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Brasília

Cotas diminuem abismo entre brancos e negros na educação

Arquivo Geral

07/07/2016 6h00

Mateus Alencar

Eric Zambon
eric.zambon@jornaldebrasilia.com.br

Madu Krasny é uma transsexual negra de 18 anos que apoia o sistema de cotas em universidades. Ela vive e convive com a opressão e o preconceito, muitas vezes silenciosos (os mais doloridos), e entende que as vagas reservadas dão oportunidades acadêmicas e profissionais para mais representantes de grupos oprimidos. Curiosamente, a estudante não usufruiu das cotas para passar no vestibular e ingressar em Letras, há seis meses.

“Com as cotas, os negros podem ocupar um lugar que já deveria ser nosso”, defende a jovem, que revela lidar com colegas machistas, racistas e homofóbicos em algumas turmas. “Vejo mais e mais negros na universidade, mas não basta. Temos que estudar mais a história negra. Só se fala sobre Europa, enquanto sobre os negros só relatam a escravidão”, critica.

Seu pensamento segue a lógica de especialistas e ativistas para defender a medida de inclusão, que fez a quantidade de estudantes negros na UnB saltar de cerca de 400, em 2004, para quase 3 mil, no início deste ano. “A cota tem duas faces. Ela olha para o negro e lhe diz que ele é capaz, e mostra para a sociedade branca do que negro é capaz”, contextualiza a presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB-DF, Indira Quaresma.

Mas a realidade ainda está longe do ideal, como constatam os amigos Diego Castro Magalhães, 26, estudante de Engenharia Elétrica, e João Luis Nascimento, 19, do curso de Geografia. Diego, branco, diz que a maior parte dos colegas de classe tem o mesmo tom de pele, enquanto João, negro, garante conviver com várias pessoas da mesma cor em suas turmas.

O primeiro está em um dos cursos mais disputados do último vestibular, com quase quatro pessoas por vaga, enquanto o segundo está em um espaço menos concorrido, com menos de duas pessoas por vaga. Não é coincidência.

“Desde que entrei, não vi muita diferença no meu curso, mas na universidade, sim”, admite Diego, que está no 12º semestre. Para ele, o contexto histórico que faz com que as crianças brancas tenham mais acesso à educação fundamental de qualidade ainda influenciam bastante os resultados para os cursos de maior procura. “Geralmente, temos mais acesso a cursinhos e coisas assim”, pondera.

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À margem da sociedade

João Luis Nascimento, que não precisou das cotas para passar no vestibular, afirma não haver diferença intelectual entre um e outro. “O problema é que os negros ainda estão marginalizados, e as cotas ajudam a diminuir isso”, acredita. Para ele, a presença mais contundente em cursos mais complicados e, consequentemente, em cargos de maior relevância, ajudaria a diminuir o racismo. Diego, por sua vez, observa que em sua sala a maioria é formada por alunos brancos.

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Malas prontas para doutorado nos EUA

Janiele Custódio, 23 anos, é cotista do curso de Engenharia de Produção e ganhou bolsa para fazer doutorado nos Estados Unidos. Para a moça, foi algo até simples. “Apenas fui lá e me inscrevi”, diz. Para o sistema, é um passo gigante. “As coisas foram acontecendo. Eu achava que seguiria uma carreira corporativa normal, nunca pensei em ser pesquisadora”, conta.

Seu feito contrasta com a realidade que ela vai deixar para trás. Na sua turma atual, por exemplo, ela diz ser a única negra a se formar. “Não entrei sabendo muito, mas entrei sabendo estudar. Quando os desafios apareciam, eu estudava e dava um jeito. Se a matéria exigia virar a noite, eu virava”, relata. Por mais que ela não se veja como um espelho para outros estudantes, enxerga a importância de haver mais diversidade em cursos e cargos de maior relevância no País.

“Se você olha para o lado e não vê ninguém igual a você, é difícil se encaixar”, resume a moça. Segundo Janiele, isso ainda assola o ambiente acadêmico, mas em uma esfera superior: a dos docentes. “Eu não tive nenhum professor negro na universidade. Tive que ir para os EUA para conhecer o primeiro”, reclama.

A presidente da Comissão de Igualdade Racial da OAB, Indira Quaresma, afirma que exemplos como o de Janiele tendem a se tornar menos raros com a expansão do programa de cotas. “Ter o diploma na mão não muda uma vida por si só. Mas quando a pessoa chega ao mercado de trabalho, por mais que ainda enfrente questões raciais fortes, estará mais preparada”, defende.

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Ponto de vista

Um dos argumentos contrários às cotas é: já que a maioria dos negros ocupa  faixas de renda menores, por que não fazer cotas sociais? O coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa (INCTI), José Jorge de Carvalho, responde: “Sempre houve um certo número de pessoas de baixa renda na universidade, o que não havia era negros”. “Nosso racismo é conhecido mundialmente”, prossegue o especialista,   professor de Antropologia da UnB. “As cotas são medidas antirracistas, que aumentam a inclusão no ambiente acadêmico. Nenhuma sala nossa tem apenas   brancos, como era no início dos anos 2000. Isso acabou!”.

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