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Creche comunitária pode fechar as portas por falta de doações

Instituição atende crianças em vulnerabilidade social e auxilia as famílias com a entrega de alimentação e muito carinho

Por Lindauro Gomes 28/10/2021 5h44

Luciana Costa
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Sessenta crianças de 1 a 4 anos passam o dia inteiro, de segunda a sexta, na Creche Comunitária Monte Moriá, localizada em São Sebastião. A instituição sem fins lucrativos, que sobrevive unicamente de doações da comunidade, trabalha para que as crianças em situação de risco social possam ter a melhor infância possível.

A crise econômica provocada pela pandemia do novo coronavírus comprometeu a renda salarial de 3,3 milhões brasileiros, que perderam o emprego neste um ano e meio, além disso, a disparada inflacionária dificulta cada vez mais a compra de itens e alimentos básicos para as famílias de baixa e média renda. Por isso, muitas pessoas da comunidade que contribuíam regularmente na Creche Monte Moriá se viram forçadas a suspender as doações, tanto em dinheiro quanto em cestas básicas.

Esta situação prejudicou o auxílio dado às mães. Contudo, a creche, embora fechada devido à pandemia até dezembro de 2020, continuou a oferecer mais de 150 refeições por dia para as pessoas da comunidade, que pediam por um prato de comida.

A diretora da creche, Maria do Carmo, de 40 anos, contou que as pessoas, que ajudavam todo mês, ou faleceram em decorrência do coronavírus ou perderam os empregos. “Até a doação das cestas básicas, que repassávamos para as mães das crianças, não estamos conseguindo como antes”, desabafa.

Em 2021, a creche voltou a funcionar presencialmente, oferecendo cinco refeições ao dia: café da manhã, lanchinho com frutas, almoço, lanche da tarde e jantar para as crianças – que voltam para casa com uma sacolinha de pão – para suprir as necessidades básicas e ajudar ao máximo as famílias.

De olho nas mães

Maria do Carmo afirmou que o trabalho não é apenas pelas crianças, mas, principalmente, pelas mães. “Uma mulher que sofre agressão dentro de casa, por exemplo, não precisa continuar sendo agredida por aquele homem em troca de um prato de comida, porque ela pode deixar o filho na creche e trabalhar, estudar para melhorar sua condição de vida”, exemplificou.

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O principal objetivo da creche é ajudar as mães a saírem de uma situação de vulnerabilidade, seja por sofrer violência doméstica ou por passar fome. O trabalho também é oferecer a elas cursos profissionalizantes, aulas de assuntos relacionados à saúde física e mental, palestras de incentivo à denúncia de violência dentro de casa.

De acordo com dados da Codeplan, há aproximadamente 600 mil crianças em idade escolar no Distrito Federal. Em São Sebastião, consta que a população de 92 mil possui renda per capita de R$ 894,31.

Luciene Maria de Jesus, de 35 anos e mãe de cinco, trabalha como vendedora nas ruas para completar o Bolsa-Família de R$ 294. Ela narra a luta diária para pagar as contas: aluguel, alimentação, luz, água. “Para pagar o aluguel, é matando um leão por mês. Para a comida, nós contamos com as doações das igrejas, Casas de Passagem, CREAS, e eu continuo vendendo minhas balinhas, paçocas, picolé, de tudo um pouco.”

Com os dois filhos pequenos matriculados na creche, Hadassa, de 3 anos, e Daniel, de 1 ano e 10 meses, Luciene chama a Monte Moriá de família. “Isso porque as pessoas aqui cuidam de nós como se fôssemos da mesma família […] o que tem feito as crianças não passarem necessidade de, até mesmo de fralda e leite, é a creche.”

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Apoio a refugiados

Os moradores venezuelanos de São Sebastião também estão assistidos pelo Governo Distrito Federal. A Creche Monte Moriá é uma das poucas que aceitam crianças venezuelanas. Maria do Carmo revelou que, das 60 crianças, dez são filhos de refugiados.

“Um dia, um assistente social veio com a mãe de gêmeos e uma bebê recém-nascida pedindo ajuda e, mesmo sem vagas abertas, nós recebemos os gêmeos e arranjamos um carrinho de gêmeos mesmo, e ela coloca os dois de um lado e a bebê do outro”, contou.

Do Carmo falou que tem a esperança de continuar a ajudar as famílias em situações de vulnerabilidade no próximo ano. No entanto, devido à situação atual do país, talvez a creche possa ser fechada, “mas gostaríamos de manter o atendimento, mesmo que diminua a quantidade de crianças.”

Como colaborar?

Se quiser ajudar a creche, pode fazer doações por pix: CNPJ 27.111.771/0001-02 ou pelos telefones: (61) 3335-1554/(61) 98450-7961.

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