Protestos, confrontos, engarrafamentos, buzinas e muita espera. Assim foi a tarde de ontem em Brasília. Com uma frota de aproximadamente 1,5 milhão de carros nas ruas da cidade, a manifestação dos sem-terra na Esplanada dos Ministérios provocou um verdadeiro caos no trânsito. A Polícia Militar bloqueou o acesso ao Eixo Monumental e a recomendação era evitar a área central. O congestionamento tomou conta das vias desde o Setor de Indústrias Gráficas (SIG) até a Catedral Metropolitana. Algumas pessoas chegaram a ficar três horas presas no tráfego.
“Estou há 40 minutos parado. Acho que estou dentro do carro há umas três horas. E, sinceramente, não acredito que isso é culpa dos manifestantes. Sou a favor de protestos. Mas quem deveria organizar o trânsito não faz isso direito. Simplesmente fecha as vias e o trabalhador que se vire”, desabafou o caminhoneiro Eupídio Campos, 36.
Porém, de acordo com o Batalhão de Trânsito do DF (BPTran), a organização do tráfego durante manifestações é planejada, justamente, para diminuir os efeitos das obstruções na vida dos cidadãos. “A gente vai fechando as vias por onde os manifestantes passam. E, à medida que isso vai acontecendo, vamos abrindo outras. A nossa ideia é facilitar a mobilidade e não o contrário”, assegurou o chefe operacional do 1º BPTran, major Sérgio Robalo.
Sem saída
Para ele, contudo, Brasília apresenta duas características que dificultam o fluxo durante protestos. “Nós temos duas vias paralelas em Brasília, duas únicas principais. E o brasiliense não tem o hábito de buscar alternativas. Por outro lado, tanto a Esplanada quanto o Eixo são vias que absorvem muitos veículos. As alternativas delas, S1, N1, não comportam a mesma quantidade de carros. Aí, claro, você vai ter um tráfego muito mais lento”, explicou Robalo.
Vale ressaltar que Brasília está a quatro meses dos jogos da Copa do Mundo. E, até agora, as discussões sobre mobilidade urbana não chegaram a lugar algum. A quarta região mais populosa do Brasil entra em colapso quando acontecem protestos na cidade. Os motoristas não sabem para onde ir e os pedestres acabam ilhados na Rodoviária do Plano Piloto.
Previsão da população é de caos na Copa
Sobre a expectativa para a Copa do Mundo, em junho, o chefe operacional do 1º BPTran, major Sérgio Robalo, acredita que a tendência é de uma preparação muito maior. Portanto, mesmo com as ameaçadas de protestos, o trânsito deverá fluir. “O esquema vai ser muito parecido com o que aconteceu na Copa das Confederações. Só que como se trata de uma Copa do Mundo, a divulgação vai ser muito maior e as pessoas sairão de casa sabendo o que vão encontrar. Além disso, a quantidade de agentes envolvidos é muito maior”, avaliou.
Nas ruas, a expectativa dos brasilienses é de uma cidade em colapso. “Imagino o caos total na Copa. Não consigo ser muito positiva. Vai acontecer manifestação e, infelizmente, os mais prejudicados seremos nós. Olha aí, não temos nem um plano de mobilidade”, ressaltou a pedagoga Ericka Margarida, 30. Ela e a mãe ficaram duas horas presas no trânsito da via S1, bloqueada entre a Rodoviária e a Catedral.
Quem estava na esperança de chegar em casa ainda no final da tarde acabou se desanimando. “Nem penso mais em chegar antes das 19h. Daqui para o Paranoá é mais lentidão”, disse o empreendedor individual Johny Cardoso, 37.
Confronto entre MST e polícia
A marcha do MST reuniu aproximadamente 15 mil pessoas e também ficou marcada pelos confrontos entre os manifestantes e a Polícia Militar. O clima ficou tenso depois que integrantes do movimento chutaram e derrubaram as barreiras metálicas montadas pela polícia em frente à Praça dos Três Poderes. Houve reação dos policiais, que usaram gás de pimenta e balas de borracha para conter a violência.
O momento mais tenso do protesto foi quando um grupo de policiais ficou encurralado em volta de um ônibus. Integrantes do MST atiraram pedaços de pau, latas de lixo e objetos contra os policiais. Um outro grupo de manifestantes pedia aos demais que parassem com o ato e ajudaram os PMs a sair do cerco.
João Paulo Rodrigues, integrante da direção do MST, disse os policiais teriam entrado no ônibus, tomado a chave do motorista e agredido os militantes.
Feridos
Ao todo, foram mobilizados 500 policiais militares para conter os manifestantes. De acordo com o comandante do 6º Batalhão de Polícia Militar, Lúcio César, 30 policiais ficaram feridos, sendo oito deles com lesões graves. O comandante afirmou ainda que um manifestante ficou levemente ferido e outro foi preso.
“A manifestação seguia pacífica até que os integrantes do movimento tentaram invadir o STF (Supremo Tribunal Federal) e o Palácio do Planalto. Foi exatamente neste momento que ordenamos aos policiais militares que agissem e impedissem o progresso deles”, relatou o comandante Lúcio César.