vida melhor e trabalho, já que tem o ensino fundamental. “Aqui não consegui nada. Raramente alguém ajuda. Tive cinco filhos e nem sei onde estão”, destaca.
A dificuldade em largar o vício em crack é outro problema. Para conseguir sobreviver e comprar a droga, a jovem Emília se prostitui. “Faço programa por R$ 20. Às vezes sobra dinheiro e consigo comprar comida, mas na maioria das vezes eu só uso a droga”, conta ela, que ainda sonha em ver a mãe um dia.
De volta para o centro de Taguatinga, está Kelly Cristina, de 20 anos. “Aqui faço de tudo. Vigio carros, às vezes faço programa, por R$ 30, e também uso drogas”. Viciada em maconha, cocaína entre outras, ela ressalta que usa o dinheiro que consegue para comprar roupas e comida. “Quero ser engenheira civil um dia, e vou estudar para isso”, completa ela, que por brigas em casa pelo fato de usar drogas, acabou indo embora.
No dia 3 deste mês, foi divulgado no Diário Oficial uma Portaria de número 165 que beneficia pessoas em situação de vulnerabilidade temporária de forma provisória. Os moradores em situação de rua entram, pois muitos não possuem documentação, estão abandonados, sem família e muitas vezes, sofrem com violência física, problemas psicológicos na família e até ameaças à vida. Ele é destinado a suprir situações de precariedade que impedem o desenvolvimento e a promoção sociofamiliar. O valor do benefício é no máximo R$ 415.
Leia a matéria na edição deste domingo (13) do Jornal de Brasília